Seg, 08 Jun, 03h15
Por Regis Tadeu, colunista do Yahoo! Brasil
Quando surgiu a notícia de que a gravadora Sony iria lançar uma série chamada "Meu Primeiro Disco", contendo o primeiro LP de um determinado artista - é isso mesmo, um LP em vinil, lembra disso? -, em edições limitadas a duas mil cópias de cada álbum, com som remasterizado e um CD, com faixas extras e um novo projeto gráfico, ficou claro que a multinacional pegou carona no suposto "retorno" desse tipo de... ahn... "produto", assunto que vem sendo exaustivamente debatida em matéria nos cadernos culturais dos mais importantes jornais do país e até mesmo em reportagens especiais nas TVs. É claro que a maioria das matérias foi feita por gente "fora do ramo", que muitas vezes nem era nascida na época do auge dos LPs, e que não tem a menor ideia da existência de um mercado underground de discos de vinil nos dias de hoje.
Independente de ser ou não uma estratégia equivocada - o mercado de LPs se restringe somente a alguns saudosistas (nos quais eu mesmo me incluo), que consideram o som analógico dos vinis melhor do que aqueles registrados digitalmente em CDs -, a iniciativa pelo menos revelava a disposição da Sony em sacudir o marasmo de suas vendas, já que nem mesmo o CD é visto como um produto desejável nos dias de hoje, principalmente pelo alto preço cobrado nas lojas. Só que a julgar pelo primeiro pacote anunciado pela gravadora, já podemos esperar que o lance está fadado ao naufrágio...
Escrevo isso não porque esteja bancando o papel de "corvo do mau agouro", e sim porque é inacreditável que os executivos da Sony pensem que o consumidor vai desembolsar mais de R$ 80 para comprar um "lançamento" que pode ser encontrado a R$ 1 em qualquer sebo de qualquer cidade. Para piorar ainda mais, nem mesmo a promessa de lançar trinta álbuns de diferentes artistas de seu elenco, incluindo os arquivos da RCA, que foram incorporados quando o grupo se uniu com a BMG, vai fazer com que a Sony tire o seu departamento de vendas da lama. Por quê? Eu já explico.
As pessoas politicamente corretas - uma manada bovina de gente disposta a engolir qualquer coisa em nome da "liberdade de escolha" - certamente não vão levantar a voz contra aquilo que eu chamo de "verdadeiro desperdício de oportunidade", mas é inadmissível que, logo de cara, o primeiro lote inclua itens absurdos, como os primeiros discos do - pasmem! - Inimigos do Rei (Inimigos do Rei, de 1986), Vinicius Cantuária (Vinicius Cantuária, de 1982) e Engenheiros do Hawaii (Longe Demais das Capitais, de 1986), três verdadeiras "bombas" em termos de qualidade artística. E a gravadora ainda ameaça lançar as primeiras "obras" de Maria Bethânia, Skank, Fagner e mais uma dezena de outras barbaridades! Até pode-se dar um desconto pela inclusão dos primeiros LPs de João Bosco (João Bosco, de 1973) e Chico Science & Nação Zumbi (Da Lama ao Caos, de 1994), mas, que diabos, não seria o ideal a gravadora pinçar os discos mais significativos da carreira desse pessoal? Qualquer Zé mané que conheça minimamente o mercado musical brasileiro apostaria no lançamento de discos importantes e relevantes desses artistas, mas como esse tipo de gente é coisa rara dentro dos escritórios luxuosos e refrigerados dos executivos das gravadoras, a coisa vai continuar indo de mal a pior.
Ah! E para dar um toque ainda mais bizarro, o rótulo do disco dos Engenheiros do Hawaii foi trocado com o dos Inimigos do Rei, ou seja, os discos foram embalados nas capas erradas!!! E isso custa mais de R$ 80!!! Me segura que eu vou ter um troço...
É inacreditável continuar a ver a indústria do disco correndo em total descompasso com a realidade. Depois esse pessoal fica reclamando que as pessoas não querem mais desembolsar uma grana para comprar música.
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