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    Carlos Lessa abrirá casa de shows em imóvel centenário no Catete

    DESTAQUES EM BRASIL

    RIO - Em meados do ano passado, o economista, ex-presidente do BNDES, ex-reitor da UFRJ e figuraça carioca Carlos Lessa, aos 75 anos, fez uma traquinagem digna dos seus suspensórios: pendurou uma faixa com os dizeres "A boa e os bons" na fachada do casarão antigo que reformava na Rua Bento Lisboa, no Catete. Bastou. Não se falava em outra coisa no bairro: que ali viraria uma casa de saliências, vejam só, que coisa feia, ao lado de uma creche, onde é que esse mundo vai parar... Girando sua bengala, o "professor", como é chamado por todos, se divertia com o burburinho.

    Não era nada daquilo. "A boa e os bons" era uma alusão à boa música e aos bons petiscos que levaria para o espaço, quando terminam as obras do velho casarão. Assim como fez há alguns anos na Rua do Rosário, no Centro, reformando sobrados históricos caindo aos pedaços e alugando-os a comerciantes - iniciativa que revitalizou todo o entorno do Arco do Teles -, agora Lessa aponta sua bengala para o Catete, bairro que abrigou o Poder Executivo quando o Rio foi a capital da República.

    - Um bairro com a importância cultural e histórica do Catete não pode ficar abandonado como está - sentencia o professor, lembrando que ali, onde "Getúlio Vargas deu um tiro no coração", também nasceram Cartola e Chico Buarque.

    Há três anos, ele comprou o imóvel na esquina da Rua Bento Lisboa com a Pedro Américo, que era apenas uma fachada em ruínas. Tombado, o prédio do século XIX em estilo neoclássico popular estava nas mãos de uma igreja evangélica, que tinha a intenção de erguer ali um templo, mas nunca iniciara a obra.

    - Eu já tinha comprado este casarão uma vez, no início dos anos 1990, quando era diretor do Corecon (Conselho Regional de Economia). Queríamos fazer aqui a Casa do Economista, um lugar para socializar depois do trabalho, com boa música e boa comida. Me apaixonei desde a primeira vez que vi o imóvel: fica na fronteira exata entre o asfalto e a favela. Eu achava importante que os economistas da cidade circulassem mais por lugares pobres - lembra.

    Mas houve mudança de chapa no Corecon, e o patrimônio foi vendido, o que deixou Lessa arrasado. Até que um dia, passando de carro por ali, viu uma placa da igreja anunciando a venda do casarão.

    Negócio fechado (ele não revela cifras), começou a restaurá-lo. No próximo dia 6, o professor inaugura ali a Ameno Resedá, uma casa de "boa música e boa comida", como faz questão, com capacidade para 300 pessoas e dois pavimentos. No primeiro, funcionará uma filial do Sobrenatural, restaurante tradicional de Santa Teresa. No segundo, um palco para apresentações musicais, com jardim ao ar livre. Na lista de artistas confirmados para a estreia, Elza Soares, João Donato, João Bosco, Marcos Sacramento, Nó em Pingo D'Água e Pagode Jazz Sardinha's Club.

    O nome da casa veio da boa memória do economista, que, quando criança, ouvia sempre a mãe contar do animado rancho de carnaval Ameno Resedá. Fundado em 1907 no Catete, o rancho foi o precursor do modelo de desfile das escolas de samba, ao desenvolver enredos temáticos, criar comissões de frente e evoluir em linha reta, tal qual as procissões religiosas. Num dos desfiles mais polêmicos, feito em 1911, o grupo foi convidado a se apresentar para o então presidente da República, Hermes da Fonseca. Escolheram o enredo irônico "A corte de Balzebu" e adentraram o Palácio Guanabara, residência oficial à época, vestidos de bestas e demônios.

    O rancho durou até 1941. Seu diretor de harmonia era ninguém menos que o compositor e músico Sinhô, e a marcha-rancho oficial era de autoria de Ernesto Nazareth.

    - Muito pouca gente conhece as histórias do bairro, como essa, do Ameno Resedá. Além de ser uma opção de diversão com qualidade para o carioca, queremos que a casa seja difusora da nossa memória cultural - ressalta Lessa, mostrando as obras de arte de seu acervo que dispôs nas paredes do casarão, como as academias originais de Pedro Américo e Eliseu Visconti, garimpadas na Feira de Antiguidades da Praça Quinze, outra das suas paixões no Rio.

    Como não é boêmio (ele dorme cedo e só toma uma cachacinha com duas pedras de gelo em ocasiões especiais), Lessa cercou-se dos seus para tocar o empreendimento: quem assina a direção artística é o filho, o músico Rodrigo Lessa, e quem assume a gerência de produção da casa é o amigo Pedro Otávio Tibau, ex-sócio da extinta loja-palco Modern Sound, em Copacabana.

    - Quero trazer para cá a confiança que desenvolvemos com o público na Modern Sound em relação à qualidade dos shows. Eles sabiam que podiam ir a qualquer dia que a música era sempre boa - defende Tibau, pouco antes de fechar os domingos de abril com o músico Pedro Luís, que subirá ao palco cada semana com uma cantora diferente.

    Amiga dos Lessa, a chef Sérvula Amado, do Sobrenatural, aceitou o desafio de montar tanto o cardápio do restaurante do primeiro andar - vai até se arriscar num sushibar com jardim japonês - quanto o dos bares adjacentes ao palco.

    - Acabou essa história de que casa de shows não tem comida boa - brinca Sérvula, que criou petiscos especiais para serem servidos na bandeja dos garçons durante as apresentações. - É um programa duplo. O público poderá jantar e ver um bom show no mesmo lugar.

    A casa de shows é a última investida de Carlos Lessa no ramo de revitalização "histórico- imobiliária". Com a experiência adquirida pelas obras que deram novo frescor ao Centro, ele está seguro de que a reforma do velho casarão atrairá iniciativas semelhantes para o Catete, que é repleto de construções centenárias em ruínas (algumas, ainda do período colonial).

    - Essa região tem um potencial tremendo, pena eu não ter mais idade ou dinheiro - brinca Lessa, que começou a reformar imóveis históricos a partir de um que herdou da família, no Centro (o aluguel $prédios restaurados banca a compra de novos).

    O faro do professor está apurado, garante o presidente do Sindicato de Bares e Hotéis do Rio de Janeiro (SindRio), Pedro de Lamare. Com a explosão dos aluguéis comerciais na Zona Sul, desde 2010, muitos estabelecimentos começarão a migrar para a região de Catete e Glória (este último já espera a revitalização a bordo dos investimentos do empresário Eike Batista na região).

    - Em Copacabana, por exemplo, o aumento dos aluguéis foi de 53% em 2011. O comerciante não suporta - opina Lamare. - Há um polo gastronômico se formando no Largo do Machado (o Polo Rio Carioca, que ainda depende de sanção do prefeito) e em outras áreas históricas da cidade. A migração vai ser natural. O Catete vai crescer muito, assim como eu não tenho dúvidas de que a Rua do Russel, na Glória, vai ser a nova Lapa.

    Outro fator favorável à revitalização comercial do Catete, segundo Lamare, é o estabelecimento da UPP no Morro do Escondidinho/Prazeres, o que amplia a cidade aos públicos A e B.

    - Fizemos uma pesquisa na Tijuca e constatamos que depois da UPP do Borel o movimento em bares $restaurantes cresceu 15% e se estendeu por mais uma hora e meia no bairro - avalia Lamare.

    Uma volta pelo bairro mostra como as coisas começam a mudar. Tapumes antecipam reformas em edifícios históricos, como a do Hotel Riazor, fundado em 1891, que está refazendo toda a fachada neoclássica; e a de outros sobrados, que dão lugar a albergues para turistas. Novos bares e restaurantes se firmam, como o Bartman (aberto há sete meses, é decorado com motivos do homem-morcego) na Rua Buarque de Macedo; e o Carmelo, na Rua Correa $, uma opção refinada para o almoço e jantar, com "noite de vinhos" às quartas-feiras.

    - O bairro está passando por muitas mudanças, porém mais por parte da iniciativa privada que do poder público - observa o presidente da Associação de Amigos do Largo do Machado e Adjacências, Everaldo Pinto Jr. - Fizemos um abaixo-assinado e uma grande campanha há seis meses para sensibilizar a prefeitura dos problemas da área. Conseguimos a instalação de mais lixeiras nas ruas, mas a população de rua ainda é um problema sem solução.

    Não foi um trabalho simples transformar o casarão em ruínas, do final do século XIX - que deve ter pertencido a algum comerciante português, segundo Lessa -, numa casa de shows com dois pavimentos, tratamento acústico, restaurante e jardim. Depois de comprar o imóvel, em 2008, ele só conseguiu regularizar toda a documentação no ano passado.

    - A burocracia e a falta de preparo das instituições públicas para esse tipo de iniciativa, tão comum na Europa, são inacreditáveis - conta Lessa, lembrando o problema mais insólito que enfrentou: levou quase um ano para conseguir que a Rioluz trocasse de lugar um poste deteriorado que estava rente a uma das paredes do casarão, um risco para qualquer pedestre.

    O investidor que quer restaurar e dar uso comercial a imóveis tombados na cidade enfrenta, de cara, dois problemas: a regularização da $ívida ativa do imóvel - muitas vezes mais alta que o valor pago na compra do bem - e a flexibilização do uso para a concessão de alvarás. Casarões com muitos quartos, comuns no passado, hoje enfrentam uma via-crúcis para serem transformados legalmente em hotéis ou restaurantes.

    Subsecretário municipal de Patrimônio Cultural, o arquiteto Washington Fajardo admite que a burocracia repele os empreendedores:

    - A prefeitura dá isenção de IPTU, mas não é suficiente. Por isso, na elaboração do novo Plano Diretor, criamos um Fundo Municipal de Conservação Cultural para estimular esse tipo de iniciativa - comenta Fajardo. - Lessa é um exemplo para outros investidores. Ele reconhece que existem outros capitais além do financeiro, como o social, o cultural e o urbanístico. Investir no patrimônio não é uma ação direcionada para o passado, mas para o futuro.

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