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Quase criança ou quase adulto?

Ter, 03 Nov, 12h29

Por Ana Paula Galli, especial para o Yahoo! Brasil


De um lado, crianças cada vez mais novas com batom e saltinho no pé. Do outro, adultos cada vez mais velhos morando na casa dos pais. Pouco comuns anos atrás, atualmente esses cenários se tornaram corriqueiros no dia a dia dos lares brasileiros. "É quase uma materialização do querer ser grande quando se é pequeno e querer voltar a ser pequeno quando se conhece o lado real de ser grande", explica a psicoterapeuta Ana Olmos.



Essa materialização é refletida de várias formas na sociedade. Basta virar a esquina para ver meninas e meninos extremamente vaidosos, com roupas e sapatos da moda. Quase gente grande.


É o caso de Tereza Ortiz. Com a escova de cabelo em uma mão e o batom na outra, ela diz sorridente que o presente de aniversário que mais gostou foi um kit de maquiagem que ganhou ao completar cinco anos, no dia nove de outubro. "Gosto mais do que das bonecas, por que quero ficar bem linda!".



Especialistas afirmam que uma dose de querer ser "gente grande" é saudável, afinal, que criança nunca usou os saltos da mãe e as gravatas do pai? "Os filhos se espelham nos pais e se identificam com o mundo adulto dessa forma, o que é absolutamente natural", conta Ana.



O problema é quando essa vaidade passa a ser tratada não de forma lúdica, mas com seriedade pela criança. "Temos que regrar nossos filhos para que não sofram com as consequências dos excessos de querer ser adulto", explica a psicóloga Diane Levin, da Wheelock College, em Boston (EUA).


Autora do livro, "So sexy, so soon", ainda sem tradução no Brasil, Diane conta que querer ser adulto muito cedo e sem regras pode causar uma sexualização antecipada, o consequente encurtamento da infância e em casos mais graves até doenças típicas de adultos, como depressão e fobias.



Ela atribui aos meios de comunicação a verdadeira causa desse fenômeno, que refletem uma exigência cada vez maior de beleza. "Para a mídia nunca é cedo para ser sexy. E as crianças acabam absorvendo isso sem nenhum filtro. O problema é que antecipar a sexualidade abrevia a infância e isso pode causar uma série de transtornos de fundo emocional a toda uma geração", conta.



Para evitar o surgimento de adultos em miniatura, Diane afirma que pais e professores precisam estar atentos. Conversar mais e punir menos são formas eficientes de alcançar o mundo infantil. De acordo com a autora, também é importante dizer não para os excessos e estimular os filhos com brincadeiras saudáveis e que instiguem a criatividade das crianças.



A mãe de Tereza, Daiane Ortiz, 22 anos, busca fazer exatamente o que a psicóloga norte-americana recomenda. "Quando posso, brinco de boneca e de joguinhos com a Tereza. Nem sempre ela gosta, diz que é chato, que é bobo. Mas eu insisto, converso".



Outro ponto que Daiane faz questão de regrar a filha é em relação aos sapatos. Apesar de ser uma das maiores vontades de Tereza, sandálias de salto ainda não fazem parte do seu guarda-roupa. "No que depender de mim, isso não acontecerá tão cedo. Ela tem é que brincar, correr. Como uma criança pode correr e se divertir com um salto no pé?".




Casa, comida e roupa lavada



Enquanto uns querem crescer antes da hora, outros preferem adiar ao máximo os compromissos da vida adulta. Tempo para investir em estudos ou fazer uma boa poupança são algumas das desculpas mais utilizadas pelos adultos que abrem mão da própria independência para continuar usufruindo da comodidade de viver com os pais.


"Para que sair se aqui eu tenho tudo?", se pergunta Rafael Toporcov, 25 anos, que mora com a família num bairro de classe média alta de São Paulo. Apaixonado por vídeo game e futebol, Rafael tem uma rotina tranquila. Durante a semana se encontra com os amigos em bares, joga bola e faz uma matéria do curso técnico de eventos, entre outras atividades. "Eu já devia ter me formado, mas fiquei de dependência em uma disciplina", explica.



O estudante conta que continua jogando vídeo game, mas agora com menos frequência. "Meu irmão se mudou para morar com a namorada e isso atrapalhou um pouco a rotina de jogos. Ele era meu companheiro de vídeo game". O irmão é Renato Toporcov, funcionário público de 31 anos que também morava com os pais até a semana passada, quando decidiu sair de casa pela primeira vez. "Não me importo, até gosto por que tenho meus filhos por perto. O Rafa pode ficar aqui até a hora que ele quiser e se sentir bem. Aqui é a casa dele", afirma a mãe de Rafael e Renato, a aposentada Vânia Toporcov, 59 anos.



Rafael e Renato não são exceção. A chamada geração canguru está cada vez maior. Essa é a conclusão da tese de mestrado da socióloga Regiane de Carvalho. Estudante da Universidade Federal de Minas Gerais, Regiane decidiu se dedicar ao tema quando percebeu ser uma exceção entre seus colegas de aula. "A maioria tinha mais de 20 anos e ainda morava com os pais, enquanto eu tinha saído de casa aos 18 anos. Isso me motivou a estudar a questão mais a fundo", explica.



Com base nos dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), a pesquisadora descobriu que é cada vez mais tardia a saída dos jovens da casa dos pais, principalmente entre os homens. De acordo com a pesquisa, nos últimos 20 anos a proporção de jovens que moram na casa dos pais subiu de 32,2% para 44% e de 13,7% para 22,2%, entre pessoas com idade de 25 a 29 anos e de 30 a 34 anos.



Para Ana Olmos, a causa desse aumento observado por Regiane pode estar na infantilização da sociedade. Ela afirma que parte da atual geração de jovens é superprotegida pelos pais, que evitam que seus filhos enfrentem dificuldades. "O problema é que o ser humano só amadurece enfrentando conflitos. E fica difícil arriscar se a pessoa não tem nenhuma autonomia", explica.



Para a psicoterapeuta, o lar pode ajudar tanto quanto pode atrapalhar. "Tudo começa em casa. Nem mimo nem superproteção. É preciso equilíbrio. Esse é o segredo para as relações familiares bem sucedidas", conclui.


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