Seg, 05 Out, 01h58
Por Regis Tadeu, colunista do Yahoo! Brasil
Hoje, eu tinha me preparado para tecer alguns comentários a respeito de um assunto interessante, mas existe um negócio no jornalismo que se chama "pauta fria", que é aquele tema que pode ser publicado a qualquer momento dentro de um longo espaço de tempo - as matérias de saúde que estampam as capas das revistas semanais são um exemplo disso. Em contrapartida, existem as "pautas quentes", aquelas que devem ser publicadas o quanto antes para não "envelhecerem"...
Como a minha pauta é "fria", optei por colocar uma pauta "quente", que é o relato de uma já conhecida de vocês - Monaliza Souza -, que mandou para mim um relato do show do U2, da novíssima turnê, que ela assistiu em Nova Iorque. Coloquei uns vídeos para ilustrar as impressões de minha querida amiga a respeito desse espetáculo grandioso, que... Ah, deixemos que a própria Monaliza nos conte como foi o lance...
"Mesmo quebrando recordes de público no Giants Stadium e impressionando a todos com a grandeza de seu "palco 360 graus", é notável que a turnê de No Line on the Horizon não tenha o mesmo poder hipnotizante que as duas turnês anteriores apresentavam - a do "coração" e a "Vertigo" -, que apresentavam, respectivamente, os discos All That You Can't Leave Behind e How to Dismantle an Atomic Bomb. Ambas tinham palcos menores e um pouco mais intimistas, e os setlists também pareciam mais poderosos, com canções mais rock and roll do que agora.
Parece inegável também que Bono - principalmente ele - não tem mais a mesma energia de antes no palco. O tamanho gigantesco da "estrutura espacial" do novo palco parece mesmo um desafio para a banda. Os integrantes inevitavelmente ficam mais separados e, para dar conta de se comunicar com o público que está por todos os lados, Bono tem que percorrer o palco inteiro, o que significa cruzar as pontes e dar a volta completa no anel exterior, o que parece ser exaustivo.
Mas seria mesmo pouco classificar uma apresentação desse porte apenas como show. O que o U2 apresentou nessas duas noites novaiorquinas foi, na verdade, um espetáculo que vai muito além da música. Junto com o palco gigante, com a plataforma central giratória - onde está a bateria de Larry Müllen Jr -, os telões de altíssima definição transmitem imagens feitas a partir de uma estação espacial. Os efeitos de palco são realmente de tirar o fôlego.
E é mesmo o espaço o tema central do show. A música que antecede à apresentação - o U2 sempre escolhe uma canção de outra banda para isso - é "Space Oddity", de David Bowie, o que cria um tremendo clima para o início. E a música de encerramento, aquela que toca depois que o grupo sai definitivamente do palco, é a não menos clássica "Rocket Man", de Elton John.
A noite de 23 de setembro, aliás, foi de homenagens. Na sexta canção do show, Bono arranca gritos dos nativos de New Jersey ao lembrar que era o dia do aniversário de Bruce Springsteen, dedicando ao "The Boss" uma improvisada versão de "She's the One", que a banda não da conta de terminar, emendando em "Desire" (Veja aqui). Mas a homenagem é sincera e Bono se desculpa pela improvisação, dizendo com muito respeito que Bruce está fazendo 60 anos e que, por isso, a noite era ainda mais especial.
"Elevation" deu continuidade ao show (Veja aqui) e tenha a noção do tamanho do palco) e parecia que ele finalmente iria decolar, mas... Isso não aconteceu. As músicas pareciam estar mais lentas e o público não respondeu com muita energia. Uma versão disco de "I'll Go Crazy If I Don't Go Crazy Tonight" deixou ainda mais claro que este não é um show do U2 com a mesma forca e vitalidade de anos anteriores (Veja aqui).
Bono continua querendo salvar o mundo. Falou da África e das 3,5 milhões de crianças salvas no mundo graças à imunização em "One" (Veja aqui), convidou dezenas de voluntários a usarem uma máscara com o rosto de Aung San Suu Kyi (líder eleita de Burma, que nunca pôde assumir sua posição) em "Walk On" (Veja aqui) e ainda percorreu o palco de mãos dadas com um garotinho em "Where the Streets Have No Name" (Veja aqui). A megalomania já vista outrora no palco de Pop Mart Tour cedeu espaço para algo não menos grandioso, mas um pouco mais real, embora a banda lance mão ainda de efeitos pirotécnicos na roupa e nos equipamentos - Bono usou uma jaqueta com leds e cantou em um microfone iluminado em "Ultraviolet" (Veja aqui).
Exagerado, megalomaníaco, mais lento do que se esperava. Nada disso, porém, fez do show do U2 no Giants Stadium um espetáculo dispensável de se ver. É, de fato, uma das maiores bandas do mundo. E contra fatos não há argumentos - o show de 24 de setembro quebrou um recorde de mais de 84 mil pessoas no mesmo local, que pertencia ao Papa João Paulo II em sua visita de 1995. Não foi coincidência a banda encerrar o show com "Moment of Surrender"."
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