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ATIVIDADES DE AMIGOS

    Ela mora no mar, brinca na areia e desfila na Sapucaí

    DESTAQUES EM BRASIL

    O canto da guerreira serenou o mar, espantou a tristeza, arrastou multidões e deixou um rastro de saudade depois da partida. Vinte e nove anos após sua morte, Clara Nunes permanece viva na memória dos amantes da boa música e, especialmente, dos portelenses. No ano em que faria 70 anos, a tal mineira de Paraopeba será destaque no maior espetáculo da Terra. E a homenagem é dupla. Clara Nunes é uma das inspirações do enredo da Portela sobre as festas da Bahia, em um dos sambas mais festejados deste ano. No sábado de carnaval, a Paraíso do Tuiuti abre os trabalhos do Grupo de Acesso e eleva Clara da inspiração ao protagonismo. A cantora que eternizou "Morena de Angola" é o enredo da escola de São Cristóvão, na briga por uma vaga no Grupo Especial ano que vem. Para representar Clara Nunes na comissão de frente, a escola convidou a atriz, cantora e ex-rainha de bateria da Viradouro Patrícia Costa.

    - Tinha 8 anos quando fui à quadra da Portela pela primeira vez. Enquanto a Clara Nunes cantava, tinha uma aura em volta dela. Parecia o Sol - lembra Patrícia, neta de Cláudio Bernardo da Costa, um dos fundadores da azul e branco.

    Samba, liberdade e paixão

    Da paixão pelo avô, Patrícia herdou também o amor pelo samba e pela Portela. A estreia no carnaval aconteceu em grande estilo. Em 1984, ano da inauguração do Sambódromo, a escola de Madureira trouxe um enredo que homenageava os bambas Paulo da Portela, Natal e, sempre ela, Clara Nunes. Patrícia veio em um carro alegórico e comemorou o título, dividido com a Mangueira. Mas a vontade mesmo era sair no chão. Em 1990, realizou o sonho e ganhou o Estandarte de Ouro de revelação. O prêmio, como não poderia deixar de ser, foi entregue pelo avô.

    - Fiz balé, jazz, sapateado, mas foi no samba que eu me encontrei. É a dança da liberdade - destaca.

    De Madureira, seguiu para Niterói, onde reinou à frente da bateria da Viradouro de 1992 a 1998 e em 2011. Levantou mais um trófeu de campeã em 1997, ano da "paradinha funk", criação do Mestre Jorjão.

    - Foi um desfile impressionante. Tinha muita energia na Sapucaí - recorda.

    Completando a festa, Patrícia volta à Portela este ano, convidada pelo carnavalesco Paulo Menezes.

    - Vou sair em um carro alegórico, mas, como sempre, vou defender a dança do samba - garante.

    No estúdio fotográfico, simpatia e samba-enredo para descontrair

    "Quem samba na beira do mar é sereia", cantava Clara Nunes. Quem samba na avenida, no estúdio fotográfico ou em qualquer lugar é quem nasceu para brilhar no carnaval, caso de Patrícia Costa. Ao posar para as fotos no GLOBO, ela deixou isso claro, demonstrando carisma.

    - O carinho das pessoas é o combustível - afirma.

    Para transformar Patrícia em Clara, o maquiador Marcello Arruda mergulhou em um trabalho de pesquisa.

    - Vi que a maquiagem usada na época era mais suave. Usei base e sombra em tons neutros - conta ele, que teve a ajuda de um livro levado por Patrícia, com diversas fotos de Clara Nunes.

    A produção ficou completa com uma bata e uma saia de laise, tecido 100% algodão. Roupas brancas, claro, sob a inspiração das religiões afrobrasileiras, que marcaram presença na vida e na obra da cantora.

    Tudo pronto, todos a postos, chegou a hora da sessão de fotos. Quer dizer, quase tudo pronto. Faltava o samba. Patrícia só se sentiu à vontade para evoluir no estúdio depois que os primeiros acordes de "Morena de Angola" saíram das caixas de som.

    Para encerrar, um pedido: o samba-enredo da Portela. Com a proteção de todos os guias, "com Clara Guerreira à Bahia," o trabalho estava feito.

    Enquanto isso, no barracão...

    Depois de homenagear Arlindo Cruz em 2002, Cartola em 2008, e conquistar o título do Grupo de Acesso B no ano passado, contando a história do doce bárbaro Caetano Veloso, a Paraíso do Tuiuti reforça a tradição de enredos sobre personalidades e vai levar para a avenida um desfile contando a trajetória de Clara Nunes.

    - Quando eu cheguei à escola, o presidente (Renato Thor) me pediu um enredo sobre alguém ligado à cultura brasileira. Tinha acabado de ler o livro "Guerreira da utopia", do Vagner Fernandes, e sugeri o nome da Clara. Ele adorou a ideia, disse que tinha um CD dela no carro - conta o carnavalesco Jack Vasconcelos.

    Para celebrar a Guerreira, como Clara era conhecida, o coreógrafo Fábio Batista desenvolveu os movimentos da comissão de frente baseados em danças folclóricas, como samba de roda, forró e maracatu.

    - Pesquisei os trejeitos da Clara Nunes. E por isso eu convidei a Patrícia Costa, por causa da movimentação e da interpretação. Sempre acompanhei o trabalho como rainha de carnaval e o samba dela tem um quê diferente - diz Batista, responsável pela comissão de frente.

    Além da dança, a coreografia prevê que Patrícia vai subir em uma espécie de tripé durante o desfile.

    - A coreografia é uma celebração da chegada da Clara Nunes em outro plano. A Patrícia é o pivô e os outros 14 componentes vêm como anjos e orixás - revela.

    Ao longo do desfile - com cinco carros alegóricos, nove alas e cerca de 2.200 componentes - o foco vai permanecer na carreira de Clara como cantora, conta o carnavalesco:

    - Ela não cantava qualquer coisa. Escolhia muito bem o repertório. A melhor forma de contar a história dela é falar das músicas.

    Vasconcelos disse ainda que o trabalho de pesquisa contou com a ajuda da irmã mais velha da cantora, responsável pelo acervo. Maria Gonçalves, conhecida como "Mariquita", recebeu o presidente, Renato Thor, e o diretor de carnaval, Leandro Azevedo, em uma visita ao interior de Minas.

    - A escola vem muito bonita. Não vai ser um carnaval só para passar na avenida - reforça o carnavalesco.

    Créditos

    Produção: Monique Vasconcelos

    Beleza: Marcello Arruda (Espaço Guto Leça, 2287-6360)

    Agradecimentos: Mundo Teatral (2263-3443), Flora Margarida (2551-7297) e Fiszpan (2264-3670)

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