Nelson Rodrigues foi considerado "o bardo dos subúrbios" por ter retratado, como poucos, a vida da classe média na Zona Norte. Porém, a Zona Sul também foi palco de importantes momentos do escritor e jornalista. Do primeiro endereço na região - na Rua Inhangá, em Copacabana, para onde se mudou aos 10 anos -, ao Edifício Sabará, no Leme, no qual residiu até morrer, Nelson viu e viveu muitas histórias, sendo que diversas inspiraram peças e crônicas. No centenário de seu nascimento, O GLOBO-Zona Sul resgatou algumas pesquisando arquivos e ouvindo velhos amigos dele, como Hans Henningsen, o Marinheiro Sueco.
O Marinheiro Sueco foi um personagem bastante presente na vida e nos textos de Nelson Rodrigues. Espanhol, filho de alemães, Henningsen ganhou esse apelido do amigo, na década de 60, por conta de suas feições nórdicas. Eles apresentavam juntos o programa "Grande resenha Facit", na extinta TV Rio, que funcionava no prédio onde hoje está o Shopping Cassino Atlântico, no Posto 6, em Copacabana.
A parceria dos dois foi além do trabalho. Fora do estúdio, viveram boas histórias - a maioria na Zona Sul. Aos 78 anos, o Marinheiro Sueco ainda guarda claramente na memória recordações daquela época. Um dos episódios prediletos de Henningsen é o que lhe valeu o título de "Onassis de tanga, o milionário pobre".
- Certa tarde, fomos receber o pagamento da TV Rio. Só que o dinheiro não saiu. Tínhamos combinado de almoçar no Nino na volta, como fazíamos com frequência. Mas, sem o salário, Nelson estava preocupado, não sabia como pagaria a conta. Mesmo assim, comemos muito bem e, no fim, chamei o garçom e paguei toda a despesa. Depois, ele passou a me chamar de "Onassis de tanga", porque, mesmo sem dinheiro, fiz a cortesia - lembra, com ar nostálgico, o Marinheiro Sueco.
O Nino era um dos restaurantes favoritos de Nelson. Ficava na esquina das ruas Bolívar e Domingos Ferreira, em Copacabana. Em seu lugar, atualmente, funciona um bar da rede Belmonte.
Segundo Nelson Rodrigues Filho, o Nelsinho, um dos pratos prediletos do pai naquele restaurante era arroz, feijão, purê de batata e carne moída:
- Achava engraçado porque o Nino era um restaurante chique, classe A, mas ele gostava de comer isso e não tinha a menor vergonha.
Além do Nino, Nelson gostava de ir à Cantina Sorrento, na Avenida Atlântica, no Leme, e ao Antonio's, na Avenida Bartolomeu Mitre, no Leblon.
Algumas das aventuras amorosas de Nelson Rodrigues tiveram a Zona Sul como testemunha. Durante o casamento com Elza Bretanha, em 1948, o jornalista teve um caso com a cantora lírica Eleonor Bruno, a Nonoca. Para ficar com ela, Nelson usava um apartamento no Edificio Pitaguary, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Ele mantinha o imóvel com o jornalista Pompeu de Souza para servir, justamente, a esses encontros às escondidas.
Foi para Nonoca que Nelson escreveu, em 1949, a peça "Dorotéia". O romance durou até 1950, quando Elza surpreendeu os dois no edifício, numa cena que inspirou um dos contos de "A vida como ela é". Este e outros casos estão registrados no livro "O anjo pornográfico" de Ruy Castro.
Em 1963, chegava ao fim a união de mais de 20 anos entre Nelson e Elza - que depois seria reatada. Ele havia se apaixonado por Lúcia Cruz Lima, uma amiga de sua irmã Helena. Os dois se conheceram em 1961, durante uma festa no apartamento de Helena, no Parque Guinle, em Laranjeiras. Por um tempo, a relação foi mantida paralelamente ao casamento de Nelson, mas Lúcia engravidou e o escritor resolveu sair de casa.
Nelson e Lúcia foram viver num apartamento alugado na esquina das ruas Visconde de Pirajá e Montenegro (hoje Vinicius de Moraes), em Ipanema. A filha do casal, Daniela, tinha paralisia cerebral e era cega, surda e muda. Para ela, Nelson escreveu o texto "A menina sem estrela". O casal ficou junto por oito anos.
Um dos últimos relacionamentos de Nelson antes da retomada de seu casamento com Elza, em 1977, foi com Helena Maria, a Heleninha, uma colega de redação. Eles moraram na Rua Rita Ludolf, no Leblon, e depois no Cosme Velho, na Rua Professor Mauriti Santos.
No fim da década de 60, a região foi palco de uma grande tragédia na vida de Nelson Rodrigues. Um prédio em Laranjeiras, onde estavam alguns parentes, desabou depois de uma forte chuva.
"Morreu meu irmão Paulinho e, com ele, sua esposa Maria Natália, seus dois filhos, Ana Maria e Paulo Roberto, e sua sogra, dona Marina. Todos morreram, todos, até o último vestígio", contou na crônica "O ex-covarde", publicada em 1968.
Mas houve, claro, momentos muito felizes. A estreia nacional da adaptação de "A dama do lotação" para o cinema, no Roxy, em 1978, foi um enorme sucesso. O filme, aliás, foi recorde de público do cinema brasileiro.
O diretor Neville D'Almeida diz que foi graças ao faturamento do filme que Nelson ficou melhor de vida e pôde comprar um apartamento no Edifício Sabará, no Leme. Ele lembra também que, durante o tempo em que "A dama do lotação" ficou em cartaz , Nelson costumava ir até a porta do Roxy admirar as filas que se formavam.
- Livro, jornal e teatro nunca deram dinheiro a ele. Foi uma coisa maravilhosa poder fazer o Nelson ser recompensado por sua obra - afirma o diretor.
Nelson morreu de insuficiência cardíaca no dia 21 de dezembro de 1980, na Clinerj, em Laranjeiras. Foi enterrado no Cemitério São João Batista, em Botafogo.
Visão paradisíaca ao entrar na Avenida Atlântica
"(...) Meu táxi ainda deslizava pela Rua Francisco Sá. E eu já via, com olhos da imaginação, uma praia deserta, sem uma mísera alma ou de calção ou de biquíni. Todavia, quando dobro para a Avenida Atlântica, eis o que vejo: do Forte de Copacabana ao Vigia, era uma só multidão que daria para lotar várias vezes o maior Fla-Flu. Por um momento, eu, na mais amarga perplexidade, não sabia o que pensar. Eram os mesmos umbigos paradisíacos da véspera, e de todas as vésperas. Essa nudez multiplicada deu-me o que pensar. Foi aí que descobri esta verdade nacional: o brasileiro é um feriado, temos alma de feriado. Até a dobra do Leme tive tempo de propor a mim mesmo a seguinte questão: - "Se o brasileiro não sai da praia, quem faz o Brasil?"
Trecho da crônica "Sem amar, nem odiar", de 28 de dezembro de 1967
Deslumbrado com o pôr do sol no Leblon
"(...) Uns vinte anos depois, passo, com um amigo, pela Praia de Ipanema. E, por um momento, ficamos, ali, feridos de espanto. Que dizer de um poente do Leblon? Um de nós poderia declamar a seguinte imagem de D'Annunzio: 'O crepúsculo rola em quedas de silêncio e de luz'. Em vez disso, o meu amigo arrancou, das próprias entranhas, um palavrão deslumbrado. Aquele poente de folhinha como que exigia o uivo obsceno, não convencional (...).
Trecho da crônica "A doença infantil do palavrão", de 1 de fevereiro de 1968
Em Copacabana, a fascinação por espartilhos...
"Hoje, a nudez não custa nenhum esforço. Com dois ou três movimentos, qualquer uma se despe. É, se assim posso dizer, uma nudez fulminante. Na época do espartilho, não. Eu fui, confesso, um menino fascinado pelo espartilho. Já com dez anos, subi, certa vez, no sótão lá de casa. Morávamos, então, em Copacabana, na Rua Inhangá, nos fundos do Copacabana Palace. Na casa do lado, havia um menino chamado Edgard, que é, hoje, se não me engano,engenheiro. Mas deixemos o Edgard. Subi ao sótão e encontrei lá uma mala cheia de roupas antigas, exatamente roupas da belle époque. No meio de velhas plumas, de chapéus espectrais, descobri um espartilho,cor-de-rosa. Muitos anos depois, escrevi minha peça 'Vestido de noiva'. E a heroína também sobe ao sótão, também abre uma mala da belle époque e também descobre um espartilho (...)."
Trecho da crônica "Velhos espartilhos", de 30 de dezembro de 1967


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