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ATIVIDADES DE AMIGOS

    Crianças vencem dificuldades em escolas públicas e tiram nota 10

    DESTAQUES EM BRASIL

    RIO - Contra todas as previsões, Isaías da Silva Ganga, de 15 anos, é um aluno MB, o conceito máximo que se pode atingir na rede municipal de ensino. Filho de um feirante que só estudou até a quarta série e de uma mãe que nunca se sentou numa carteira escolar, ele consegue se concentrar nos estudos mesmo debaixo do fogo cruzado na Favela da Coreia, na Zona Oeste, onde mora, palco de uma prolongada guerra entre traficantes e a polícia. Seus esforços já renderam a aprovação no concurso do Colégio Pedro II, mas ele quer voos mais altos. Literalmente. O sonho de Isaías, o brilhante aluno da Escola Municipal Mário Fernandes Pinheiro, localizada na Favela do Rebu, em Senador Camará, é ser piloto de avião.

    Assim como Isaías, outros alunos do ensino público, mesmo remando contra uma maré de problemas, se destacam nas salas de aula. O resultado, geralmente, é fruto da dedicação do aluno, dos responsáveis, dos professores e da direção das escolas onde estudam.

    No caso de Isaías, a escola o indicou para um curso preparatório da Aeronáutica. As aulas na Base Aérea dos Afonsos, em Realengo, ajudaram o estudante a passar na prova do Pedro II, unidade de ensino federal cuja seleção é hoje como um vestibular, tamanha a concorrência.

    - Quero ser piloto da Aeronáutica, gosto de aviões - revela o morador da Favela da Coreia, que ainda analisa uma outra possibilidade. - Penso também em engenharia de edificações.

    Bom com números, sua nota em matemática é 10:

    - Tirei 10 em matemática, inglês, história e português - conta com timidez.

    Segredo de menino é estudar nas horas vagas

    O pai de Isaías ganha cerca de R$ 600 por mês e trabalha na feira da estação de trem de Senador Camará aos domingos, vendendo bijuterias. Nos fins de semana, o estudante ajuda o pai. Ao longo deste ano, Isaías passava as manhãs na Base Aérea, e as tardes na escola. Quando chegava em casa, à noite, ainda relia toda a matéria do dia. A dedicação é atestada por professores e pelo diretor da escola, Frederico Mendonça:

    - O Isaías é o cara, um aluno nota 10, desde pequenininho. Ele mora na comunidade, num local que as pessoas $que tudo que sai daqui é ruim. Ele é um orgulho para a gente - comenta o diretor, que foi professor de português e espanhol de Isaías.

    Longe de Senador Camará, no Rio Comprido, outro estudante ganha atenção especial da escola. Igor Santana Teixeira, de 13 anos, estuda na Escola Municipal Mário Cláudio e é considerado ótimo aluno. Mas, até o ano passado, ele apenas copiava os textos do quadro, não conseguia ler nem interpretar. Hoje a realidade é outra, e seu avanço coincidiu com uma mudança de política na rede municipal para os alunos com necessidades especiais: Igor tem uma deficiência auditiva e, este ano, ao contrário dos outros, passou a frequentar as aulas de uma turma regular. O jovem agora tem conceitos MB e superou rapidamente muitos colegas de classe do 4 ano.

    Menino lê jornais e revistas que a mãe recolhe nas ruas

    Por meio da linguagem de sinais, ele conta que gosta de ler e que sua matéria preferida é português.

    - Gosto de ler jornais e revistas que a minha mãe pega nas ruas - afirma o aluno, cuja mãe é catadora de papel.

    Além do que consegue com a venda do material, Clemencina Santana, de 46 anos, sustenta Igor e uma filha de 20 anos com o dinheiro do Bolsa Família e do Cartão Família Carioca. A família mora no Morro da Mangueira e, diferentemente da maioria dos estudantes da escola, Igor não possui computador em casa.

    - Ele não lia, só copiava. Hoje a gente consegue compreender o que ele escreve. Ele evoluiu muito. Com todas as dificuldades, ele conseguiu se superar e superar muitos colegas. Ele é um aluno nota 10 - diz a professora Simone Zacarias.

    Por causa dele e de outros alunos surdos da sala, o resto da turma está aprendendo a usar a linguagem dos sinais. Animado, Igor conta o que quer do futuro:

    - Quero ser dentista.

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