Qua, 18 Nov, 12h35
Dr. Alessandro Loiola*/Especial para BR Press
(BR Press) - Abro o e-mail e surge uma propaganda de This Is It, o novo filme do Michael Jackson. Novo filme? Opa! Mas ele não tinha morrido? E desde quando uma mortezinha à toa impede alguma coisa na indústria do entretenimento? Que o diga o Sr. Heath Ledger, o coringa na manga do Batman. O show não pode parar e é preciso continuar fazendo dinheiro. Daí o filme póstumo.
E antecipando e seguindo ao filme, fóruns e mais fóruns na internet louvando Santo Jackson, um "grande humanista e idealista", como cheguei a ler. A interpretação beatificante da vida de celebridades é um fenômeno comum no período imediato após seu falecimento, e apenas anos e anos depois teremos a lucidez necessária para interpretar o que realmente ocorreu.
Que Jackson foi um grande artista, um artista genial, isso nem se contesta. Mas humanista idealista? Hum... Aí é forçar um pouco. Michael comprou o esqueleto do Homem Elefante e, pela evolução de suas fotos nas últimas décadas, talvez estivesse utilizando-o como molde ou espelho.
Nos anos 1980-90, adquiriu os direitos das músicas dos Beatles e passou a viver como Lucy in the Sky with Diamonds, sacudindo bebês em sacadas de hotel, quando deveria estar escutando mais Nowhere Man.
Preto no branco
Mas acima de tudo, em muitas ocasiões, Sr. Jackson atacava o preconceito contra afro-descendentes (tudo bem, em We Are the World e em Black or White ele até tentou expandir o conceito para outras tribos, mas basicamente era isso mesmo: a discriminação contra a raça negra).
Todavia, paradoxalmente ao discurso, Jackson-branco só teve esposas brancas, filhos brancos e adorava cultivar a companhia de caucasianos famosos (de Macaulay Culkin a Uri Geller, passando por Brooke Shields, Shirley McClaine, Lizza Minelli, Cher, Paul McCartney e Elizabeth Taylor, entre tantos outros).
No rastro do novo filme de Michael Jackson, vejo com muita tristeza uma ameaça de ressurgimento deste velho discurso sobre raças. A figura dele sempre suscitou esse tipo de debate e acredito que jamais superaremos isso, talvez pelo fato do sentimento preconceituoso ter raízes hereditárias. Explico.
Proteção
Lá no período neolítico, quando éramos pantufas de mamutes e tira-gostos de tigres dentes-de-sabre, pertencer a uma tribo representava uma vantagem evolucionária. A tribo vigiava o perímetro durante seu sono, e lhe oferecia comida e cuidados quando você caía doente. E não fazia isso por puro altruísmo: era a soma do conhecimento dos membros da tribo, muito mais que a soma de seus músculos, que garantia a perpetuação daquela linhagem.
Precisávamos cuidar daqueles que fossem nossa tribo. Mas como identificá-los? A cor da pele ofereceu uma primeira pista. A partir disto, evoluímos em sofisticação e adicionamos outros marcadores da tribo, como tinturas, padrões desenhados na pele e outros adornos no corpo, roupas, gestos, danças, cantos, palavras, idiomas, trejeitos, afinidades, ambições... E a esse caldo de marcadores batizamos de Cultura.
Selvagem genético
A própria idolatria por times de futebol é claramente uma herança do neolítico: no dia daquele jogo decisivo, vestimos as cores de nossa tribo e vamos ao palco do Xingu moderno assistir nossos bravos guerreiros (bravos guerreiros??) chutarem uma bola contra o inimigo. É o selvagem genético dentro de nós afiando as garras.
Esse selvagem não desaparece no dia seguinte ao jogo. Ele se perpetua, geração após geração, querendo mostrar sua superioridade - e a de sua casta - sobre todo o resto. Pelo princípio da seleção natural, temos de sobreviver antes que os outros sobrevivam a nós. Neste sentimento egoísta, fermenta o preconceito.
A discriminação do outro pela sua cor, música, religião, corte de cabelo ou status social é apenas o reflexo do desejo de sobrevivência da identidade de uma tribo. Caminhamos tanto, bilhões e bilhões de anos de evolução do universo, e ainda não conseguimos escapar da programação genética que nos trouxe até aqui.
Vivemos de instintos primários, como um crocodilo ou uma ameba qualquer. O que achamos ser livre-arbítrio, é apenas a liberdade de escolha dentro de padrões limitados e pré-determinados pela tribo.
Mesmo clã
Maravilhoso será o dia em que finalmente compreendermos que somos todos o mesmo clã, confinado neste frágil pedaço de poeira flutuando na periferia do nada. Cada uma de nossas células é governada por DNAs irmãos, proteínas que não tem olhos para ver o mundo em branco ou preto. Enzimas que não sabem se você é Flamengo, Vasco, Corinthians ou Palmeiras. Mitocôndrias que não têm idéia do valor do seu contra-cheque.
Somos a mesma espécie, vivendo no mesmo planeta, mas escolhemos existir em mundos tão distantes que terminamos tolerando a existência das tribos vizinhas como se elas fossem uma abstração não-humana, dignas apenas de um olhar displicente de curiosidade descartável - como aquele que as pessoas levam ao filme do Michael Jackson.
É isso aí.
![]() | *Dr. Alessandro Loiola é médico, escritor e palestrante. Autor de, entre outros livros, "Para Além da Juventude - Guia para uma Maturidade Saudável" (Editora Leitura). Fale com ele pelo e-mail aloiola@brpress.net |
Média (Not Rated)
Copyright © 2010 BR Press. Todos os direitos reservados.