PARATY e RIO - O medo de assaltos está mudando a rotina de quem navega pela Baía da Ilha Grande. Área de lazer de muitos veranistas, o mar tranquilo da Costa Verde ficou turbulento para donos de embarcações após o assalto ao iate de 61 pés de um médico de Ubatuba (SP) no último dia 21, perto da Ilha do Cedro, em Paraty. O velejador paulista Carlos Matos Luis disse ontem que, a cada 15 dias, passa o fim de semana em Paraty. A partir de agora, não dormirá mais em seu veleiro longe da costa.
- O que percebo é que as pessoas da comunidade da vela estão assustadas. Todas estão mudando suas rotinas. Agora vou dormir com minha família no veleiro, mas numa marina - disse Luis.
Ladrões intimidam vítimas para não registrarem queixa
Ainda segundo o velejador, vários donos de embarcações que viriam de São Paulo para Paraty no carnaval poderão desistir da viagem:
- As pessoas estão repensando esse passeio. O que se sabe é que os bandidos intimidam as vítimas, para que elas não relatem o assalto à polícia.
Apesar de a polícia ter nos últimos anos apenas um registro de assalto a embarcação em Paraty - o sofrido pelo médico de Ubatuba -, moradores das praias de São Gonçalinho e Tarituba dizem que a pirataria durante o verão está se tornando mais comum na região. Ainda segundo esses relatos, no mesmo dia em que o iate do médico foi assaltado, uma lancha de 50 pés, ancorada nas proximidades da Ilha do Cedro, foi alvo dos bandidos. Esse caso não foi registrado na polícia, assim como outros dois que teriam ocorrido durante o réveillon.
Moradores não acreditam que os bandidos sejam da região. Na opinião deles, a quadrilha é composta por marinheiros de iates que vão para a área. Para os moradores, esses profissionais aproveitam a hora em que os proprietários estão dormindo para pegar o bote de apoio e cometer os crimes.
- Naquela noite (21 de janeiro), a quadrilha invadiu dois iates. Conversei com marinheiros que trabalhavam nas duas embarcações e todos me descreveram a violência usada pelo bando para ameaçar suas vítimas. Um dos marinheiros me disse que ia pedir demissão, tamanho o trauma. Além disso, me contaram que, nos dois casos, os bandidos conheciam bem o interior das embarcações. A prova é que eles (os ladrões) se dirigiram direto à cabine dos comandantes, que foram os primeiros a serem rendidos - conta o mecânico de barcos Wanderlei Fraga, morador de São Gonçalinho.
Dono de um bar nessa mesma praia e irmão de Wanderlei, José Carlos Fraga lembra que, no verão passado, um iate de 72 pés foi alvo de uma invasão semelhante. Na ocasião, o barco estava fundeado na altura da Praia de Tarituba. Segundo ele, o caso não foi registrado.
- Há cinco anos era comum haver furtos de equipamentos de lanchas. Meu irmão e eu já trabalhamos com passeio de barco e tivemos algumas das nossas lanchas atacadas. Agora, a quantidade de turistas que chegam com seus iates à costa aumentou consideravelmente, atraindo uma nova modalidade de crime. No ano passado fiquei sabendo de apenas um caso. Mas neste verão já ouvi o relato desses dois casos numa mesma noite - disse, acrescentando que, após o assalto à lancha do médico, a Capitania dos Portos reforçou a fiscalização.
Um barqueiro que faz passeios para ilhas de Paraty lembrou que, no dia seguinte ao do assalto ao médico, encontrou uma lancha abandonada no píer da Praia de Tarituba.
- Cheguei ao píer por volta das 8h e achei estranho a presença de um barco desconhecido amarrado ao píer. Notei que tinham levado o motor. Liguei para Capitania dos Portos, que veio recolher a lancha pouco depois do meio-dia - disse ele, pedindo anonimato.
"Soube que a ação dos bandidos foi muito violenta"
Na Marina 188, uma funcionária confirmou que um iate de 50 pés guardado ali foi invadido no mesmo dia da embarcação do médico. Ela disse ter ouvido o relato dos próprios marinheiros, que estavam bastante assustados.
- Soube que a ação dos bandidos foi muito violenta. Ouvi ainda que o proprietário quer vender o iate, acredito que seja por causa do trauma.
A chefe de Polícia Civil, delegada Martha Rocha, determinou ontem que os delegados de Paraty e de Angra adotem total rigor nas investigações para identificar a quadrilha acusada de assaltos a lanchas na região. Ele pediu um relatório detalhado de todas as investigações ao delegado titular da 167 DP (Paraty), Hermano Augusto Rocha. Foi o policial quem iniciou as investigações porque, na época do assalto, o delegado titular de Paraty estava de férias.


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