ATIVIDADES DE AMIGOS

    On The Rocks
    • Um boato criminoso que se espalhou no sábado (18) levou milhares de pessoas ao desespero. O Bolsa Família iria acabar. Com isso, dezenas de milhares de pessoas, em especial nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, correram às agências da Caixa Econômica Federal para sacar o benefício antes que este fosse cortado.

      Mesmo com os desmentidos, até a segunda-feira (20) ainda eram registrados enormes filas e alguns tumultos nas agências da CEF e em lotéricas.

      Uma beneficiária, que conseguiu sacar o dinheiro depois de horas na fila, afirmou: “...retiramos o dinheiro a tarde. Foi um alívio. Já até comprei comida e paguei uma compra de um caderno que tinha feito para meu filho que estava em aberto".

      O desespero desta fala parece óbvio. O objeto também. Com o benefício comprou comida e pagou um caderno que havia pego fiado. Comida e caderno. Impossível não se sensibilizar.

      (Também difícil é deixar passar o medo das pessoas em dizer seus nomes. Temiam retaliação pelo poder público, que fossem

      Saiba mais »de Que diferença faz uma pequena diferença?
    • Uma menina de 11 anos era abusada sexualmente pelo seu pai. Durante os abusos, ele a chamava de “seu pedacinho de merda” . Outra vítima de estupro ouviu do seu algoz “você é a criança má, não eu. Lembre-se que foi você que começou [provocou] isso”. Uma terceira lembra de, durante os abusos sexuais, ouvir “Pare de fingir que é um ser humano”.

      Em comum, além do crime, há a desqualificação da vítima. Ou bem ela não é gente, um pedaço de merda, ou o crime teria sido incitado, provocado, por aquelas que foram abusadas.

      Não basta a violência sexual sofrida, tem que destruir a subjetividade da vítima. Tem que afirmar, categoricamente, que ela merece todo o sofrimento e abuso sofrido, afinal é “uma merdinha” que “provocou”.

      Até entendo o estuprador fazer isso. Mecanismo de dominação e auto-indulto. Ao negar ao outro o status de humano, faz deste um mero objeto “legítimo” de suas vontades sádicas.

      Ao dizer que a vítima mereceu porque provocou, porque, na verdade, ela queria ser mesmo

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    • O Fantástico divulgou, no domingo dia 05, um vídeo estarrecedor de uma ação policial ocorrida em 2012. Nele aparece um helicóptero da Polícia Civil do Rio de Janeiro atirando contra um carro onde estaria um traficante. Nos dois minutos de filmagem se ouve centenas de tiros deflagrados contra um carro em movimento. O motorista tenta fugir, o helicóptero o persegue, atirando.

      Horas depois foi encontrado o corpo do motorista, o traficante "Matemático". Autoridades disseram, então, que foi um “auto de resistência", e com isso o caso foi convenientemente arquivado.

      (Alguém já se perguntou por que os nossos bandidos adoram reagir? São suicidas? Ou é algo que colocaram na água?)

      Não é o que mostra o vídeo. A Polícia Civil simplesmente resolve executar alguém. Decidiu-se ali, como em um tribunal de exceção, que uma pessoa deveria morrer. E não se poupou esforços – nem balas – para tal fim.

      Foram dois minutos de rajadas de metralhadora no meio de uma rua em uma favela com o intuito criminoso de

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    • Curto Circuito

      Está sendo orquestrado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) o maior golpe na república brasileira desde o primeiro de abril de 1964. E há uma enorme relação entre ambos (em tempo: não acho que passará em plenário)

      Em votação simbólica, a CCJ aprovou um projeto de emenda constitucional que, na prática, acaba com duas prerrogativas do Supremo Tribunal Federal (STF). O controle constitucional e com a súmula vinculante, uma espécie de jurisprudência que obriga decisões de outras instâncias no mesmo sentido.

      Segundo a PEC, o STF só poderia declarar a inconstitucionalidade de uma lei por uma maioria de 4/5 dos votos, uma quase unanimidade. Além, esta declaração ainda teria que ser aprovada pelo Congresso depois da decisão do Supremo.

      Ou seja, se a PEC for aprovada teremos um Guardião da Constituição e um Guardião do Guardião da Constituição.

      Em outras palavras. Curto-circuito. O legislativo se arvorará a julgar se as leis que ele criou são ou não legais. Curioso desenho. O congresso

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    • Deu na BBC: Semana passada 23 policiais foram condenados a 156 anos pelo assassinato de 13 detentos naquele que talvez seja o pior massacre da nossa história. Passaram-se vinte anos até que, finalmente, os assassinos fossem levados a júri. Outros policiais devem ir a julgamento.

      A despeito dos reais responsáveis não terem sido julgados, aliás, o governador Luiz Antonio Fleury Filho e o secretário de Segurança Pedro Franco de Campos sequer foram incluídos na denúncia do Ministério Público, e terem sido arrolados como testemunhas de DEFESA (???), o julgamento marca época, em todos os sentidos.

      O mais óbvio e urgente é, claro, a condenação dos policiais. Segundo o entendimento do Ministério Público e do júri, os acusados assassinaram pessoas indefesas, executaram-nas. Se julgando acima das leis, intocáveis, entraram no presídio atirando em tudo o que se mexia. No total, em números oficiais subdimensionados, 111 foram mortos naquele dia.

      Condenar os assassinos é um pequeno passo em direção

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    • Brincadeirinha

      Não é de hoje que brincamos, zoamos, fazemos piada que reforçam preconceitos e violências. Um “humor” para iguais, narcisista, que explora situações que nada têm de engraçadas pois se referem às exclusões cotidianas, às minorias já violentadas no dia a dia.

      Alguns riem. Acham graça justamente pelo fato do objeto da brincadeira ser o outro, o diferente, e nunca si mesmo. Ri da mulher, ri dos negros, das piadas sobre judeus, dos homossexuais. Simplesmente acham tudo isso engraçado. Afinal é apenas uma brincadeirinha.

      O diretor Gerald Thomas também acha graça. Acha motivo de divertimento narcisista enfiar a mão dentro do vestido de uma repórter.

      Para ele, e seu desejo, não há nada de mais em agir assim. É o macho. É aquele cidadão de bem dos ônibus lotados que, entre uma freada e outra, aproveita para se esfregar, encoxar, a mulher que está à sua frente.

      Qual mal tem nisso? É uma brincadeira, dizem o diretor do programa e o brincalhão Gerald.

      A vítima parece não concordar com a opinião do

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    • Privilégio irresponsável

      Este texto foi originalmente publicado há dois anos. Mudam-se os personagens, mas o privilégio irresponsável da imunidade parlamentar continua, seja para defender atentados ao estado de direito, seja para atacar direitos e instigar preconceitos. Por este motivo, achei por bem republicá-lo.

      .......

      As falas imbecis e preconceituosas de Jair Bolsonaro repercutiram mundo afora e suscitaram debates sobre a liberdade de expressão. Alguns foram irônicos e chamaram aqueles que pedem a cassação do deputado de"fascistas do bem". Outros, com muito mais acuidade, tentaram entender o limite da liberdade de expressão e a democracia. Ao meu ver, o debate está deslocado: usam o direito à liberdade de expressão o confundindo com a imunidade parlamentar.

      Em uma outra coluna chamada "Devemos tolerar os intolerantes?", publicada aqui no Yahoo!, já havia escrito sobre o paradoxo que enfrentamos ao tratar desta questão. Qual é, e quais deveriam ser os limites da liberdade de expressão? Algumas veiculações

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    • Direito à visibilidade e aos direitos

      Uma coisa temos que admitir: Marco Feliciano é teimoso. Ele insiste em permanecer na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara a despeito de ter perdido qualquer legitimidade, ou de nunca ter tido.

      Mesmo com protestos se espalhando, a raposa anti-direitos humanos permanece ali, à espreita, cuidando para que as pautas positivas não progridam, que direitos não avancem.

      A mais nova atitude do deputado foi entregar a relatoria do projeto de lei que regulamenta a profissão da prostituição, de autoria de Jean Wyllys (PSol-RJ), ao seu amigo de fé Deputado Pastor Eurico (PSB-PE).

      O projeto de Wyllys traz benefícios importantes para o profissional do sexo, e tem como intuito acabar com a exploração sexual e com os riscos aos quais estão submetidos e prevê a contribuição ao INSS como autônomo, garantindo assim o direito à aposentadoria.

      A iniciativa de Jean Wyllys “nos tira debaixo do tapete” na opinião de uma prostituta. Dar visibilidade é também uma forma de cidadania.

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    • Maria, me traga um copo d’água!

      Vira, mexe, remexe, o reacionarismo brasileiro, com seus privilégios ameaçados, vem à tona. Basta um pequeno passo em direção à igualdade para que, mesmo querendo se esconder atrás de argumentos “empíricos”, saia da toca e se apresente sem máscara ou filtro.

      Não são raros esses momentos. As cotas, o voto de analfabetos, o direito dos trabalhadores rurais, o sufrágio feminino, o direito à greve e à sindicalização ou o fim da escravidão, tiveram em comum um progresso da ideia de igualdade.

      Todos também provocaram celeumas, comichão e coceiras naqueles privilegiados. Como assim mulher votar ou trabalhar? E a sacralidade da família? E meu lar e meus filhos? Quem cuidará? (Minha mulher trabalhando? Tendo uma vida autônoma? Tenho medo!)

      Na terça-feira (26), demos mais um passo nesta direção. Foi aprovada a “PEC das domésticas”, que iguala os direitos destas ao de qualquer outro empregado. Cerca de 4 milhões de trabalhadores, a maior categoria, estavam à margem da igualdade. Tinham menos

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    • A contra-reforma

      Há quase 500 anos começava, na Europa central, um movimento que sacudiu o mundo e o mudou para sempre. Um padre alemão, por motivos religiosos, mas também políticos, publicou uma série de objeções à Igreja Católica, suas práticas e suas interpretações da bíblia. As “95 teses” era uma tentativa de reformar a Igreja Católica por dentro.

      A publicação dessas teses acendeu um rastro de pólvora que rapidamente se alastrou pela Europa central e do norte, iniciando um processo de contestação do poder eclesiástico que levou Lutero à prisão e à excomunhão.

      Durante sua prisão em um castelo, Lutero traduziu a bíblia para o alemão, e esse talvez foi o seu maior “crime”.

      Com a tradução do latim para uma língua nacional, a bíblia estava agora ao alcance de pessoas comuns, já que o latim era apenas falado pelo clero e em algumas cortes principescas, o que impedia as pessoas de conhecerem, de fato e sem intermediários, a "palavra de deus".

      A tradução da bíblia foi, talvez, o maior golpe contra a Igreja

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    Sobre Walter Hupsel

    Walter Hupsel é mestre em Ciência Política pela USP, Professor de Relações Internacionais da FASM, músico frustrado e torcedor do Esporte Clube Bahia. Escreve sobre política, relações internacionais o que mais achar relevante.

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