Você sabe que gente que trabalha nas gravadoras hoje em dia não sabe porra nenhuma de música quando este pessoal escolhe a PIOR faixa de um disco como "primeira música de trabalho". Tal incompetência já fez naufragar muitos discos legais justamente quando este tipo de mancada provoca o desprezo do público em relação ao restante do álbum.
E este tipo de presepada atinge todo mundo, de Metallica ao pessoal do grupo Os Ostras — como esquecer de como "Until It Sleeps" ajudou a provocar a ojeriza dos fãs em relação ao álbum Load e como a pavorosa "Uma, Duas ou Três (Punhetas)" matou o bom disco de surf music dos gaúchos?
Pois a mesma coisa aconteceu quando a gravadora Interscope resolveu que a melhor maneira de provocar "excitação e frenesi" em relação ao disco que marca a volta do Van Halen, A Different Kind of Truth era lançar a fraquíssima "Tatoo" como música de trabalho. Para quem não gravava nada desde 1998, quando o soltou o pavoroso Van Halen III com o Gary Cherone, na época ex-vocalista do Extreme — para quem não sabe, o cara voltou a tocar com a sua banda há uns anos atrás -, foi um container de água a temperaturas polares. Tal tiro no pé certamente afastou muita gente do restante do disco, o que é uma pena, já que A Different Kind of Truth é muito, mas muito bom mesmo!
Para quem não sabe, grande parte do material contido aqui veio de demos não aproveitadas pela banda durante os anos em que o vocalista Dave Lee Roth esteve com os caras, que é o caso de "She's the Woman", composta originalmente em 1976. Uma das grandes sacadas da produção foi ter eliminado qualquer possibilidade de se ouvir um daqueles teclados pentelhos que o guitarrista Eddie Van Halen cismava em tocar na época em que Sammy Hagar era o vocalista da banda, algo que ajudou a dar uma tremenda diluída no som dos caras. Graças a Deus, aqueles "timbres de churrascaria" foram condenados ao ostracismo.
Por outro lado, comparado com seus últimos registros sonoros, Eddie não apenas está tocando mais rápido, mas, principalmente, de modo mais agressivo e pesado. E o disco inteiro está repleto de solos arrasadores do guitarrista, que traz ainda a estreia em estúdio de Wolfgang, filho de Eddie e o baixista da atual formação do grupo, substituindo Michael Anthony, o integrante original que hoje está no Chickenfoot, ao lado de outro ex-Van Halen - o vocalista Sammy Hagar -, do guitarrista Joe Satriani e do batera do Red Hot Chili Peppers, Chad Smith.
Como escrevi aí em cima, "Tattoo" é um péssimo exemplo de como abrir um disco de modo impactante. É uma faixa fraca, com refrão ruim e sem qualquer detalhe que a torne relevante dentro da carreira do grupo. Parece mais uma sobra de algum disco perdido do Extreme. Pelo menos mostra que Eddie continua em forma na hora de criar solos legais.
O álbum só engrena mesmo a partir da segunda faixa, "She's the Woman", um tremendo rockão setentista que tem toda a cara de ter sido composta na época do disco Fair Warning. É nela que dá para sacar que Roth ainda está com a voz em cima e que o batera Alex Van Halen ainda é um espancador de tambores e pratos, alternando conduções simples com elaboradas convenções rítmicas.
"You and Your Blues" é prejudicada pelos excessivos overdubs de vocais, o que deixa a canção meio embolada, além de ter uma "pegada AOR" meio exagerada — menos na hora do solo de Eddie, curto e certeiro.
A pesadíssima e rápida "China Town" é que deveria ser a abertura do disco, já que começa com Eddie demonstrando o seu tradicional "tapping" e introduzindo uma levada monstruosa de Alex e boas vocalizações de Dave. Isto sem contar o solo simplesmente espetacular de guitarra e o refrão simples e conciso, que faz a faixa inteira lembrar os tempos do disco Van Halen II. O lance "AOR" que citei volta a aparecer timidamente na interessante "Blood and Fire", mas sem atrapalhar as diferentes dinâmicas que a canção apresenta.
Tudo muda quando surge a maior cacetada do disco: "Bullethead", uma mistura de — acredite se quiser — Bad Brains com Rollins Band! Simplesmente inacreditável! Nem vou comentar nada a respeito dela. Ouça a canção em um dos vídeos abaixo e comprove o que escrevo aqui... Ah, não se esqueça de fazer o mesmo com outra paulada, que recebeu o título de "Outta Space".
Se a espetacular "As Is" começa com uma trovoada rítmica da parte de Alex e deságua em uma canção que parece ter saído do disco de estreia da banda — conhecido Van Halen I -, a introdução eletrostática/esquizofrênica que vem a seguir anuncia "Honeybabysweetiedoll", canção que lembra bastante "The Gates of Babylon", do Rainbow, mas com um viés menos "árabe" e mais novaiorquino, com Dave narrando a letra de modo perverso e sacana. É a faixa mais estranha e uma das mais legais.
"The Trouble With Never" tem grande de sua estrutura melódica, harmônica e rítmica montada em cima de "Crosstown Traffic", de Jimi Hendrix. Parece mais um tributo consciente do que um plágio descarado. Já "Stay Frosty" tem a mesma pegada acústica e posterior "martelada blues rock shuffle" de sua irmã, "Ice Cream Man", incluída no disco de estreia da banda. O mesmo acontece com "Big River", prima de "Running With the Devil", e "Beats Workin'", sobrinha de "Feel Your Love Tonight" e "Unchained". Todas divertidíssimas!
Tomara que as pessoas ultrapassem a barreira da indiferença e resolvam ouvir este disco com atenção. Garanto que todo mundo vai sair descabelado da experiência...


61 comentários