Qui, 24 Jul, 11h37
SÃO PAULO - A taxa básica de juro brasileira foi elevada em 75 pontos-base na noite da última quarta-feira (23), atingindo, com isso, o patamar de 13,00% ao ano. A decisão do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) destoou da aposta majoritária do mercado, todavia, não pode ser considerada também como uma surpresa.
"A decisão do Banco Central de intensificar o ritmo de elevação da taxa Selic, embora tenha contrariado a nossa projeção e a expectativa preponderante nos mercados, não chegou a causar surpresas", afirma a equipe da LCA Consultores, que assim como os analistas da Spinelli Corretora e do Santander, previam um aperto de 50 pontos-base no juro.
Entendendo os fatores
Na leitura da Itaú Corretora, a piora do quadro inflacionário corrente e o persistente fortalecimento do mercado de trabalho brasileiro - que neste ano, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgados na última quarta-feira, marcou a menor taxa de desemprego da história dos meses de junho - sustentaram o maior arrocho monetário por parte do colegiado.
Em leitura similar, para a LCA, não faltam argumentos que justifiquem a decisão mais conservadora por parte do Copom, entre eles, a intensificação das pressões de custos no ambiente internacional e a deterioração adicional das expectativas para a inflação, com a mediana das projeções do mercado para o IPCA em 2008 superando o teto da meta estabelecida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional).
Ademais, na visão da LCA, a desaceleração na atividade econômica doméstica estaria ocorrendo a passos muito pequenos e demorados, sendo assim insuficiente para descomprimir a utilização elevada dos fatores de produção. De fato, a Ativa Corretora observa que o volume de vendas e a produção industrial, que cresceram significativamente por todo o ano passado e este ano, começam a dar sinais de acomodação, que, no entanto, não podem ser interpretados como indícios de uma desaceleração.
Projeções difusas
Entender o que levou a autoridade monetária brasileira a intensificar seu ritmo de elevações na taxa Selic é fundamental na medida em que pode lançar pistas quanto ao rumo do juro básico do País. E nesse sentido, para os analistas do Santander, apenas a divulgação da ata da reunião, agendada para a próxima quarta-feira, poderá esclarecer de maneira mais expressiva a visão do BC.
Não obstante, a equipe do banco acredita que uma redução do aperto monetário na próxima reunião de 8 e 9 de setembro seja altamente improvável, e desta forma, uma nova elevação de pelo menos 75 pontos-base é praticamente certa. Já a LCA prefere se manter mais cautelosa, vendo uma "dispersão das expectativas quanto à velocidade e à extensão do ajuste em curso".
Para o médio prazo, isto é, visando as reuniões do colegiado agendadas para outubro e dezembro, os analistas do Santander se vêem em meio a um dilema. De um lado, as defasagens da política monetária tornam improvável que o ciclo de aumentos no juro iniciado em abril surta efeitos concretos antes de 2009. Com isso, "sentimos que o Banco Central poderá ter dificuldades em justificar uma redução do aperto" afirma a equipe.
Em contrapartida, se a taxa Selic continuar sendo elevada em 75 pontos-base até o final do ano, o Santander acredita que "podemos ter considerável risco negativo para o crescimento da economia em 2009", com a expansão do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro no ano que vem podendo ficar abaixo de 3,5%.
Impactos sobre ações e câmbio
De qualquer forma, alterações no cenário de juros não se restringem à esfera macroeconômica. Suas implicações sobre os mercados são, de certa forma, conhecidas, dada a instabilidade da política monetária brasileira. De modo geral, Selic mais alta tende a ter efeito negativo sobre a performance das ações.
Mas na visão da Corretora Spinelli, a decisão tomada na última quarta-feira demonstra que a "autoridade está disposta a utilizar os instrumentos necessários para trazer a inflação de volta para o centro da meta. Assim, acreditamos que a reação do mercado será positiva". Quanto ao mercado cambial, a previsão é de mais desvalorização do dólar.
De acordo com a leitura do Santander, o diferencial já elevado entre a taxa Selic e o juro norte-americano propicia o fortalecimento da moeda brasileira. E com perspectivas de continuidade do aperto monetário, tal trajetória seria ainda mais motivada. Com isso, o banco acredita que o dólar poderá romper o seu atual suporte de R$ 1,58. No mesmo sentido, mas em uma visão um pouco mais ousada, os analistas do UBS vêem a divisa norte-americana operando abaixo de R$ 1,55.
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