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    Dom Julio Grondona, um driblador de escândalos

    BUENOS AIRES, Argentina - Ele assumiu a presidência da Associação do Futebol Argentino (AFA) em 1979, quando tinha 48 anos. Desde então, 15 chefes de Estado passaram pela Casa Rosada, entre eles os militares que comandaram a última ditadura (1976-1983), e o país foi assolado por gravíssimas crises econômicas, políticas e sociais que provocaram renúncias e anteciparam o fim de mandatos presidenciais. Mas ele, que durante todos esses anos foi alvo de dezenas de denúncias nos tribunais argentinos, continua no mesmo lugar. Aos 80 anos, Julio Humberto Grondona, ou melhor, Don Julio, como até mesmo a presidente Cristina Kirchner o chama, está firmíssimo na presidência da AFA.

    No fim do ano passado, o juiz federal Claudio Bonadio pediu informações sobre supostas contas bancárias de Grondona em bancos da Inglaterra, Estados Unidos e Suíça. Bonadio, que também solicitou dados patrimoniais do cartola e de seus familiares mais próximos ao Banco Central, está encarregado de um processo sobre suposta lavagem de dinheiro que também envolve irregularidades na administração do River Plate. Enquanto tudo isso acontecia, Don Julio participava da reunião do comitê executivo da Fifa no Japão.

    - Em 32 anos, Grondona nunca foi condenado. As denúncias deixaram de ser sérias porque as pessoas que denunciam não são sérias - disse o secretário executivo do presidente da AFA, José Luis Meizner.

    Há muitos anos ele é o braço-direito de Grondona. Perguntado sobre os rumores de que o chefe estaria com câncer no cólon, Meizner deu risada.

    - Grondona está ótimo - afirmou o secretário executivo da presidência da AFA, que considera Don Julio um homem "honesto, generoso e, quando o assunto é futebol, o mais sábio de todos".

    Mas Grondona também tem inimigos. Dono de vários meios de comunicação e presidente de um clube esportivo provincial, Daniel Vila está empenhado em destronar Grondona. A guerra é feroz. Um vídeo circulou em canais de TV e redes sociais no qual o presidente da AFA falava em negócios milionários e ameaçava matar alguns rivais. Para a tropa de Grondona, o vídeo foi realizado e editado por homens de Vila e o sentido das palavras do presidente da AFA, portanto, desvirtuado. Para os rivais de Grondona, os argentinos viram quem é realmente o dono do futebol argentino.

    - Em 32 anos, tive mais denúncias do que o Al Capone, mas jamais fui condenado - defendeu-se Grondona.

    AFA x Clarín

    Há cinco anos, a ONG "Salvemos o futebol" trabalha para reduzir a violência nos estádios argentinos que, segundo seus fundadores, também é responsabilidade de Grondona. Como muitos jornalistas locais, a ONG acusa o presidente de estar vinculado aos temidos barras bravas, os hooligans argentinos.

    - As autoridades dos clubes e a AFA protegem os barras bravas - denunciou a presidente da ONG, Monica Nizzardo.

    Segundo ela, Grondona põe negócios particulares acima do esporte e da segurança.

    - O presidente da AFA dá dinheiro a seus amigos e não controla nada. Por isso temos a violência que temos - argumentou Monica, que também questionou o acordo entre a AFA e a Casa Rosada, sócios do programa Futebol Para Todos (FPT).

    O acordo marcou o fim da parceria entre a AFA e o grupo de meios de comunicação Clarín e alimentou boatos sobre supostos negócios de Grondona com os Kirchner.

    - Os clubes recebem muito menos do que o governo repassa à AFA. Quem fica com esse dinheiro? - perguntou o deputado Carlos Comi, da opositora Coalizão Cívica.

    Em 2010, a comissão de esportes da Câmara, exigiu de Grondona explicações sobre a viagem de dezenas de barras bravas no avião que levou à seleção a Copa de 2010. O presidente e o então técnico da seleção, Maradona, foram acusados de terem financiado a desastrada excursão dos vândalos, que foram impedidos de entrar na África do Sul. Como tudo o que fala-se e escreve-se sobre Don Julio, as provas nunca apareceram. Este ano, foi reeleito e nada parece indicar que seu reinado esteja no começo do fim. Como no caso de Cristina, reeleita com 54% dos votos, ainda não apareceu na Argentina uma pessoa capaz de ameaçar o poder conquistado pelo homem forte do futebol nacional.

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