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    Quando Harvard passa a rimar com esporte

    Fundada em 1636, a Universidade Harvard está associada a ganhadores do prêmio Nobel (44 são ou foram seus professores ou alunos), a presidentes dos EUA (oito passaram por lá, de John Adams, ainda no século 18, a Barack Obama) e ao Facebook (Mark Zuckerberg era aluno de Ciências da Computação quando criou o brinquedo).

    Esporte não é uma área que pareça combinar com a excelência acadêmica da instituição, destinada a formar a elite governamental e econômica dos EUA e de outros países. Dois de seus ex-alunos, contudo, trataram recentemente de desafiar essa lógica: Paul DePodesta e Jeremy Lin.

    A trajetória do primeiro é recriada em "O Homem que Mudou o Jogo", candidato ao Oscar em seis categorias, incluindo as de melhor filme, ator (Brad Pitt) e roteiro adaptado. Disponível em DVD nos EUA desde meados de janeiro, só foi lançado nos cinemas do Brasil na semana passada. (E depois as distribuidoras reclamam da pirataria.)

    Pitt interpreta o ex-jogador de beisebol Billy Beane. Obscuro nos gramados, ele preferiu abandonar cedo a carreira para se tornar olheiro (caçador de novos talentos) e, depois, dirigente. Na gerência-geral dos Oakland Athletics, montou um time barato que bateu, em 2002, o recorde nacional de vitórias consecutivas (20).

    Seu método original (e polêmico) para formar o elenco, baseado em estatísticas de desempenho, foi desenvolvido graças à ajuda de DePodesta, formado em Economia por Harvard. Discordâncias com os produtores levaram à troca do seu nome e da universidade: no filme, DePodesta se chama Peter Brand (Jonah Hill, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) e estudou em Yale.

    Delicioso para os fãs de esporte, mesmo os que não acompanham beisebol, "O Homem que Mudou o Jogo" é baseado no livro "Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game" (Dinheirobol: a arte de ganhar um jogo injusto), de Michael Lewis, autor também do livro que deu origem a "Um Sonho Possível" (2009).

    Diversos fatos foram simplificados ou alterados pela adaptação, mas a essência se manteve: Beane e DePodesta ajudaram a revolucionar a gestão do mais romântico dos esportes norte-americanos. Contra o poderio financeiro dos grandes times (daí o "jogo injusto"), recorreram aos números e criaram uma nova forma de avaliar jogadores.

    Os "dinossauros" do beisebol -- dirigentes, treinadores e recrutadores de atletas -- estavam habituados a lidar com fatores subjetivos. Se a namorada de um jogador não fosse bonita, por exemplo, eles o veriam como alguém sem muita confiança e, portanto, com potencial limitado. Beane e DePodesta aplicaram uma dose cavalar de ciência ao jogo.

    Os Oakland Athletics não foram campeões, mas o Boston Red Sox saiu de uma fila de 85 anos, em 2004, utilizando esse método. Desde então, todos os demais clubes passaram a dar atenção aos critérios objetivos embutidos nessa revolução. Beane continua em Oakland; DePodesta está nos New York Mets. O beisebol profissional dos EUA mudou.

    Aí entra o outro ex-aluno de Economia de Harvard mencionado no início, Jeremy Lin. Descendente de chineses de Taiwan, ele nasceu nos EUA e jogou (bem) basquete no ensino médio e na universidade, como armador. Ninguém o quis, entretanto, no "draft" (a "pescaria" dos times da NBA entre os candidatos à profissionalização) de 2010.

    Mesmo assim, teve passagens apagadas por alguns times antes de desembarcar como o terceiro reserva de sua posição, apenas para completar o elenco em um período emergencial, no New York Knicks -- que, embora não seja campeão desde 1973, é a mais valiosa franquia da NBA.

    Duas semanas como titular sob os holofotes gigantescos de Nova York, em fevereiro, bastaram para que Lin se transformasse no maior fenômeno da temporada nos EUA. Magic Johnson, um dos maiores craques na história do basquete, atribuiu o bom jogo de Lin à sua inteligência. Harvardball.

    Repórteres tentaram descobrir por que ninguém havia dado atenção a ele. Talvez porque viesse de Harvard, talvez porque fosse descendente de chineses, em um esporte dominado por negros da classe trabalhadora.

    Descobriu-se, no entanto, que ao menos um blogueiro enxergou o talento de Lin: Ed Weiland, que o considerou, no "draft" de 2010, a melhor opção entre os armadores disponíveis.

    Para isso, Weiland usou princípios de análise estatística semelhantes aos aplicados no beisebol por Beane e DePodesta. A descoberta da "profecia" fez o blog para o qual colabora, Hoops Analyst, sair do ar por casa do volume de acessos.

    Nossa fábula sobre Harvard termina por aqui. Ed Weiland, o homem que vislumbrou o futuro de Lin graças à leitura apurada de números, como se fosse um economista ou um matemático, trabalha como motorista de caminhão para a FedEx em Bend (Oregon).

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