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    Morre o senador e ex-presidente Itamar Franco aos 81 anos

    SÃO PAULO - O senador e ex-presidente Itamar Franco morreu neste sábado, aos 81 anos, no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Ele foi diagnosticado com leucemia e estava internado desde o dia 21 de maio. Na sexta-feira, o estado de saúde do ex- presidente piorou e foi levado para a UTI, com pneumonia grave.

    Itamar Augusto Cautiero Franco talvez seja o único mineiro que tenha nascido em alto-mar. Foi em junho de 1930, quando sua mãe viajava em um navio do Rio de Janeiro para Salvador e por isso foi obrigada a registrar o filho na capital baiana. No ano seguinte, o "erro" seria corrigido com o registro da certidão de batismo, que traz Juiz de Fora como sua verdadeira terra natal.

    Na cidade mais importante da Zona da Mata mineira Itamar viveu a infância e a juventude ao lado da maior parte de sua família, mas órfão do pai, que morreu antes que ele nascesse. Descendente de italianos, a mãe Itália Cautieiro passou um dobrado para manter a família com a venda de marmitas. Ela morreu em 1992, vinte dias antes da posse oficial do filho caçula como presidente da República do Brasil. Mas essa é outra história.

    Itamar gostava de jogar basquete. No fim da adolescência, escolheu seguir a profissão do pai e formou-se em Engenharia Civil e Eletrotécnica na Universidade Federal de Juiz de Fora. No entanto, a militância estudantil no Diretório Acadêmico foi mais prolífica do que a lida com planilhas e cálculos, ainda que no início da carreira o tino para a política tão parecesse algo tão definitivo: aos 28 anos candidatou-se a vereador pelo PTB e perdeu as eleições. O mesmo ocorreu quatro anos depois, quando tentou ser vice-prefeito.

    Por ser amigo do governador mineiro Magalhães Pinto, sobreviveu ao golpe de 1964 e não foi cassado, como ocorreu com a maior parte dos colegas do PTB. A primeira vitória chegaria em pouco tempo. Filiado ao MDB, foi escolhido prefeito de Juiz de Fora em 1966, feito que se repetiria em 1972, ao ser reeleito. Como administrador da sua cidade de coração, dividiu a experiência de poder com figuras que vinte anos depois escolheria para ocupar cargos chaves no Planalto Central, como o professor Murilo Hingel (futuro ministro da educação), Mauro Durante (futuro secretário-geral), Djalma Moraes (Comunicações), Alexis Stepanenko (Planejamento) e a família de Henrique Hargreaves (Casa Civil). No governo federal, formariam juntos o núcleo daquela que viria a ser conhecida conhecida como a República de Juiz de Fora, ou República do Pão de Queijo. Mas ainda chegaremos lá.

    Itamar Franco era daqueles tipos de líder que não se isolam na hora de tomar decisões - no seu caso, quase todas cheias de suspense e emoção. Preferia estar cercado por colaboradores e mantinha o hábito de consultar pessoas simples - do garçom do cafezinho à faxineira - para arejar a mente ao ser desafiado a tomar medidas complexas. Já era assim em 1974, quando exercia o segundo mandato como prefeito e decidiu renunciar para concorrer ao Senado pelo mesmo MDB. A decisão final só veio depois de ouvir a opinião do seu motorista, minutos antes do prazo.

    - A vontade dele sempre prevalecia no final, apesar de ser um bom ouvinte e não ter vergonha de voltar atrás - lembra e contemporiza o fiel escudeiro Henrique Hargreaves.

    Naquele tempo também era possível observar os primeiros sinais da estrela que carregaria por toda vida: algo que muitos chamariam de senso de oportunidade, outros classificariam como pura sorte. As chances de vitória na disputa pelo Senado eram as mais remotas. O candidato natural do MDB era Tancredo Neves, mas o mineiro temia perder para o candidato do partido do Regime Militar, a Arena, por isso lançou Itamar ao sacrifício. Na hora das urnas, a oposição surpreendeu em todo o Brasil. Itamar foi eleito por Minas e repetiu a dose em 1982, com o partido já renomeado como PMDB.

    Perdeu o controle da legenda em Minas em 1986 e tentou o governo do Estado pelo PL. Mas foi derrotado por Newton Cardoso, justamente o candidato do PMDB. Voltou para o Senado e encerrou o mandato com a participação na Assembleia Constituinte de 1987 no currículo.

    Desde a época em que era prefeito, Itamar gostava de dizer que se considerava um político de esquerda, embora pouquíssimas vezes tenha composto com os partidos mais tradicionais deste campo. Foi mais eficiente que os colegas na hora de reforçar a imagem de político com postura pública marcada pela seriedade e a austeridade. Surpreendeu a muitos correligionários quando aceitou ser vice candidato na chapa de Fernando Collor (PRB) à Presidência, em 1989. Mas era a única e melhor chance de alcançar o cargo máximo da República, o que viria a acontecer em pouco tempo.

    O temperamento intempestivo do mineiro e do cabeça da chapa não poderia ter outro resultado: desde a campanha os dois se desentendiam com frequência e o clima não ficou melhor quando Collor assumiu o cargo. Itamar sempre foi uma pessoa difícil de lidar. Não era vaidoso. Mas orgulhoso, sensível a críticas e muito agarrado às suas causas. Achava que era perseguição Collor escolher justamente a Usiminas na primeira etapa de um processo de privatização, ao qual se opunha inicialmente. Quando contrariado, tremia até o topete (mantido desde a juventude e sem adição de produtos de beleza, garantem os mais próximos).

    Um ano e meio depois da eleição, escândalos de corrupção envolvendo pessoas diretamente ligadas ao presidente começaram a manchar o mandato e meses antes do impeachment de Collor Itamar percebia que a situação era insustentável. Naquela época já reunia auxiliares para que diagnosticassem os principais problemas do país e iniciassem um desenho do que poderia vir a ser o seu governo. Com o afastamento definitivo de Collor, assumiu o cargo apoiado por um amplo leque partidário, num esforço claro para manutenção da ordem democrática há tão pouco tempo conquistada.

    - Pode orgulhar-se a Nação capaz de dominar as suas mais graves crises políticas na ordem da Lei. Sábio é o povo que, na conquista e preservação de sua própria liberdade, expressa veemência no clamor das ruas e na serenidade de seus atos - discursou pela primeira vez na TV como presidente, às vésperas da passagem de 92 para 93.

    Apesar da amplitude de apoio ao seu governo, o núcleo duro era mesmo formado pelos amigos do tempo de Juiz de Fora, somados a poucos parceiros da época do Senado, como Maurício Corrêa, que viria a ser nomeado ministro da Justiça. Não havia outro jeito, afinal, conhecia pouca gente no Rio ou São Paulo, e não tinha canais com o mundo acadêmico, empresarial ou sindical. Até mesmo no mundo político sua base era considerada precária e pouco capilarizada. Ainda assim Itamar foi hábil suficiente para garantir a estabilidade política do país depois do maior escândalo político da vida nacional.

    O núcleo estava sempre por perto e o aconselhava, mas não foi capaz de evitar um dos episódios mais curiosos do período. Com o suspeito argumento de que o último presidente a participar do carnaval teria sido Hermes da Fonseca, em 1913, Itamar partiu para o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro em fevereiro de 1994, onde protagonizou cena inesquecível ao lado da "modelo" cearense Lilian Ramos, de 27 anos. O encontro ficou famoso por causa de uma ausência: a calcinha da jovem com quem sambou, trocou palavras de pé de ouvido e até telefones. Jantariam na noite seguinte, se a imagem do presidente da República em flerte explícito com uma mulher seminua não tivesse rodado o mundo e instalado uma crise que, no fim das contas, só serviu para encerrar abruptamente o romance.

    No seu governo a população participou do plebiscito que reafirmou a escolha do regime presidencialista para o país. Promoveu o fim da hiperinflação (que chegava a 1.100% em 1992) ao executar o Plano Real. A medida foi gestada por quase um ano por um grupo de economistas e colocado a cabo pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso, indicado por Itamar para o Ministério da Fazenda. O plano garantiu a normalização da atividade econômica e permitiria, e nos anos seguintes, a retomada do desenvolvimento econômico e social do Brasil. Esta conquista sempre foi até o fim da vida o seu maior motivo de orgulho. Itamar Franco morreu hoje, dia 02 de julho. Deixa duas filhas e dois netos.

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    300 comentários

    • Maria do carmo bhering c ...  •  10 meses atrás
      Valeu Itamar.Descanse em paz.Que Deus te acolha de bracos abertos.
    • rogerio  •  10 meses atrás
      Que Deus abençoe, homem de carater um politico verdadeiro um exemplo, pessoas assim já não existe mais. Obrigado Itamar por fazer e mostrar o que um grande politico pode fazer ao seu pais. sentiremos muita falta. o Brasil perde e nós também!Adeus...
      • Pb.José 10 meses atrás
        Deus abençoa somente os VIVOS não abençoa os MORTOS!!
      • marly 10 meses atrás
        Vc Servo do Senhor Jesus, deve achar que é o dono da verdade. Esses comentários mostram quanto é pequena e mesquinha a sua fé. Respeite a fé ou religião dos outros, só assim será digno de usar o nome de Jesus. Vc presta um péssimo testemunho.
    • Henry  •  10 meses atrás
      Q pena... poderia ter sido o coroné Sarney esse não morre de jeito nenhum!!!
      • maria 10 meses atrás
        mas vc nao sabe que os melhores vao antes? Veja se Paulo Renato , da educaçao.
        Quando penso no Hadad, me da calafrios.
      • criaturildo 10 meses atrás
        Mas um dia ele vai, nem que seja de noite.O Brasil merece.
      • Ursula Carla 10 meses atrás
        è verdade Henry....esse ex-presidente josé Saney quase levou o Brasil ao Kaos!!!!! Foi a pior época em que vivi....juros altíssimos, inflação nas núvens...o cruzeiro não valia NADAAAAAAAA!!!!!!! E até hoje ele é uma porcaria....colocou vários parentes na câmara, enrolou ao máximo e conseguiu se safar.....Estou pasma e estarrecida...e olha que foi o POVO quem o elegeu e agora alguns governantes que o colocaram na cadeira que agora ele ocupa.
    • Rodrigo  •  10 meses atrás
      Nosso Brasil precisa de mais políticos assim, que fazem história, do bem!!!!!!!!!!
    • Luiz Gonzaga  •  10 meses atrás
      Esse foi verdadeiramente o CARA. Mas a vida é assim. Que Deus e os bons espíritos o acolham e que ele não se esqueça dos milhões de brasileiros que ainda aqui @#$%ram engolindo aloprados e mensaleiros. Siga em PAZ!.
      • Pb.José 10 meses atrás
        BONS ESPIRITOS?? MISERICORDIA!!!!
      • marly 10 meses atrás
        Quem necessita de misericórdia é vc.
    • leão do norte  •  10 meses atrás
      político honesto, coisa RARA nos dias de hoje, porque não vai esse Sarney hein???o pior é que vai um honesto e deixa poucos seguidores , morre um corrupto e deixa uma ninhada maior que de aranha, oh Brasil sem jeito, me lembrei do filme auto da compadecida. Itamar agora esta tranquilo, descanse em paz!!!
    • Um usuário do Yahoo!  •  10 meses atrás
      AGRADEÇO O PRESIDENTE YTAMAR, PELO PLANO REAL, Q FOI O MELHOR DE TODOS OS PLANOS,,,DESCANSE EM PAZ!
      • Edu 10 meses atrás
        O plano era do Color ( Ministra Zelía quem aplicou) e era uma cópia do plano aplicado na Alemanha depois da segunda guerra. Até os valores são os mesmo.
    • Leonardo  •  10 meses atrás
      Como professor de História e Ciência Política , devo resaltar que Itamar Franco , foi um político historicamente honesto . Um democarta nato , um cidadão pleno e um homem admiravél .
      Itamar franco deixa a vida e entra para os livros .
      Em todas as obras em que forem citados ; o Plano Real , O fim da Super inflação , Aretomada dafabricação do Fusca e da Kombi , a volta da classe média , o processo de redemocartização do Brasil .

      Unico , esse é o sinonimo dedicado a Itamar Franco , que honrou seu adjetivo patrio.
    • Eduardo  •  10 meses atrás
      gostei muito do governo que ele fez infelismente chegou muito tarde ao governo federal que deus coloque em um bom lugar meus sentimentos aos familiares
    • Cristiane  •  10 meses atrás
      "Descanse em paz!!!"
    • André Luiz  •  10 meses atrás
      Tristeza que transborda aos olhos...
      • Eloisa 10 meses atrás
        AOS SEUS NE
    • Zé Duarte  •  10 meses atrás
      BOM PRESIDENTE E BOM CONQUISTADOR.QUE DEUS O TENHA NA SUA GLO´RIA
    • Roberto  •  10 meses atrás
      valeu Itamar,descanse em paz...
    • MAMADUKE  •  10 meses atrás
      PORQUE NAO MORREU O LULA E A DILMA???
      UMA PENA..................................................
    • wladimir  •  10 meses atrás
      Uma obra importantíssima para Zona da Mata de Minas, o Aeroporto Regional da Zona da Mata, foi idealização do grande homem ITAMA FRANCO. Uma justa homenagem seria, então:
      AEROPORTO INTERNACIONAL PRESIDENTE ITAMAR AUGUSTO CAUTIEIRO FRANCO.
      Obrigado Itamar Franco, quem dera o Brasilsó tivesse políticos como o senhor.
    • Gervásio  •  10 meses atrás
      Graças a Deus iniciei minha consciencia política acompanhando sua disputa policica contra Newton Cordoso que guanhou, feliz ou infelizmente!(?)
    • Kelia  •  10 meses atrás
      que pena.. morre uma grande alma do bem
    • Alexandre Correa  •  10 meses atrás
      VALEU ITAMAR ! ESPERO QUE DE ONDE O SENHOR SETIVER D~E UM POUCO DE LUZ A ESSES POLITICOS .
    • Um usuário do Yahoo!  •  10 meses atrás
      Que encontre o caminho da luz...Pois em vida viveu no meio de cães políticos!
      Que Deus ilumine sua alma e ampare o coração dos parentes!
    • Marcos José  •  10 meses atrás
      Me pareceu que este texto já estava escrito antes da morte de Itamar. Que Deus o acolha!
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