Posts do blog de Pedro Alexandre Sanches

  • O ódio de Bethânia

    Ela diz que é uma carta de amor. Trata-se, de fato, do único momento vibrante de um álbum de modos menores, por vezes depressivos, que a cantora batizou "Oásis de Bethânia". Em seu novo disco, a baiana Maria Bethânia reservou para o quase final a faixa "Carta de Amor", escrita por ela sob melodia do compositor de sambas de amargor Paulo César Pinheiro. Atrás do nome inofensivo, oculta-se talvez o mais monumental canto de ódio da história da música brasileira.

    A suíte de sete minutos de duração intercala textos declamados com trechos em clave de samba de roda, todos eles de prumada no mínimo ameaçadora. "Não mexe comigo/ que eu não ando só", diz o refrão mais constante, cantado por ela em falsete fantasmagórico. "Não ando no breu/ nem ando na treva/ é por onde eu vou que o santo me leva." "Eu não provo do teu fel/ eu não piso no teu chão/ e para onde você for/ não leva meu nome, não." "O que é teu já tá guardado/ não sou que vou lhe dar." Amor? Só se for no registro do sarcasmo.

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  • O Brasil 'de baixo' da música de Chico Anysio

    Capa do disco de 1975Era um dos muitos quadros do cômico programa de TV Chico City. Satirizava abertamente uma turma MPB bem personalizada nas figuras dos tropicalistas baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil, assim como seus discípulos mais imediatos, os Novos Baianos de Moraes Moreira, Galvão, Baby Consuelo, Pepeu Gomes & cia. Satirizava-os com alguma crueldade e laivos de racismo (antibaiano), homofobia e bullying, embora os dois últimos termos nem existissem no Brasil de 1974.

    A dupla do esquete de humor se chamava Baiano & Os Novos Caetanos. O cearense Chico Anysio, sob o apelido "Baiano", usava bata e cabelão à moda de Caetano, Gal Costa ou Maria Bethânia. O pernambucano Arnaud Rodrigues, "Paulinho", vinha com pinta de cantador de porta de igreja, sarará, meio Lampião, quase preto, quase Gil.

    Era gozação. Mas, à parte os personagens e as gags, Chico e Arnaud compunham e cantavam à vera. Talento musical à flor da pele, o quadro humorístico logo enveredou para discos abundantes, brasileiramente ricos,

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  • Criolo e a síndrome de Estocolmo

    Antes de virar modinha em circuitos mais elitistas, o rapper paulistano Criolo já compunha (há décadas) letras de franca provocação contra gente que pertence a esses mesmos círculos. “Gosta de favelado mais que Nutella/ quanto mais ópio você vai querer?/ uns preferem morrer a ver o preto vencer”, ele provocava mauricinhos e patricinhas em "Sucrilhos", do álbum "Nó na Orelha", justamente aquele que faria o músico virar modinha, logo que saiu, no início deste ano.

    O tema aqui é a cruel ambiguidade da guerra racial nossa de cada dia. Planta uma pergunta direta no coração do mauricinho que despreza e/ou teme o menino da favela, mas precisa dele para obter sua cota mensal de maconha ou outro brinquedo químico.
     
    “Eu tenho orgulho da minha cor/ do meu cabelo e do meu nariz/ sou assim e sou feliz/ índio, caboclo, cafuzo, crioulo/ sou brasileiro”, dizia na mesma "Sucrilhos", raspando a pele de brasileiros que tendem a cultivar preconceitos contra nordestinos, negros, índios, mestiços, pardos e

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  • O Brasil foi dos 'sertanejos' em 2011

    Quem tem dois olhos e, principalmente, dois ouvidos já sacou, mas não custa comentar: os sertanejos levaram todas na música comercial brasileira em 2011. Paula Fernandes, Luan Santana, Michel Teló, Gusttavo Lima etc. etc. etc. são os artistas mais bem-sucedidos (e ricos) do Brasil atual. Gente da velha guarda também seguiu abiscoitando nacos de fama e falatório, nem que fosse por intermédio de brigas e sofrimentos, como foi o caso recente de Zezé di Camargo & Luciano.

    Aí a filial brasileira da Sony Music acaba de lançar "Amor de Alma", novo disco da dupla Victor & Leo, da, digamos, geração do meio do pop sertanejo (a geração mais nova está abolindo as duplas, é isso mesmo?). Dá o que pensar desde a capa, que é bonita, impressionante, inclusive por remeter a uma cena de faroeste norte-americano, ou coisa parecida, Victor e Leo de caubóis, em movimento, montados em garbosos cavalos "de raça".

    Este sempre foi um grito de guerra da chamada MPB, desde pelo menos o início dos Saiba mais »
  • Inezita, suave na nave

    No palco, Cauby Peixoto, Inezita Barroso e Angela MariaInezita Barroso, dama majestosa da “Moda da Pinga”, do folclore (como ela gosta de dizer) e da música caipira brasileira e paulista, está na primeira fila, assistindo ao show.

    No palco está Flávio Renegado, rapper mineiro egresso da periferia de Belo Horizonte, que acaba de lançar seu segundo álbum, “Minha Tribo É o Mundo”. Ele canta “Suave”, um dos novos e suingados raps: “Os manos como é que estão?/ suave!/ e as minas como é que estão?/ suave/ geral dentro do salão?/ suave!/ suave na nave, suave!”.

    Inezita já fez algumas caretas nesta noite de 29 de novembro, no Tom Jazz de São Paulo, durante a entrega do maluquíssimo Troféu Sexo MPB, do jornalista, escritor e produtor musical carioca Rodrigo Faour.

    Mas agora, não. Assistindo a Renegado, sua fisionomia está leve, sorridente. Quando ele pede a adesão da plateia ao coro de “suave!”, Inezita deixa chegar a hora de “e as minas como é que estão?” para exclamar, junto com todo mundo: “Suaaaaave!”.

    Eu estou numa fila lá atrás (o Tom Jazz é bem

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  • Afinal, somos todos bregas?

    E aí saiu o disco novo de Marisa Monte, “O Que Você Quer Saber de Verdade”, que ando ouvindo por aqui. Em linhas gerais, concordo à beça com o que disse no site da revista “Época” meu colega Luís Antônio Giron, num artigo denominado “Somos todos bregas”. É, "brega", pode ser, sim...

    Em linhas mais particulares, ouço e me sinto em qualquer um dos discos que Marisa tem lançado com parcimônia desde 1989. Mas me sinto, também, num brasileiríssimo (embora algo sisudo) parque de diversões. Tem maçã do amor, algodão doce, pipoca e pop brasileiro a valer no circo da Marisa.

    “Nada Tudo”, por exemplo, soa aos meus ouvidos como música sertaneja, caipira, sertaneja universitária, caipira urbana.

    “O Que Se Quer”, composta e cantada com o (ex-)Los Hermanos Rodrigo Amarante, é nordestina de tudo, com sanfona e tudo. Nessa e em outras faixas, como a alegre e circense “Hoje Eu Não Saio, Não”, quem toca sanfona é o forrozeiro cearense Waldonys. Tem baião, xote e xaxado? Tem, sim, senhor. Tem goiabada e Saiba mais »
  • A gente não somos inútil!

    E então o rock’n’roll desceu das tamancas, no festival musical que faz da sustentabilidade seu mote principal. A turma do Peter Gabriel tretou com a turma do Roger Moreira, e a treta ocorrida num descampado no interior de São Paulo correu mundo, fazendo efeito em roqueiros de Chris Cornell a Lobão a Brian Eno. Até o tão viril rock’n’roll pode viver seus dias de revista de fuxico e fofoca, por que não?

    Não estou indo aos shows do SWU, nem acompanhando pela televisão. Mas o Twitter, em casos como esse, é quase suficiente para informar a espinha dorsal do que a gente precisa saber: a turma do Peter Gabriel, gênio por trás do grupo britânico setentista de rock progressivo Genesis, tentou dar um passa-fora na turma do Roger, gênio por trás do grupo brasileiro oitentista de rock new wave Ultraje a Rigor. Atenção para a próxima frase: tentou, mas não conseguiu.

    A maioria dos artistas e bandas daqui prefere historicamente abafar o hábito corrente em festivais multinacionais, de os brasileiros

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  • Até o Tucupi

    “É a nossa floresta, somos todos um só povo, o povo da Amazônia”, expõe do alto do palco o carismático reggaeman paraense Juca Culatra. Estamos, desta vez, em Manaus, no estado do Amazonas, que é ao mesmo tempo muito longe e muito perto da Belém de Juca Culatra.
     
    O festival Até o Tucupi acontece no bairro periférico de Jorge Teixeira, a 18 quilômetros do histórico e central Teatro Amazonas. As distâncias são reais, e também simbólicas. Os sentimentos que separam o centro e a periferia de Manaus são equivalentes à floresta que separa Manaus de Belém e ao Brasil interior que separa o Brasil do norte do Brasil.
     
    As distâncias são colossais, mas estão diminuindo perceptivelmente.
     
    Estou na periferia de Manaus, desta vez a convite do Coletivo Difusão, coligado ao sistema Fora do Eixo, que circunda o Brasil empenhado em desparafusar as engrenagens do atualmente enferrujado eixo cultural Rio-São Paulo. O Brasil não é só São Paulo e Rio, berram o Difusão e outros muitos coletivos espalhados país

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  • A música brasileira em Belém do Pará, parte 2

    São muitas as razões a colocar o Pará na vanguarda da produção musical brasileira neste início de século 21, mas uma delas é especial. Em Belém, torna-se nítido: desmoronaram de vez as barreiras artificiais que por décadas tiranizaram artistas, espectadores e intermediários (como nós, jornalistas), separando tudo em dois grupos imaginários supostamente incompatíveis, o dos "cafonas" e o dos "não-cafonas".

    Gaby Amarantos e o tecnobrega são, como de praxe, a ponta do iceberg. Mas é muito mais vasto o bloco de gelo (ou melhor, de fogo) que está levando o Titanic do preconceito à deriva.

    Os quatro dias de programação do festival Conexão Vivo Belém, entre 27 e 30 de outubro, deixaram evidente que na música do Pará são plenamente difusos os limites que separam (ou melhor, não separam) MPB, rock, música erudita, lambada, pop, tecnobrega, jazz, carimbó, blues, rap, calipso, reggae, samba, soul, choro, música caipira e sertaneja, transe indígena, marabaixo etc. etc. etc.

    Acima de tudo, não existe

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  • A música brasileira em Belém do Pará, parte 1

    Gaby Amarantos é uma espécie de embaixadora do Pará Brasil afora (Foto: Mowapress/Flickr)“O Brasil não conhece o Brasil/ o Brasil nunca foi ao Brasil”, dizia a velha canção interpretada pela gaúcha Elis Regina. Os versos ecoam no seu crânio quando você está em Belém do Pará, assistindo a um festival de música integrado predominantemente por artistas paraenses.

    Aconteceu comigo neste último fim de semana, na etapa belenense do festival Conexão Vivo, criado e patrocinado pela operadora de telefonia celular. Fui, como se costuma dizer no jornalismo, a convite da Vivo, recebendo da "patrocinadora" da viagem transporte, hospedagem e alimentação. Tinha estado em Belém algumas vezes nos últimos anos, e a esta altura já posso dizer sem medo que é o lugar mais criativo e inspirador do Brasil atual, em termos musicais. Foram quase 40 atrações, e mais da metade dos artistas escalados nasceram e/ou moram no Pará. Dentre todos, não vi nem ouvi nenhum que fosse desinteressante, no mínimo, ou não fosse sensacional, no máximo.

    Nenhum deles é conhecido nacionalmente, com as possíveis e

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