Os comentários que recebi ao meu texto sobre a barbárie empreendida pelos governos de São Paulo na "cracolândia", que foi perfeitamente batizada de "dor e sofrimento" (e isso é bem revelador do caráter da operação) variavam do puro obscurantismo fascista até respostas que tentavam, ao menos, serem racionais.
Sobre o primeiro grupo não me manifesto, pois não há nenhum argumento que possa convencer os bárbaros da sua barbárie. Não rezo para infiéis.
Se o primeiro é autoritário e fascista, o segundo vai numa linha ultra-liberal, flertando o libertarianismo tão em voga ultimamente (basta ver o Tea Party e alguns candidatos do Partido Republicano). É um argumento ético-financeiro que se baseia na questão da responsabilidade e dos custos.
Funciona mais ou menos assim: Eu não quero arcar com os custos das escolhas individuais. Se as pessoas escolherem isso, elas que arquem com os custos, sejam financeiros, sejam de saúde, sejam legais-policiais ou mesmo, em sua última instância, carcerário (não é incomum receber emails que esbravejam em caixa alta e letras coloridas contra o custo de um presidiário, em consequente defesa da pena de morte)
Este tipo de argumento de cunho ultra-liberal parece ser lógico e tem cada vez mais adeptos. Se a pessoa causou algum dano, ela que pague por este e não eu.
A despeito de desconsiderar qualquer outra dimensão que não a individual, de se "esquecer" do "animal político", de que as leis são necessariamente sociais, é um argumento que merece uma crítica.
Via de regra quem reclama dos custos, de "pagar" o tratamento do fumante, do usuário de crack, escolhe o objeto da sua indignação. Para ficar em um exemplo apenas, ele acha normal os bombeiros atenderem o motorista de um carro que bateu num poste em altíssima velocidade.
Neste caso não tem "responsabilidade" do agente. Os custos do atendimento, financeiros e humanos são socialmente divididos sem nenhum problema e nenhuma reclamação daqueles que reclamam das clínicas pra viciados, das internações em hospital público do fumante.
Paulo Moreira Leite já deu indícios do porque desta diferença de indignação. O motorista pode ser eu, ou alguém da família, um grande amigo quiçá. Afinal, quem nunca correu "um pouquinho" para chegar mais cedo? Para não perder uma entrevista de emprego?
Neste caso, somos capazes de "vestir a pele" do outro, ou nossa mesmo. Assim, defendemos o socorro e os gastos se tornam legítimos. Mas um usuário de crack? Um fumante com efisema? Não, estes não! Não é justo a sociedade arcar com (esta) escolha.
Tolero o álcool no trânsito e arco com seus custos sem reclamar. Como não tolero o crack, acho pagar por clínicas um absurdo. Como se vê, a questão não é sobre escolhas e responsabilidade, é sobre julgamentos morais.

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