Narciso Bezerra, ou Velho do Rio, como é conhecido, pode ser descrito como um senhor de 84 anos que não quer nada com o luxo. Mas, pelo lixo, ele tem muito interesse.
- Cheguei a ir da Ilha do Governador a Jacarepaguá procurando fios de telefone nas lixeiras - conta.
Velho do Rio produz todos os seus trabalhos com fios de telefone feitos de cobre, que encontra em latas e caçambas de lixo.
Até o final de janeiro, o artista insulano expõe parte de suas obras na Lona Cultural Renato Russo, no Cocotá. A mostra tem entrada franca.
Dinheiro parece mesmo não ter a menor importância para esse senhor. Hoje, ele vive da aposentadoria que recebe, mas já fez de tudo um pouco. Velho do Rio foi projetista do extinto cinema Metro-Copabana, porteiro, pintor de automóveis, bombeiro, eletricista e pescador. E foi para conseguir ingressar nessa última profissão que começou a fazer suas esculturas.
- Há 25 anos, quando vim morar na Ilha, precisava comprar um barco para trabalhar como pescador. Foi nessa época que passei a fazer peças. Fui vendendo e juntando dinheiro até conseguir uma embarcação - lembra.
Mas Velho do Rio faz questão de enfatizar que aquele foi o único período em que vendeu seus trabalhos:
- Meu objetivo não é ganhar dinheiro com a arte, mas, sim, chamar a atenção dos jovens para a importância da preservação do meio ambiente. Por isso só trabalho com material reciclado.
Foi com essa matéria-prima que o artista fez sua obra preferida: um homem de quase dois metros de altura com uma picareta. A peça, chamada de "O sexagenário", é uma homenagem aos escravos com mais de 60 anos que ganharam sua liberdade em 1885, a partir da promulgação da Lei Saraiva-Cotegipe, ou Lei dos Sexagenários. Curiosamente, a escultura recebeu patins em seus pés.
- Ando com ela para tudo quanto é lugar. Uma vez, eu a levava para uma exposição no Museu da República, no Catete, quando fui barrado por um segurança em um dos acessos ao metrô. Foi uma confusão danada, mas um supervisor que gosta de artes plásticas liberou minha passagem - diz.


Ainda não existem comentários