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Air oxigena o rock progressivo

Ter, 03 Nov, 03h55

Por Regis Tadeu, colunista do Yahoo! Brasil


Se você acha que rock progressivo moderno é aquela maçaroca chatíssima e pretensiosa que o Dream Theater mostra em seus CDs, com suas músicas de 484 minutos de duração, pode parar de ler este texto agora mesmo. Nem passe os olhos pelo parágrafo seguinte. Vá "babar ovo" para o virtuosismo estéril da banda do Mike Portnoy e não perca seu tempo comigo.

Ok, se você continuou a ler o que estou escrevendo, ou é um cara curioso ou realmente está interessado em música e não em masturbação técnica exibicionista. Então, saiba que não sou daquele tipo de cara que execra o rock progressivo como se o estilo fosse algum tipo de lepra assassina. Muito pelo contrário! Por ter crescido ao longo de um período em que grandes álbuns foram lançados - "In the Court of Crimson King", do King Crimson; "Selling England by the Pound", do Genesis; "Fragile", do Yes; "Trilogy", do Emerson, Lake & Palmer; "The Power and the Glory", do Gentle Giant, "Hamburger Concerto", do Focus, e, claro, "The Dark Side of the Moon", do Pink Floyd, entre tantos outros -, ainda ouço inúmeros trabalhos de bandas daquela época com o mesmo prazer de outrora.

Por outro lado, tenho o bom senso em admitir que poucas coisas são tão patéticas quanto ver e ouvir grupos hoje em dia tocando longas e pseudopomposas suítes de "trocentos" minutos, divididas em 129 partes, contando a história de ninfas perdidas no vale dos orcs e outras baboseiras do tipo. Mesmo grandes músicos oriundos dos primórdios do rock progressivo não souberam se adaptar aos novos tempos e cometeram bobagens babilônicas. Quem não se lembra do insuportável Asia, com Steve Howe (então ex-Yes), John Wetton (ex-King Crimson, ex-Uriah Heep) e Carl Palmer (ex-ELP), ou do intragável GTR, com o mesmo Howe e mais Steve Hackett, ex-Genesis. E ainda tínhamos que agüentar bandas picaretas como Marillion e mais um monte de oportunistas tentando faturar uns trocados em cima da "viuvez" daqueles fãs "carecas na frente, cabeludos atrás", que acham que nada de bom foi feito na música desde o surgimento do punk rock.

Por isso, qual não foi o meu espanto ao perceber que o rock progressivo está vivo e pulsando nas faixas do novo disco de uma banda que os "mudéeerrrrrnnuuusss" adoram muito mais pelo hype da mídia do que pelas canções em si. Estou me referindo ao Air e ao seu mais recente trabalho, "Love 2" (EMI). Sim, é isso mesmo o que você acabou de ler...

Não sei se foi o fato de terem se autoproduzido pela primeira vez, mas a verdade é que a dupla francesa, formada por Jean-Benoit Dunckel e Nicolas Godin, deixou de lado o experimentalismo esquisito do disco anterior - o bom "Pocket Symphony" - e se concentrou em não exibir canções dominadas pela melancolia. Usando o mesmo baterista - Joey Waronker - com quem tocaram na turnê do ano passado, os dois multiinstrumentistas reuniram uma infinidade de equipamentos antigos - especialmente no setor dos teclados - e transformaram as canções de "Love 2" em manifestos explícitos a respeito de referências sonoras até então camufladas.

A atmosfera e os timbres dos instrumentos fazem com que duas das canções do disco pudessem perfeitamente ter sido incluídas em discos do Pink Floyd - "Heaven's Light" no lado A do "Meddle" (ouça aqui ) e "Do the Joy" no "Obscured by Clouds" -, enquanto "Love" começa com um quase sambinha eletrônico para então misturar a primeira fase do Kraftwerk e a frieza robótica de Laurie Anderson em um mesmo caldeirão, o que acontece também em "Missing the Light of the Day".

A lendária banda de David Gilmour e Roger Waters ainda exerce forte influência em "So Light is Her Footfall", seja pelo lick "chorado" de guitarra, pela psicodelia que permeia toda a canção ou pelos vocais que lembram a maneira como Rick Wright costumava cantar. Em contrapartida, "Be a Bee" e "Eat My Beat" parecem ter sido elaboradas como parte de uma trilha sonora de um filme com temática lisérgica, só que dirigido por Quentin Tarantino, como se fosse um amálgama formado pela união do A Flock of Seagulls com os alemães do Eloy.

A sofisticação harmônica/melódica mostrada nas doces "Heaven's Light" e "You Can Tell It to Everybody", e na espacial "Night Hunter" oferecem sinais ainda mais inequívocos do apreço com que Dunckel e Godin tratam de reverenciar seu passado "progressivo", injetando nas referidas canções timbres e frases tão curtas quanto belas, como se fossem pingos de tinta essenciais para se visualizar uma enorme tela. Isso sem contar a delicadeza rocker das belíssimas "African Velvet" e "Sing Sang Sung", esta última com refrão grudento como um chiclete de piche.

O único momento em que o disco não funciona aparece em "Tropical Disease", quando o duo tropeça na breguice e acaba soando como se o Richard Clayderman tentasse soar como o Thomas Dolby. Sorte que isso não tira o brilho de um disco que, como escrevi no título deste texto, traz uma lufada de oxigênio a um estilo que todos julgavam morto.

É claro que as "viúvas do Peter Gabriel" não vão ouvir nada de progressivo em "Love 2". Para esse tipo de gente, o Air é "uma bandinha eletrônica para gays moderninhos". Agora, se você também pensa desta forma, só tenho a lamentar a sua estupidez...

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