Sex, 06 Nov, 01h08
Uma visão popular entre analistas econômicos e apostadores na alta é que "quanto mais profunda a recessão, mais rápida a recuperação". Eles estão certos, até um ponto: logo após uma recessão normal, as economias com frequência crescem mais depressa que o normal nos 12 meses seguintes. Infelizmente, a Grande Recessão de 2008-2009 está longe de ser uma recessão global normal.
A Grande Recessão foi turbinada por uma crise financeira, o que faz dela um caso muito mais insidioso, com efeitos muito mais duradouros. Como Carmen Reinhart e eu argumentamos em nosso livro This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly (Desta vez é diferente: oito séculos de loucura financeira), a Grande Recessão é mais bem definida como "A Grande Contração", dada a contração maciça e simultânea de crédito, comércio e crescimento que o mundo experimentou.
Felizmente, apesar de uma recuperação capenga no mundo desenvolvido, mercados emergentes na Ásia, América Latina e Oriente Médio têm enorme potencial de crescimento. A maioria deve conseguir um forte crescimento, apesar do ambiente global desafiador.
Entretanto, o legado da enorme contração no crédito não vai acabar tão cedo. Sim, se você for um grande banco, poderá levantar dinheiro facilmente graças às generosas garantias governamentais explícitas ou implícitas. Mas, para os demais, particularmente empresas de pequeno e médio portes, o ambiente de crédito continua desafiador. Até empresas em setores estabelecidos, como de energia, reportam grandes dificuldades de levantar capital.
Os otimistas dizem para ninguém se preocupar. O crédito logo chegará para todos com a mesma facilidade com que está chegando aos bancos. Afinal, o crédito também secou na recessão global de 1991, mas os recursos estavam fluindo 18 meses depois.
Mas esse paralelo não reconhece o fato de que os balanços continuam bem mais danificados desta vez. Os preços das casas estão temporariamente elevados por uma enormidade de subsídios, enquanto há um tsunami nos imóveis comerciais. Muitas fraquezas de bancos estão sendo mascaradas por garantias governamentais.
Aliás, os governos do G-20 agora enfrentam a perspectiva de tentar conter o monstro que criaram. Já está claro que o contribuinte sempre estará lá para garantir que os detentores de bônus sejam pagos. Sem fiscalização, as grandes empresas financeiras conseguirão explorar os mercados de bônus nas próximas décadas com taxas pouco acima das que o governo paga, independentemente do risco de suas posições patrimoniais. Os emprestadores a bancos não se preocuparão com os tipos de jogadas e investimentos que as instituições financeiras estão fazendo, ou se a regulamentação é eficaz.
A boa notícia é que a maioria dos governos vê a necessidade de implementar uma nova regulamentação para empresas financeiras. Mas há um porém: essa regulamentação é complexa, ainda mais porque é preciso um certo grau de consistência internacional. Seria um desastre se os países se apressassem em implementar individualmente seus novos sistemas.
Por outro lado, se os reguladores derem tempo para "fazer a coisa certa", haverá uma enorme sombra de incerteza sobre o sistema financeiro. Os bancos sabem que enfrentarão requisitos de capital mais altos, o que os obrigará a diminuir a proporção dos empréstimos em relação a seus recursos. Mas quanto mais alto? Há muita discussão sobre desmembrar bancos que são grandes demais para quebrar. Mas o que realmente se passará? Com esse ambiente, não espanta que o crédito ainda esteja se contraindo nos Estados Unidos, na Europa e alhures. Se os bancos não sabem quais as regras do jogo, eles precisam ser cautelosos com um sobrecarga nos balanços.
Com isso, os reguladores do governo - e, em última instância, todos nós -, estão entre a cruz e a espada. Regular às pressas, arrepender-se com calma. Uma regulamentação rígida pode prejudicar o crescimento global por décadas. Mas, se for muito branda, a próxima crise poderá ocorrer em uma década. E, mesmo que os reguladores tomem seu tempo para tentar fazer a coisa certa, como a maioria acha que deveriam, o mundo pode ter de conviver com uma expansão fraca do crédito enquanto os bancos se refreiam, esperando um veredicto mais claro sobre o seu futuro.
Muitas vezes me perguntam por que as economias entram nesses apuros. Infelizmente, como Reinhart e eu documentamos para centenas de crises financeiras, cobrindo 66 países e 8 séculos, a resposta é simples: arrogância e ignorância. Investidores e autoridades econômicas ignoram as experiências históricas com crises financeiras. E os poucos que são informados do que aconteceu em outros tempos e outros lugares dizem: "Não se preocupem, desta vez é diferente". As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.
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