DAVOS- O premier britânico, David Cameron, afirmou ontem que a Alemanha precisa contribuir com mais recursos e garantias para ajudar a resolver a crise do euro e disse que os legisladores europeus ainda estão longe de encontrar uma solução para ela. Segundo o diário de negócios britânico "Financial Times", Cameron também criticou os líderes europeus, dizendo que estes se deixam distrair por outras questões, como o imposto sobre transações financeiras, que classificou de "loucura pura e simples".
O discurso de Cameron no Fórum Econômico Mundial, em Davos, foi um reflexo da frustração da Grã-Bretanha com a liderança alemã na zona do euro. Ele ainda defendeu o reforço do fundo de resgate, para evitar o contágio da crise, além de uma dívida soberana comum e que as nações mais fortes reduzam seus superávits comerciais, enquanto as menores tentam reduzir seus déficits.
- Uma rígida disciplina fiscal é essencial. Mas este é um problema de déficits comerciais, não apenas de déficits orçamentários - disse o premier.
Cameron quer que Europa esqueça Rodada de Doha
Segundo o "Times", esse discurso foi bem recebido por britânicos e americanos que participam do Fórum, que criticaram a Alemanha por pedir que outros países sigam seu exemplo - mas ignora o fato de que, para equilibrar a zona do euro, precisa importar mais e reduzir seu saldo comercial.
Em sua defesa de um fundo de resgate maior e da emissão de eurobônus - ambos rejeitados pela Alemanha -, Cameron acabou se alinhando com a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde. Ela fez o mesmo discurso esta semana.
- Como (o premier italiano) Mario Monti sugeriu, o outro lado da austeridade nos países deficitários precisa ser que os superavitários ajudem o euro - disse Cameron. - Sei que isso não é fácil. São passos difíceis e radicais para qualquer país.
Outra proposta radical de Cameron foi que a Europa esqueça a Rodada de Doha, de liberalização do comércio global, dando preferência a acordos bilaterais com Estados Unidos, África e outros interessados.
- No ano passado, neste mesmo fórum, os líderes globais pediram um esforço para concluir Doha em 2011. Temos de ser francos, não funcionou - disse Cameron.
Investimentos chineses trazem temor e esperança
Mas o prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz alertou que acordos bilaterais são piores para os países pobres:
- Eles tendem a ser mais injustos porque o poder de barganha é desequilibrado.
Outro foco de Davos foi o capitalismo de Estado chinês. Um debate promovido pela agência de notícias Associated Press discutiu os investimentos da China no exterior, vistos tanto com desconfiança quanto como uma esperança de impulso à economia global.
John Zhao, diretor-executivo da Hony Capital, que controla a fabricante de computadores Lenovo, apontou preconceito contra os investimentos da China e disse que as empresas do país "ainda estão tentando aprender as regras".
O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, Pascal Lamy, no entanto, admitiu que a China continuará a enfrentar "problemas de percepção pública" com relação a seus investimentos no exterior.


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