RIO - O forte barulho das máquinas e escavadeiras que trabalham no projeto de reurbanização da Lapa parece não incomodar o sono pesado de quem dorme no chão repleto de buracos. O contraste é grande. Em meio às iniciativas de revitalização urbanística e cultural, ainda prevalece o descaso em alguns pontos, como o número elevado de moradores de rua. Muitos dormem em plena luz do dia nas calçadas. Só na manhã de terça-feira, mais de 15 mendigos ficavam próximo aos Arcos da Lapa.
Em 2011, cerca de 1.300 moradores de rua foram recolhidos no bairro. O número representa 40% de toda a população de rua acolhida no Centro da cidade. A Secretaria Municipal de Assistência Social disse que realiza diariamente trabalhos na região e que oferece comida e corte de cabelo.
Para Samuel Silva, dono de uma banca de jornal no bairro, a ação da prefeitura pouco ajuda a resolver a situação. Segundo ele, a retirada dos mendigos é feita à noite. No dia seguinte, eles já estão de volta ao bairro.
- É preciso ter uma ação mais efetiva. Eles ficam em grandes grupos, o que assusta e causa medo em quem passa pela Lapa - disse.
Outro problema, que era para ser uma solução, são os banheiros químicos. Os quase 30 sanitários do bairro estão abandonados, extremamente sujos e exalam forte cheiro. Eles ainda ocupam um grande espaço no passeio público. Os tapumes da CEG, que parecem esquecidos na calçada e no meio da rua também atrapalham motoristas e pedestres. Segundo a concessionária, as obras irão modernizar a rede de gás e as intervenções são realizadas durante a madrugada, para causar um menor impacto no trânsito. O término está previsto para o próximo sábado.
A urbanização da Lapa acontece desde abril de 2011 como parte do Lapa Legal, projeto de ordenamento urbano que envolve a Secretaria Municipal de Obras e outros órgãos da prefeitura. O pacote de intervenções reúne serviços de drenagem, pavimentação de pista e passeio, acessibilidade, iluminação e mobiliário urbano, e segue até abril deste ano. Segundo o subprefeito do Centro, Thiago Barcellos, a Lapa era um bairro muito abandonado e ficou apagado por muito tempo. Para ele, esse processo de revitalização ganha cada vez mais ânimo ao longo do tempo.
- A intenção do projeto Lapa Legal é melhorar aos poucos a prestação de serviços públicos no bairro. Já conseguimos ampliar a limpeza e a iluminação pública - disse Barcellos, acrescentando que, quando acabarem as obras, o bairro será estará mais valorizado.
Quanto aos banheiros químicos, fruto de uma parceria com a Ambev, o subprefeito afirma que existe limpeza e manutenção. No entanto, Barcellos alega que a movimentação da Lapa faz com que sujem mais rapidamente.
Outro ponto que merece atenção são os Arcos da Lapa, novamente sujos. As manchas já se sobrepõem à recente reforma realizada pelo Iphan, finalizada no início do ano passado. Uma das promessas feitas para evitar a sujeira era instalar uma calha de silicone nas bordas de cada arco. No entanto, segundo o Iphan, esse projeto se mostrou inviável por conta da base sobre a qual seria fixada a calha. No momento o instituto elabora um novo programa de manutenção e conservação periódica do monumento, mas ainda não há prazo para a implantação do programa.
O ex-presidente do Conselho da Glória, Roberto William Walter, disse que há um ano denuncia os problemas que acontecem na Rua da Lapa, como um prédio usado por um ferro-velho, que atrai moradores de rua para o local. No entanto, ele não teve respostas da subprefeitura. Walter elaborou um plano de revitalização para a rua com a criação de espaços culturais.
- Se não eliminarmos as causas dos problemas, não vamos chegar a soluções. Nós precisamos de um subprefeito mais dinâmico e que abrace essa ideia - reclama.
Reforma em alguns prédios, abandono de outros
O contraste se estende também para construções históricas. Se prédios como a Sala Cecília Meireles e a Igreja da Nossa Senhora da Lapa do Desterro passam por reformas grandiosas, outros continuam sem cuidados, como Escola de Música da UFRJ, pichado na pintura lateral, e o antigo prédio do Hotel Bragança, hoje aos pedaços. Este último, uma construção de 1906, já foi frequentado por nomes ilustres da cultura brasileira, como Noel Rosa e Di Cavalcanti. Em 2010, foi desocupado depois de mais de 40 anos invadido. As mais de 67 famílias que moravam no local foram reassentadas.
Segundo a prefeitura, o casarão, que é privado, receberá obras em breve para virar um hotel. Já sobre o prédio da UFRJ, o diretor da Escola de Música, André Cardoso, disse que foi feita uma reforma na fachada há cinco anos, e que só na recuperação da pintura foram investidos mais de R$ 200 mil.
- O problema é que existe muito vandalismo e não temos como recuperar a fachada todo ano. A solução, que já foi autorizada pela prefeitura, será colocar uma grade no entorno da pintura - disse André.
Ao longo da via outros casarões estão condenados e servem até mesmo de depósito. A subprefeitura informou que faz uma parceria com os proprietários e que dá incentivos fiscais para tentar revitalizar essas construções. De acordo com o subprefeito, quatro prédios já receberam ajuda da prefeitura, como desconto no IPTU para reformar as construções.


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