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    Diversificar: a estratégia de crescimento das grifes de moda

    SÃO PAULO - De um lado do Atlântico, crise, do outro, aumento de renda e emprego formal. Seja de qual for a perspectiva, a indústria da moda tem adotado uma estratégia comum para o crescimento: a diversificação. Muitas marcas de luxo têm um público elitizado, mas que pode ser limitado. Lançar um mix de produtos é uma forma de alcançar novos clientes dentro desse segmento mais sofisticado. Em alguns casos, as marcas criam produtos com valores menores para alçar as vendas. Pode ser o chaveiro, a carteira e até o esmalte. É uma forma de despertar o desejo pela marca. O princípio serve também para o varejo de massa, dizem analistas. Uma pesquisa do Ibope/Inteligência mostrou que o brasileiro está disposto a gastar um pouco mais com o vestuário este ano em relação a 2011. Segundo o levantamento, o tíquete médio com roupas este ano será R$ 670, enquanto no ano passado ficou em R$ 583.

    Márcio Ito, professor da Moda da Faculdade Santa Marcelina, uma das mais tradicionais do setor em São Paulo, afirma que diversificar produtos é uma questão de sobrevivência para as grifes:

    - Além disso, no caso brasileiro, diversificar os produtos é uma forma de aproveitar o crescimento da economia no Brasil.

    Dona de 70 lojas em pontos nobres do país, como a Rua Oscar Freire, em São Paulo, e com produtos em cerca de 350 lojas multimarcas, a grife brasileira Victor Hugo, famosa por suas bolsas e acessórios de luxo, se prepara para dar um passo nessa direção. A partir de março as consumidoras poderão também encontrar nas lojas uma coleção de roupas com a marca VH. Os produtos vão custar de R$ 450 a R$ 4,9 mil, bem menos do que as disputadas bolsas da marca, que vão de R$ 565 a R$ 20 mil. A Victor Hugo é mais uma grife que diversifica seus produtos, uma tendência que outras marcas internacionais de ponta já trilharam. Mas a Victor Hugo, entretanto, faz o caminho inverso: fez fama com os acessórios e agora passa a ter peças de vestuário.

    Em entrevista exclusiva ao O GLOBO, o diretor criativo e dono da marca, Victor Hugo, diz que lançar roupas é um processo natural da grife. Ele teve a ideia há quatro anos, mas só agora colocou seu plano em prática. O diretor não revela números de investimento nem de faturamento.

    - É um processo natural. Para entender de acessórios é preciso entender de roupa. Os dois caminham juntos. Teremos muito trabalho pela frente para adaptar as nossas lojas. Mas isso teria que ser feito um dia. Já se passaram quatro anos desde que eu tive a ideia. Vai levar um pouco mais de tempo para ficar como eu quero. Eu quero a perfeição! - conta Victor Hugo.

    A coleção de estreia, diz ele, não tem nada de 'look básico'. Como as bolsas, as roupas serão elegantes e sofisticadas. Serão lançados jeans, camisetas, blasers, jaquetas de couro e vestidos VH. Um vestido com pedras e bordado à mão vai custar, em média, R$ 4,9 mil. Os preços das jaquetas vão variar de R$ 2,8 mil a R$ 3,2 mil. Ao ser questionado sobre expansão da rede no Brasil, Teddy Perez, diretor de marketing da Victor Hugo, dispara:

    - Só se houvessem novos shoppings.

    A tradicional marca de calçados Arezzo, cujo grupo Arezzo & Co vendeu 2,2 milhões de pares apenas no terceiro trimestre de 2011, também está apostando na diversificação. Aproveitando a coqueluche dos esmalte a marca lançou uma coleção própria. Segundo a empresa, apesar do cosmético não ser o foco do negócio, ele virou um complemento nas vendas. As cores se adequam sempre à cada coleção de calçados. As embalagens contêm três esmaltes e custam R$ 24,90.

    A grife francesa Louis Vuitton também se prepara uma nova empreitada: vender perfumes. A data do lançamento do perfume ainda não foi divulgada, mas a marca já fechou um acordo com o mestre perfumista Jacques Cavallier-Belletrud.

    - Desde sua fundação em 1854, a capacidade da Louis Vuitton de desenvolver novas áreas de experiência nunca diminuiu. Bagagens, artigos de couro fino, moda pret-à-porter, acessórios, sapatos, relógios, jóias finas e, agora, perfumes - declarou Yves Carcelle, CEO da Louis Vuitton, durante o anúncio da novidade, no início de janeiro.

    Segundo Guilherme Kosmann, da consultoria MCF, especializada em luxo, em alguns casos, os produtos secundários se tornam grandes fontes de receita para estas marcas:

    - Em alguns casos, chegam a 30% do faturamento do total da empresa .

    Kosmann lembra que os casos mais emblemáticos de diversificação de produtos, no entanto, não estão na indústria de moda, mas sim na automobilística:

    - Marcas como Ferrari, Porsche, Audi e Mercedes-Benz lançaram produtos secundários como óculos, bolsas, bicicletas e itens de vestuário. Essa estratégia fortalece a marca junto a seus consumidores e junto ao público que não consegue ter acesso aos produtos principais, de valor mais elevado. Também fomenta o desejo pela marca - diz Kosmann.

    Ele lembra ainda que a grife italiana Giorgio Armani, focada em vestuário, fez uma 'dobradinha' com a fabricante alemã Mercedes-Benz e customizou um veículo da montadora. Só cem unidades do modelo CLK foram produzidas com a grife Armani. O preço? US$ 100.000,00.

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