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    Frei Betto vê como 'ironia' pauta do Fórum Econômico Mundial

    DESTAQUES EM BRASIL

    PORTO ALEGRE - Participante histórico do Fórum Social Mundial, o escritor Frei Betto vê como uma "ironia" a inversão da pauta do Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, com a do Fórum Social Temático, em Porto Alegre. Enquanto o Fórum Social discute sustentabilidade, tema que sempre preocupou os movimentos sociais e os intelectuais dos países ricos, Davos enfrenta as dúvidas da crise do capitalismo. Frei Betto é uma das lideranças que se reunem nesta quinta-feira com a presidente Dilma Rousseff para tratar do diálogo da sociedade civil com os chefes de Estado que participarão da Rio + 20, conferência das Nações Unidas sobre sustentabilidade.

    A presidente receberá 90 lideranças e intelectuais brasileiros e estrangeiros, entre eles o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, o escritor Leonardo Boff, o educador Sergio Haddad e coordenadores do Fórum Social Mundial.

    O GLOBO - Como o senhor vê a realização desse Fórum em Porto Alegre?

    FREI BETTO. Acho um êxito ter conseguido um número significativo de pessoas sendo um fórum temático. Tem a especial deferência da presidente Dilma e de ministros e, ao mesmo tempo, discutindo uma agenda muito importante, que é a mobilização da sociedade civil para a Rio+20.

    O Fórum é patrocinado completamente pelo poder público. O senhor acha que isso compromete sua independência?

    FREI BETTO. Não. Porque não há nenhuma restrição tanto para participantes, quanto para perfis de palestrantes ou quanto à linha, que é muito democrática. Não vejo nenhum dado que diga que o dinheiro público esteja condicionando a temática do fórum.

    A ministra Izabella Teixeira, do Meio Ambiente, afirmou que na Rio+20 haverá um espaço de quatro dias para que a sociedade possa dialogar com os chefes de estado. O senhor acha que isso vai funcionar?

    FREI BETTO. Acho que vai funcionar se, e essa é a proposta deste fórum, mobilizar a sociedade para ficar com o foco na Rio+20. O foco tem de ser em duas coisas: a Rio+20 e as eleições municipais deste ano. Porque temos que conseguir dos candidatos a prefeito um compromisso com a sustentabilidade.

    O Fórum Social Mundial parece dissociado dos novos movimentos como a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street e os Indignados da Europa. O senhor acredita que deveriam estar mais próximos?

    FREI BETTO. Acredito que deva incorporar essas lideranças também. Na minha avaliação, essa crise econômica mundial vai ser muito mais profunda do que foi até agora. E isso vai criar uma mobilização internacional muito grande.

    O meio ambiente sempre foi tema do discurso das sociedades dos países ricos, enquanto o Fórum Social sempre debateu a crise do capitalismo. Há uma inversão das agendas?

    FREI BETTO. A crise do capitalismo é algo que vem sendo debatido pelo Fórum sempre. É uma pauta permanente. O curioso ou irônico da história é ver Davos agora discutir a crise. É claro que eu não tenho nenhuma esperança de que vá ser uma discussão que coloque em pauta "um outro mundo possível".

    Por quê?

    FREI BETTO. Porque as medidas tomadas até agora para resolver a crise são medidas intrassistêmicas, absolutamente paliativas e burocráticas. O FMI nomeou dois burocratas para administrar a crise da Grécia e da Itália. Quando o primeiro-ministro da Grécia sugeriu consultar o povo (o FMI respondeu): "não, de jeito nenhum vamos consultar o povo. Nós é que vamos resolver isso". E assim estamos.

    Como você se sente ao ler este artigo?

     

    1 comentário

    • Johannes  •  3 meses atrás
      Fórum Social de Porto Alegre = Woodstock da esquerda.
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