ATIVIDADES DE AMIGOS

    Mente Aberta
    • Filhos da mãe

      Noel Rosa (1910-1937) - gênio do samba, carioca de vida curta e intensa - plasmou o verso: "É brasileiro, já passou de português." Brasileiro, no caso, se refere a nossa língua. Portuguesa na origem, verde-amarela no uso e no abuso.

      Língua que permite que eu escreva aqui e você leia aí. Que faz uma gaúcha entender uma cearense, ou um catarinense ler versos de um amazonense. Não vamos esquecer: o objetivo de qualquer idioma é comunicar.

      Daí é bem-vinda e produtiva a determinação do ministro de Educação de haver maior exigência nas correções da redação do Enem. Afinal, o ensino da língua materna nos bancos escolares é obrigação, não é opção. Pois tal patrimônio, ou melhor matrimônio, é das filhas e filhos do Brasil.

      Mas se é função da escola ensinar a língua padrão, é responsabilidade de todos - mídias, comerciantes, comentaristas da internet, blogueiros, governos - levar a gramática a sério. Como bem pontuou o poeta Paulo Leminski: trabalhar a língua com liberdade e com rigor.

      Na

      Saiba mais »de Filhos da mãe
    • Quero abraçar o Laerte

      Sempre admirei o Laerte. Por seus quadrinhos e pelo seu humor. Por exemplo, as tiras Piratas do Tietê com sua acidez e desespero tão megametropolitanos. Também quando foi desenhista de Los Três Amigos ao lado dos superbons Angeli e Glauco, este último falecido.

      Mas minha admiração se tornou exponencial quando o vi vestido de mulher. A primeira reação foi um sonoro Ops!. A segunda: quero entender mais! Passei a prestar muita atenção nas suas palavras. E ele foi se tornando uma inspiração.

      Não tenho nenhum desejo de me vestir como um homem, ao menos por enquanto. A inspiração que Laerte me proporciona é a da abertura. Mais ainda, o alargamento dos horizontes de como estar no mundo e de como respeitar a subjetividade do outro.

      Laerte Coutinho não apenas vestiu saia, pôs sapato alto, pendurou colar, fez unhas e cabelo. Também repaginou o cérebro, tornando-o mais elástico. Começou a disparar perguntas incômodas. Por que os comportamentos masculino e feminino são tão formatados? Por que

      Saiba mais »de Quero abraçar o Laerte
    • Onde o concreto armado toma café na sua sala

      O único que gosto ao congestionar no minhocão é xeretar salas e quartos alheios. Flagrar uma senhora bebendo seu chimarrão, uma garota tirando o sutiã, um rapaz vestindo a bermuda.

      Para quem não conhece Sampa, uma explicação: o minhocão é uma excrescência arquitetônica. Trata-se de um elevado com 3 km e meio, distando cinco míseros metros dos prédios de apartamento. Ele está sobre as avenidas General Olímpio da Silveira, São João e Amaral Gurgel, na zona central.

      Foi inaugurado em 25 de janeiro de 1971, nos 417 anos da cidade, pelo então prefeito Paulo Maluf, aquele que rouba, mas faz. Seu nome oficial é Elevado Costa e Silva, mesmo nome da ponte Rio-Niterói. Mas os paulistanos, como os cariocas e fluminenses, ignoraram a homenagem ao ditador.

      Todos os chamam de minhocão ou, no máximo, de elevado. E a maioria dos cidadãos não gosta do viaduto que tapou o sol das calçadas e das fachadas dos prédios, que segue desrespeitando moradores, comerciantes e transeuntes do entorno.

      Hoje, com

      Saiba mais »de Onde o concreto armado toma café na sua sala
    • Tocar conforme a dança

      Por cinco décadas torci pelo Flamengo. O bravo rubro-negro carioca. É claro que cantei o hino - composto por Lamartine Babo (1904-1963) - "Vencer, vencer, vencer. Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer." Mas ainda em vida, neste maio de 2013, virei botafoguense.

      Antes que os leitores me joguem pedras e bradem em coro que sou uma vira-casaca, explico. Tornei-me flamenguista por influência do meu pai e do meu tio. Este último pediu para ser enterrado com a bandeira rubro-negra. Foi atendido.

      minha mãe sempre torceu pelo Botafogo, time cujo hino também é de Lamartine Babo: "Na estrada dos louros, um facho de luz. Tua estrela solitária te conduz!" Pois eu não ouvi a minha mãe. Na década de 1960, futebol era domínio e imaginário dos homens. No máximo, mulheres torciam pelo time do pai ou do namorado.

      De maneira que minha escolha foi automática. Por várias ocasiões - ora com papai, ora com titio - balancei a bandeira do Flamengo no Maracanã lotado. Derrubei lágrimas de humilhação ao ver

      Saiba mais »de Tocar conforme a dança
    • Estampar a graça

      Cronistas batem perna. Mesmo quando trancados em casa não se esquecem da rua. Pois é nela que a vida trota suas mesmices e surpresas. Semana passada, num footing pela Vila Madalena, dei de cara com um carimbo grafitado no tapume de um prédio em ascensão.

      O grafite comunicava: Você praça, acho graça. Você prédio, acho tédio. É claro que sorri. De forma dupla. Primeiro, pela delícia da mensagem colorida e afiada. Segundo, por entender que se trata de uma utopia. Afinal, como tantos outros bairros de Sampa, a Vila se verticaliza. E, perdão pela rima chinfrim, vertiginosamente.

      Caem uma a uma as casinhas de construção e inspiração portuguesas. Sobem prédios com o valor do metro quadrado na lua. Riem os bancos e os juros. É o mercado! Mas o grafite continua tendo razão. Vai-se a graça, instala-se o tédio.

      Choram cinquentões e sessentões. Em breve, a Madalena não será mais a mesma. Quer dizer, ela já não é. Por exemplo, as famílias mais pobres se foram. Para mais longe. O pãozinho da

      Saiba mais »de Estampar a graça
    • Perca-se quem puder

      Sair do trilho, pegar um atalho, mudar de direção podem ser uma boa para qualquer processo de criação. Nada contra projetos, estudos, planejamentos. Afinal é importante calcular a distância entre o ponto A e o B. Fundamental saber aonde se quer chegar.

      Mas no burburinho da jornada é salutar dar uma perdidinha. Parar tudo e se perguntar: E se eu fizesse ao revés? Se fosse obrigada a jogar tudo fora e recomeçar, como faria? Criar é verbo que não se conjuga com o já testado e sacramentado.

      Criar tem mais a ver com terrenos baldios do que com edificações. Mais a ver com páginas ou telas brancas do que com manuais e tutoriais. É um momento de negociação entre você, uma ideia e uma linguagem. É também uma oportunidade de decisão: ficar por aqui, ou ir por ali.

      Todo início deixa a gente perdidona. A primeira frase levará a uma boa redação ou à cestinha de lixo? O primeiro traço dará num desenho ou num borrão? O negócio inédito trará lucro ou prejuízo? A verdade é que não sabemos. Ao menos,

      Saiba mais »de Perca-se quem puder
    • Mudar o mundo

      O pior adoecimento é o conformismo, pois amortece a vontade, fragiliza a luta, mata a esperança. Seguir em um namoro requentado, persistir num péssimo emprego, emudecer diante de uma injustiça são alguns sintomas da resignação.

      Entendo: o mundo é vasto, a sociedade é complexa, o sistema tem a sutileza de um trator, as flores são frágeis. Há desigualdade, desorganização, corrupção e maldade. Tem canalha com auréola de santo. Tem santo de pau oco. Há puxadores de tapetes, e arrivistas que se dão bem.

      Mas mesmo o sórdido, o obscuro, o nefasto não são eternos. Eles não gozam do status de deuses. Nem está escrito em parte alguma que não possam ser enfrentados. Também sei que toda gente está cansada de promessas. Está farta de pagar sonhos de revoluções.

      No entanto, um mar de dificuldades não quer dizer que os horizontes foram borrados. Há uma energia de transformação dentro da coletividade: escravos se rebelam, mulheres se emancipam, gays e lésbicas se assumem, pessoas com deficiência põem

      Saiba mais »de Mudar o mundo
    • Copie você mesmo

      Começo esta crônica para o Mente Aberta citando o mestre Paulo Leminski (1944-1989): "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além." Cito, pois assino embaixo das palavras iluminadas do poeta curitibano.

      Nesta vida podem nos tirar tudo. Casa, amor, emprego, carro, rim. Podem cassar nosso prestígio, poder, conta bancária, número do CPF. O único bem que ninguém é capaz de nos subtrair somos nós mesmos. Melhorando a redação: o nosso jeito de ser não pode ser roubado.

      Somos como somos. É claro que estamos em trânsito e transformação constantes. Acredito que durante o percurso da existência, com seus trajetos retos e becos sinuosos, encontramos várias oportunidades de crescer. Sempre podemos melhorar nossa relação com os outros, e com nós mesmos.

      Mas temos algo essencial - que não dá para mexer - a nossa natureza. O nosso jeitão de estar no mundo e interagir com as coisas tangíveis e intangíveis. Aliás, o jeito de ser é a contribuição ao milagre da

      Saiba mais »de Copie você mesmo
    • Bonequinhas que ensinam

      A gente ouve falar que tudo que é russo tá meio ruço. Traduzindo, em baixa. Quer dizer, excetuando a literatura, a vodca e a matrioshka. A literatura russa tem seus gigantes: Dostoiévski, Tolstoi, Gorki, Tchekhov, Maiakovski, Marina Tsvetaeva. A vodca dispensa apresentação.

      a matrioshka, também conhecida como babushka, é aquela boneca de madeira que traz dentro outras bonequinhas menores. Sendo que a menorzinha de todas é a única que não é oca. A maioria delas contam com cinco peças. Mas tem matrioshka com até 75 matrioshkinhas.

      Estudiosos afirmam que foram os japoneses que inventaram essa boneca que contém outras menores. Mas, no Brasil, foram as russas que ficaram famosas. Não com o nome de matrioshka, mas com o nome sérvio de babushka. Que por sinal, quer dizer avozinha.

      Sempre observei com curiosidade as babushkas. Elas ensinam muito sobre a arte de escrever, mais específico, sobre a habilidade de contar histórias. Pois repare, qualquer história traz outras historietas dentro

      Saiba mais »de Bonequinhas que ensinam
    • De ervilhas e pessoas

      Rótulos são essenciais para denominar os remédios. Já pensou tomar um medicamento para soltar o intestino, quando ele já está serelepe? Ou confundir a pílula anticoncepcional com um comprimido contra enxaqueca? Sem esses rótulos, teríamos caos e perigo.

      Etiquetas são perfeitas para organizar papelada, pastas, contas a pagar e a receber. Também ajudam na governança da cozinha. Evitam confundir açúcar com sal, farinha de trigo com a de mandioca. Pimenta de cheiro com a malagueta. Quiabo com o diabo.

      Daí, rotular e etiquetar são excelentes invenções. O prejuízo começa quando estendemos a prática do carimbo para as pessoas. Pois nomear de forma taxativa só serve para limitar, culpar, discriminar. Apesar de ser um carimbo sem tinta, faz um borrão danado.

      José gosta de se vestir com roupas de mulher. Portanto, ganhará o rótulo de travesti. Mas José tem várias outras dimensões. Ele pode cantar bem, ser um exímio ciclista, um sujeito solidário como poucos. No entanto a etiqueta travesti se

      Saiba mais »de De ervilhas e pessoas

    Paginação

    (117 artigos)
    SOBRE O INSPIRE-SE

    "Inspire-se" é um projeto que traz a você o que de melhor acontece no mundo e mostra o lado bom da vida. Aqui é o lugar para encontrar aquelas notícias especiais, que fazem seu dia valer a pena.


    Além das doses de inspiração, todo mês você também assiste a um episódio do programa "Persona", que retrata a história de alguém que vale a pena conhecer.


    Seja bem-vindo!

    Sobre Fernanda Pompeu

    Cronista nas horas vagas e de trabalho. Melhor dito, uma webcronista. No blog Mente Aberta, do espaço "Inspire-se", ela procura incentivar os leitores a pensarem e agirem fora das caixinhas. Isso porque inspiração, criatividade, insights e respeito às diferenças precisam de oxigênio para prosperarem.

    COLGATE NO FACEBOOK

    Enquete Yahoo!

    Você faz trabalho voluntário?

    Carregando...
    Opções de escolha da enquete
    Buscar