BR Press

Balangandãs e muita irreverrência

Sex, 15 Mai, 05h45

Silvio Luz/Especial para BR Press

(BR Press) - Um bambolê gira em torno de seu corpo delicado, na altura da cintura, enquanto o número cheio de graça e originalidade começa a ser executado: um pedaço de seda é retirado do sutiã, e o fumo e o isqueiro de debaixo do vestido, enquanto ostenta nos cabelos volumosos um balangandã ou simplesmente uma flor nada discreta. Depois de muitas palmas, ela pergunta: "Alguém aí quer este cigarrinho de orégano?". Esta é Silvia Machete.

A cantora carioca une música com irreverência e acrobacia, desembocando como um mar em fúria numa autenticidade que só tem aqueles que nasceram para brilhar. O número do bambolê e do cigarro - que provoca maior surpresa ao vivo do que a simples descrição acima - é o ponto alto do show que tem rodado o Brasil.

O primeiro disco de Silvia Machete, que morou durante muitos anos em Nova York e se apresentou em diversos lugares da Europa, foi lançado em 2007. Bomb of Love recebeu o subtítulo curioso de Música Safada para Corações Românticos - que sintetiza o estilo da cantora.

Na rua

O brilho natural, originalidade e carisma são heranças da época em que trabalhava com teatro de rua, quando aprendeu a perceber nos olhares e gestos dos transeuntes o segredo do humor que sobe ao palco sempre quando vai mostrar sua música. Música esta que é interpretada em inglês e português, num estilo próprio e denso, com sua voz despreocupada e serena, de quem só quer ser feliz cantando.

Um pouco da performance e presença marcante de Silvia pode ser conferido no DVD Não Sou Nenhuma Santa, lançado no ano passado. Além das composições autorais, a compositora-cantora-acrobata-atriz também faz releituras em seus shows, como Girls Just Wanna Have Fun, de Cindy Lauper, e Sweet Child O´ Mine, do Guns N´ Roses.

O humor e a personalidade ímpares de Silvia Machete estão presentes nas linhas e entrelinhas da entrevista exclusiva abaixo. Confira:

Se você pudesse rotular a sua música, que rótulo daria?

Silvia Machete - Acho que definiria como música de alta qualidade, com um plus a mais, que é a performance durante os shows. A minha música é internacional, é para todo mundo. É entretenimento e é musica pop de boa qualidade. Nas minhas apresentações, além de canções autorais, também toco músicas de outros cantores, sobretudo de Erasmo Carlos, e também releituras, como a que faço de Girls Just Wanna Have Fun, da Cindy Lauper.

De onde você tirou esta presença de palco, esta alegria, esta desfaçatez, este humor com o qual se apresenta?

Silvia Machete - Trabalhei com comédia em teatro de rua na Europa e nos Estados Unidos, e, naturalmente, eu trouxe isso para a minha música. O fato de ter morado muitos anos fora e vivenciado essa experiência de lidar com situações diversas na rua está ajudando muito na minha carreira, então resolvi incluir este talento no que eu faço hoje. É legal porque o público sempre se identifica de alguma forma, seja com a música ou com as performances. É sempre bom estar conquistando mais pessoas.

Você já se apresentou em vários lugares do mundo. Qual a melhor recepção de público? Todos sempre puxam a sardinha para o público brasileiro, falando que é o melhor etc. É balela ou somos melhores mesmo?

Silvia Machete - O público brasileiro realmente é diferente, muito caloroso e que ama as coisas novas. Sou suspeita para falar, mas é um público muito especial. Agora eu voltei de vez para o Rio e pretendo ficar por aqui por muito tempo. O Brasil é o melhor lugar do mundo para se construir uma carreira.

Qual sua opinião a respeito da nova safra de cantoras brasileiras? Quantidade é qualidade?

Silvia Machete - Muita gente ainda precisa se encontrar e definir o próprio som. Hoje, as cantoras são contidas e elegantes demais, e sem personalidade. Algumas pessoas reacionárias acham absurdo o que produzo e como me apresento. Se eu não for autêntica, serei apenas mais uma cantora. Isso está em mim e não tem como eu me desgrudar disso. A roupa, a maquiagem, o cabelo, é tudo eu que faço, desde a época que trabalhava com teatro de rua. Mas apesar de tudo, eu fui muito bem recebida aqui no Brasil, mais até do que eu imaginava.

O DVD Não Sou Nenhuma Santa é uma síntese do que você é como cantora acrobata e como mulher?

Silvia Machete - Eu amadureci muito nos últimos anos, com isso de divertir e fazer as pessoas rirem. O nome do DVD vem da música Toda Bêbada Canta, e foi o melhor nome que encontrei. Com o amadurecimento, eu passei a separar cada vez mais a cantora Silvia Machete de mim. Lá no palco ela é uma e eu sou outra. A Silvia não tem namorado, eu tenho. A Silvia se comporta mal e eu já sou bem tranquilaça no meu dia a dia.

Como surgiu a idéia de brincar com o ´cigarrinho de orégano´ em suas apresentações?

Silvia Machete - Este número foi idealizado porque eu sempre fazia acrobacias com muitos bambolês, e, de repente, eu tive a idéia de fazer com um só. E logo pensei no lance do cigarro. Eu acho que nunca mais vou ter uma idéia tão boa (risos). É um dos números preferidos do público. Em relação ao fumo, a questão é bem relativa: lá fora, todo mundo enrola fumo de cigarro, e aqui isso é mais visto com o cigarro de maconha. Já chegaram até a perguntar se eu ponho maconha na seda durante a apresentação, mas não tem nada disso, é tabaco mesmo. As pessoas olham do jeito que quiserem. O que eu faço é arte e não dou espaço para aqueles que queiram usar este número específico contra mim. O legal é que fumantes e não-fumantes se divertem com o número, todos gostam. A comédia é bacana, porque transporta as pessoas, e é isso que eu gosto em um show: sempre quero ser transportada.

Algumas canções de Silvia Machete podem ser ouvidas no MySpace.

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