Seg, 05 Jan, 12h45
Silvio Luz/Especial para BR Press
(São Paulo, BR Press) Formada há cinco anos, a trupe O Teatro Mágico já trilhou um caminho marcante na cena independente. Com uma ampla rede montada, os integrantes do grupo saíram pelo país apresentando um grande sarau: os shows misturam teatro, circo, música e poesia. O público não fica de fora e participa também, numa obra coletiva onde a linha que separa artistas e platéia é tênue.
O ator, músico e compositor Fernando Anitelli, líder da trupe, lançou o primeiro disco em 2003 com o nome O Teatro Mágico: Entrada para Raros, retirado do best-seller O Lobo da Estepe, do escritor alemão Hermann Hesse. De lá para cá, o grupo não se separou mais e preparou o segundo disco, O Teatro Mágico: Segundo Ato, em abril de 2008. Resultado: depois de quatro anos de existência, o grupo já havia vendido 85 mil CDs, exclusivamente durante os shows e também pela internet, importante ferramenta de divulgação da trupe.
Na entrevista a seguir, Anitelli fala sobre as dores e as delícias do mercado musical independente, do público fiel, das expectativas para 2009, entre outros assuntos. Confira:
Como é fazer música independente hoje no Brasil? A cada novo CD ou show é uma luta?
Fernando Anitelli - Sim. É sempre uma luta, pois não há segurança financeira e nem certeza de divulgação na grande mídia. Tudo o que conseguimos é porque lutamos muito para alcançar. Hoje, com cinco anos de estrada, temos ao nosso lado a vantagem de ter um público fiel que representa uma extensão da trupe, seja mandando e-mails para as rádios pedindo a nossa música, seja indo nas apresentações em tudo quanto é lugar, seja pirateando o CD para mostrar pra mais pessoas ou apenas deixando mensagens positivas em nosso site. O público é o nosso maior aliado e é com ele que mantemos o rabo preso.
Unir teatro, música, poesia e circo num mesmo espetáculo, característica do TM, já é suficiente ou ainda querem explorar outras artes e amplificar as idéias para os shows-saraus?
Fernando Anitelli - Sempre têm novas formas de arte surgindo e queremos englobar cada uma delas em nosso espetáculo. Exploramos pouco a dança, por exemplo, que é algo bem bacana. Também pensamos em inserir audiovisual e trabalhar mais com projeções em telão nos shows.
Em 2008, a trupe completou cinco anos de existência produzindo arte independente. Quais são as principais conquistas e desafios do momento?
Fernando Anitelli - A grande conquista desses cinco anos é o público que construímos em todo o Brasil. Shows lotados em Recife, Aracaju, Brasília, Campo Grande, Corumbá, Palmas, Goiânia, Rio de Janeiro, Curitiba, Belo Horizonte... Em todo lugar que a gente chega tem uma turma lá que curte, que divulga, que sustenta esse 'boca-a-boca' fabuloso que nos mantém de pé, que nos fortalece. O segundo CD teve mais de um milhão de downloads pelo site da Trama Virtual, em apenas cinco dias. Isso foi um grande feito. Em 2008, lançamos nosso primeiro DVD oficial, Entrada Para Raros. Fomos convidados a ir ao programa Altas Horas e tivemos uma boa repercussão a partir disso. Batemos recorde na Virada Cultural com mais de 40 mil pessoas assistindo ao nosso show em São Paulo. Participamos da Bienal Internacional do Livro em Fortaleza. Tivemos a presença da senadora Marina Silva em show no Rio de Janeiro, onde prestamos uma singela homenagem aos 20 anos de morte de Chico Mendes. Enfim, foram muitas conquistas. Estamos felizes com o caminhar que O Teatro Mágico tem nos proporcionado.
Como foi o show no Morumbi Hall, no dia 13 de dezembro, quando o Teatro Mágico comemorou os seus cinco anos?
Fernando Anitelli - Foi um show cheio de magia. Fechamos 2008 com chave de ouro. No palco, muita gente marcou presença, como o músico Sallum, com sua cítara, o ator Vinicius Piedade, que manteve o clima "pra cima" recitando um texto pra lá de bem humorado, e o multiartista Ivan Parente brilhou em cena com sua voz ímpar. E não parou por aí: no tecido, Gabi Veiga fez um número duplo com sua mestra, a artista circense Tun, e deixou ainda mais belo o balé aéreo durante a canção Fé Solúvel. E pra fechar com chave de ouro, a cantora Nô Stopa marcou presença juntando-se à trupe nesta grande festa, interpretando as canções Na Varanda e Folia no Quarto. Depois do show, a trupe entrou de férias e só volta à ativa depois do dia 20 de janeiro de 2009. Precisamos recuperar o fôlego.
O Teatro Mágico é um grupo de amigos que resolveu se reunir para fazer arte. Além de alimentar a alma, o grupo acredita que a arte poderá alimentá-lo fisicamente também?
Fernando Anitelli - A companhia artística O Teatro Mágico acredita na arte como forma de saúde física e mental. É nisso que depositamos nosso empenho.
Se o Teatro Mágico fosse patrocinado por grandes empresas ou estivesse ligado a uma gravadora, teria a mesma liberdade que tem hoje? O que vale mais: a liberdade artística ou o sucesso?
Fernando Anitelli - Liberdade artística ou sucesso? Acho que nós já respondemos esta pergunta com nossas atitudes e com a escolha que fizemos. A maior parte das gravadoras tenta "direcionar" o artista para um lado ou para outro e acaba por tirar parte da liberdade de criação e execução do trabalho. Têm algumas que são mais maleáveis. Simpatizamos com o trabalho que a Trama tem feito dentro desse mercado. No entanto, seguimos nossa trilha de forma independente contando com eles apenas como parceiros.
A agenda de shows do TM só retorna no fim de janeiro. O que planejam para 2009?
Fernando Anitelli - Retornaremos em 2009 com alguns shows no litoral de São Paulo. A agenda ainda não está 100% definida. Vamos desbravar cidades que ainda não tiveram a chance de ver o nosso espetáculo ao vivo. Cidades como Viçosa, Passos, Cuiabá, Foz do Iguaçu, Pelotas, Belém, entre outras, já estão em nossos planos. A vantagem de ser independente é poder traçar suas próprias rotas, com todos os tropeços e dissabores pelo caminho, mas também com todo o carinho e apoio de centenas de pessoas que conhecem e apóiam nossa luta e nossa arte.
Em tempo: o grupo está de férias, mas postou um vídeo especial sobre as conquistas de 2008 no site oficial (www.oteatromagico.mus.br).
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