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    Reconciliação palestina: ainda há obstáculos apesar das intenções

    O presidente palestino, Mahmud Abbas, e o chefe do Hamas, Khaled Mechaal, concluíram um acordo para abrir caminho a uma reconciliação, mas restam inúmeros obstáculos a superar, segundo autoridades políticas e especialistas palestinos.

    Os dois assinaram nesta segunda-feira em Doha um acordo que concede a Abbas, chefe da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) e do Fatah, a direção de um governo de transição encarregado de organizar eleições, superando um obstáculo que impedia a reconciliação.

    "Foi um acordo para formar um governo, mas a maior parte das cláusulas do acordo de reconciliação concluído em maio ainda não foi aplicada", ressalta o analista Georges Giacaman.

    "A fusão dos serviços de segurança (entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, governadas respectivamente pelo Fatah e pelo Hamas) ainda não ocorreu e não é possível em razão da ocupação (israelense)", indicou Giacaman, frisando que a questão da OLP, que deve ser reestruturada, também é "importante".

    "O que aconteceu em Doha foi uma declaração de boas intenções e uma etapa, mas o tema da reconciliação é complicado. Não será resolvido rapidamente", prevê.

    A formação do governo provisório deve ser anunciada oficialmente durante uma reunião da OLP, ampliada pelo Hamas e pela Jihad Islâmica, no dia 18 de fevereiro no Cairo, antes das eleições simultâneas para presidente e para o Conselho Legislativo, assim como para o Conselho Nacional Palestino (CNP, Parlamento da OLP), cuja data ainda não foi fixada.

    Segundo Azmi Chuaibi, ex-deputado e delegado da seção palestina da ONG Transparência Internacional, "Abu Mazen (Mahmud Abbas) quer manter o status quo nos próximos meses e ganhar tempo".

    "O Hamas assegurou que, ao aceitar o posto de primeiro-ministro para supervisionar as eleições, Abbas não se candidatará para a próxima eleição presidencial. Isso coloca o Fatah diante de um desafio maior para ele, que é encontrar um sucessor", analisa ele.

    Em uma entrevista divulgada nesta terça pela rede Al-Arabiya, Abbas reafirmou que não solicitará a Presidência da Autoridade Palestina.

    Autoridades do Hamas em Gaza, partidários de uma linha mais dura sobre a reconciliação do que Mechaal, líder no exílio do movimento islamita, manifestaram o seu descontentamento após o acordo concluído no Qatar.

    "O acordo de Doha viola a lei fundamental e passa por cima do Conselho Legislativo", lamentou em um comunicado o vice-presidente da maioria parlamentar do Hamas, Ismail al-Achqar.

    "Este procedimento é contrário à lei fundamental, que foi emendada em 2003, quando o posto de primeiro-ministro foi criado. É preciso então emendar novamente, e modificar os poderes do primeiro-ministro e do presidente, já que são exercidos por apenas uma pessoa", explicou à AFP o vice-presidente do Parlamento palestino, Hassan Khreicheh, deputado independente.

    "O Conselho Legislativo (Parlamento) é uma passagem obrigatória para que a reconciliação seja alcançada e a lei fundamental seja emendada", acrescentou Khreicheh.

    Segundo o cientista político Mustapha Sawaf, que vive em Gaza, ex-chefe de redação do jornal Palestine, ligado ao Hamas, o acordo é "um favor ao emir do Qatar, mas, no final das contas, ficará no papel, sem aplicação concreta".

    "Não é aceitável que Mechaal tome individualmente uma decisão desse nível que não conte com o consenso necessário", lamentou, pedindo ao Hamas que cale os rumores de disputas internas, manifestando abertamente a sua posição.

    Segundo ele, "o Hamas deve refutar o que se disse sobre suas divergências, esclarecendo completamente sua posição e aceitando ou recusando o que Mechaal aceitou".

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