Desde os tempos em que se amarrava cachorro com lingüiça tenho os mesmos hábitos durante o Carnaval: 1) não assistir a transmissão de qualquer desfile e baile pela TV; 2) não ler qualquer matéria referente ao evento nos jornais e na internet; 3) viajar para um local onde sequer exista um aparelho de TV ou ficar em São Paulo recebendo amigos em casa, indo ao cinema, lendo bons livros e ouvindo os LPs recém adquiridos — sim, faço isto até hoje.
Mas não pude deixar de assistir esta semana ao inacreditável festival de vandalismo propiciado por energúmenos das mais variadas espécies. Primeiro, foi um marginal chamado Thiago Faria — sujeito com várias passagens pela polícia por receptação, porte ilegal de arma e formação de quadrilha -, ligado à escola Império da Casa Verde, que simplesmente invadiu o local onde estava sendo realizada a apuração dos votos dos jurados dos desfiles no Sambódromo e roubou os papéis com as notas, rasgando tudo e colocando dentro da própria cueca, não sem antes dar um safanão no locutor do evento. Saiu correndo dali com a velocidade que só os covardes possuem, contando ainda com a lerdeza da Polícia presente ao local.
Nem vou comentar a respeito da inacreditável falta de senso tecnológico da organização do evento, que ainda obriga seus jurados a colocarem suas notas em simples folhas de papel. Alô, pessoal da Prefeitura: que tal informatizarem o processo, hein? Tal primitivismo fez com que a apuração dos votos fosse interrompida. Pior que isto: a apuração foi cancelada antes de chegar ao fim, já que ninguém pensou em fazer cópias dos votos, muito menos um backup.
A coisa degringolou de vez quando a torcida da Gaviões da Fiel, que lotava as arquibancadas do Sambódromo, se revoltou e resolveu fazer o que melhor sabe: vandalismo puro e sem sentido.
Como se fossem comparsas do tal de Tiago, os integrantes desta torcida organizada também invadiram o local de votação e iniciaram uma depredação vergonhosa, que se estendeu até o lado de fora, em uma das pistas da Marginal Tietê. Não satisfeitos, os vândalos resolveram queimar os carros alegóricos que estavam ao lado do Sambódromo esperando o desfile das Campeãs com coquetéis molotov improvisados com garrafas, panos e gasolina. Como são feitos de material inflamável, os carros foram um alvo fácil para a turba de insanos.
Por sorte ou prudente esperteza, integrantes das torcidas das duas outras escolas ligadas a clubes de futebol - Mancha Verde, do Palmeiras, e Dragões da Real, do São Paulo — resolveram se 'pirulitar' dali por outros portões. Caso contrário, iria rolar uma carnificina a céu aberto.
As imagens agora correm o mundo por conta das transmissões das emissoras de TV. Imagens muito "edificantes" para um País que vai sediar a Copa do Mundo em 2014.
Por ter feito matérias com as escolas de samba em período pré-Carnaval nos últimos dois anos, vi com meus próprios olhos como todo o pessoal envolvido se dedica com afinco e sofreguidão à tarefa de botar suas respectivas escolas na avenida e fazer um bonito desfile. Por isto, me entristece bastante ver que todos estes esforços resultaram não apenas em um imenso papelão, mas principalmente em um estado de coisas que nenhuma pessoa de bem consegue mais suportar.
Não é de hoje que o Carnaval levanta suspeitas em relação ao vínculo com coisas erradas. Como esquecer a época em que os banqueiros do jogo do bicho no Rio de Janeiro — muitos deles então "patronos" e "presidentes" - "financiavam" escolas com o único intuito de fazer uma bela lavagem de dinheiro? Pois bem, aqui em São Paulo, o mesmo tipo de processo agora tem novos personagens: as torcidas organizadas.
Antes de qualquer coisa é preciso deixar a hipocrisia de lado e colocar o dedo na ferida exposta e já purulenta: "escolas de samba" ligadas a torcidas organizadas nada têm a ver com samba e muito menos com escola. Estas "agremiações" não possuem qualquer ligação com as comunidades ao redor de suas sedes. E não existe qualquer traço de "amor ao samba". Não vamos ser ingênuos: o que importa ali é... o dinheiro.
Sim, o dinheiro que vem de todos os lugares: dos dirigentes dos clubes envolvidos, que patrocinam as escolas injetando uma quantidade nababesca de grana para os desfiles e, com isto, se tornam "aliados" destes torcedores, obtendo uma enorme massa de manobra política repleta de gente ignorante; de muitos dos próprios jogadores, que querem ficar "de bem" com a torcida; do auxílio financeiro da Prefeitura; dos governos estaduais e de gente famosa e rica, estranhamente "homenageados" em sambas-enredo feitos sob encomenda para agradar aos "financiadores"; dos preços dos ingressos cobrados de todo aquele que freqüenta os ensaios destas escola nos finais de semana; das fantasias vendidas a preços inacreditavelmente altos.
A verdade é uma só: poucas coisas são tão lucrativas quanto gerenciar uma "escola de samba" deste tipo. Tudo com a conivência dos políticos, que barram qualquer proposta que venha a proibir estas associações indecorosas.
Leio agora que a polícia vai investigar mais a fundo uma antiga suspeita: de que há uma ligação entre a facção criminosa PCC e as torcidas organizadas dos principais clubes da capital, notadamente a própria Gaviões da Fiel. Se isto for realmente comprovado, não há outra coisa a fazer a não ser deixar a hipocrisia guardada no porão da vergonha e acabar com estas agremiações que só sabem espalhar vandalismo, insegurança e medo por onde passam. A truculência exibida nas TVs de todo o planeta não pode mais ser o retrato de nossa sociedade.
Veja as imagens abaixo e se pergunte: até quando vamos tolerar isto?
A minha resposta é uma só: chega!


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