Sex, 03 Jul, 02h36
(São Paulo, BR Press) - Depois de passar pela Flip, o escritor afegão Atiq Rahimi participa da série de encontros promovida pelo Sesc SP e lança seu mais recente livro Syngué Sabour: Pedra-de-paciência, nesta segunda-feira (06/07), às 20h, no Teatro Sesc Anchieta do Sesc Consolação. A entrada é gratuita.
Rahimi participa da série de encontros Caravana dos Autores, promovida como parte das comemorações do Ano da França no Brasil. Na ocasião, acontece o lançamento de seu mais recente trabalho - Syngué Sabour: Pedra-de-paciência, editado no Brasil pela Estação Liberdade (R$ 30,00), no qual descreve o dia-a-dia de uma mulher que cuida do marido em coma, ferido durante a guerra. Esta obra, a primeira que ele escreveu diretamente em francês, conquistou o Prêmio Goncourt de 2008 e consolida o autor afegão como um dos grandes nomes da literatura trans-étnica deste início de século XXI.
"Se tivesse escrito esse livro em persa, teria adotado uma linguagem pudica e praticado a auto-censura. Escrever em francês me permite realmente entrar no interior dos personagens, falar do corpo. Escrever numa outra língua é um prazer. É um pouco como fazer amor", disse o autor ao L'Express. Em persa, syngué significa "pedra" e, sabour, "paciente". Pedra paciente, a pedra-de-paciência. A personagem central vela o marido que vegeta em uma cama com uma bala alojada na cabeça. Os tempos são difíceis, na rua os tanques e as Kalashnikov atiram sem cessar, a guerra civil impera às portas da casa onde a mulher espera por um milagre. Enquanto isso, lentamente a mulher faz jorrarem de dentro de si as recordações há muito escondidas. Passa a narrar ao marido fatos que ele sempre ignorara.
Pedra negra
Como a syngué sabour da mitologia persa, a pedra negra que recebe dos peregrinos suas dores e lamentos, o homem prostrado ouve sua esposa. Ouve a extraordinária confissão da mulher, que segreda-lhe, de maneira inimaginável num país islâmico, tudo o que mantivera para si, soterrado sob uma espessa camada de tradição.
A ideia para a obra surgiu a partir de um episódio em que foi convidado para um evento literário em Cabul por uma amiga, a poeta Nadia Anjuman. Chegando lá, descobriu que a poeta estava morta, por "causas familiares". Investigando, soube que Nadia havia sido espancada até a morte pelo próprio marido, com a conivência da mãe, pois eles discordavam de seu modo de vida.
Conflito e refinamento
A frase que abre o livro "Em algum lugar do Afeganistão ou alhures" já revela a proposta do autor de não particularizar sua obra no âmbito topográfico: é sobre cultura afegã, ou, mais precisamente, sobre a ortodoxia islâmica que o autor se debruça em Syngué Sabour. Não por acaso anônimos, seus personagens fazem irromper as tensões de todo um povo, as mazelas de uma região ressentida de conflitos perenes, sem, no entanto, que se abdique da sutileza e do refinamento do detalhe.
Estilista da linguagem, cuja economia maneja com precisão, Rahimi conduz o leitor entre o lirismo e a contundência, entre o que é velado e o que se escancara, através dos conflitos políticos, religiosos e morais de um país em escombros.
Deportados
Político e engajado, no dia seguinte a seu comunicado de agradecimento pelo prêmio, Rahimi emitiu outro contra a deportação de 50 compatriotas afegãos que seriam embarcados à força de Calais (França), no que teve sucesso, imbuído de nova autoridade como laureado do Goncourt.
Na Caravana dos Autores renomados escritores de língua francesa debatem a literatura francesa e suas influências na produção cultural do mundo francófono, países cuja língua oficial ou dominante é o francês. Destas reflexões surgem desdobramentos relacionados ao mercado editorial na Europa e os diversos sotaques que a língua francesa ganha, resultado do multiculturalismo que caracteriza a contemporaneidade.
De Cabul a Paraty
Rahimi nasceu em Cabul, Afeganistão, em 1962. Estudou no liceu francês local e cursou letras na universidade da capital afegã, trabalhando em seguida como jornalista e frequentando a cena literária e artística local. Durante a guerra, no início da década de 1980, deixou o país rumo ao Paquistão, em jornada de oito dias a pé em pleno inverno. Obteve estatuto de refugiado político na França, onde vive desde 1985.
Doutorou-se em comunicação audiovisual na Sorbonne. Paralelamente à carreira literária, Rahimi dirige e produz filmes documentários e de ficção. Rahimi fez em 2002 uma pequena turnê para o lançamento de Terra e Cinzas no Brasil, passando por São Paulo, Rio e Brasília e obtendo sucesso de crítica e comercial (28 mil exemplares vendidos no total). Em suas visitas ao Brasil, na Bienal do Livro de São Paulo (2002), na Primavera dos Livros do Rio de Janeiro (2004), sempre teve empatia com o público, sentindo-se muito à vontade apesar da barreira linguística.
Em 2004, veio para o lançamento da versão cinematográfica de Terra e Cinzas, filmada por ele mesmo e para a qual foi premiado no Festival de Cannes em 2004, na mostra Um Certo Olhar. Em 2005, publica Retour Imaginaire, livro de fotos e poemas sobre seu reencontro com o Afeganistão.
Retirada de ingressos com uma hora de antecedência.
Sesc Consolação - Rua Dr. Vila Nova, 245; (11) 3234-3000
Média (Not Rated)
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