Seg, 19 Out, 03h27
Por Regis Tadeu, colunista do Yahoo! Brasil
Primeiro, quero deixar claro uma coisa aqui: sou um "tiozinho". Não daqueles que acham que só o som feito no passado era o que prestava, que ninguém hoje em dia sabe empunhar um instrumento, essas baboseiras.
Sou um tiozinho porque realmente acredito que a música feita no passado era de uma qualidade incrível, quando "música para adolescentes" no Brasil era o pessoal da Jovem Guarda - Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Vanderlea e outros artistas bacanas - e não essa avalanche de bandas ridículas e ensebadas, tipo Fresno, NX Zero e uma tal de Cine, talvez o som mais "maricas" que ouvi desde o ano 10 A.C.
Embora eu seja um admirador do som do passado, sei que muitas bandas de priscas eras estão voltando a tocar apenas para faturar uma grana. Até aí, nada de anormal. Afinal, todo mundo tem que pagar suas contas de água e luz, certo? Só fico bravo quando sei de grupo cujos integrantes nem se falam entre si, mas posam todos sorridentes em cima do palco ou em páginas de revistas.
Mas também sei de gente veterana que volta pelo prazer de tocar junto novamente, que não precisa mais de dinheiro e reconhecimento. Veja o caso do Return to Forever. Sei que a maioria da molecada que lê estas mal traçadas linhas vai "boiar" naquilo que vou escrever, mas quem é fã dos sons dos anos 70 ficou salivando com a notícia de que o grupo havia retomado a sua formação mais famosa - com o guitarrista Al DiMeola, o tecladista Chick Corea, o baixista Stanley Clarke e o batera Lenny White - no ano passado para uma série de shows. Não era para menos, já que o quarteto, ao lado do Weather Report e da Mahavishnu Orchestra, formava a tríade maior do jazz/rock, termo que foi renomeado como fusion nas décadas seguintes.
Depois de um hiato de 25 anos, os caras voltaram a tocar junto e gravaram um DVD, Live at Montreux 2008 (ST2), no já tradicional festival europeu. Primeiro, é preciso destacar que os quatro músicos parecem estar bem felizes em participar da empreitada, trocando olhares repletos de cumplicidade e alegria. Revisitando um repertório bem bacana, que privilegiou temas com alterações de dinâmicas surpreendentes e que permitia o maior espaço possível para improvisações, a banda ainda deixou patente a enorme capacidade técnica de cada um dos integrantes, uma característica que vem sendo deixada de lado por músicos medíocres, mas que também sofre da exploração estéril por parte de instrumentistas egocêntricos, como Yngwie Malmsteen e outros tipos asquerosos.

Logo de cara, dá para ficar chapado com a disposição dos caras em um tema lindo e, ao mesmo tempo, complexo como "Hymn of the Seventh Galaxy", no qual Meola fez uso de frases extremamente complexas, enquanto Clarke conduziu tudo com firmeza, emoldurando as belas notas que saíram dos teclados de Corea e dos ritmos insanos de White (veja aqui)
. É impressionante ver os quatro fazendo convenções complicadas como se estivessem comendo um sanduíche na padaria. E tome mudanças de andamentos, licks rápidos e certeiros, solos sutis e acordes quase dodecafônicos, tudo tocado com suingue avassalador e melodias belíssimas.
Esta apresentação do Return to Forever é um exemplo de como solos podem ser coisas bacanas (veja aqui um belo momento de Corea). Em "Al's Solo", o guitarrista empunhou um violão com cordas de náilon e apresentou um fraseado perfeito, com a sua já tradicional influência flamenca (confira aqui). Em "No Mystery", Clarke fez um lindo solo com o arco, além das frases em uníssono que White fez no chimbal junto com a banda (veja aqui).
A longuíssima "Song to the Pharaoh Kings" trouxe Corea fazendo um solo percussivo em seu teclado na introdução, de modo bastante melódico, antecedendo a sutileza com que Meola e tecladista apresentaram uma profusão de melodias "egípcias", contrapondo-se à espécie de "duelo" entre ambos, com notas disparadas a velocidades supersônicas. Quando a banda entra para tocar junta, não deixa de ser impactante. De sua parte, White fez seu solo sobre uma base de Corea, chegando a inserir uma pequena levada de samba, tudo dentro do contexto da composição, enquanto Clarke apresentou um solo extremamente melodioso, com leves efeitos de wah wah e phaser, usando o slap de forma totalmente percussiva.
Em "The Romantic Warrior", o início quase experimental logo desembocou em uma seara recheada de brilhantes alterações harmônicas, com um belo solo de violão de Meola. "El Bayo de Negro" traz um solo sensacional de Clarke no baixo acústico, solfejando as notas e fazendo surpreendente batucada, estimulando White a criar uma levada no ride simplesmente fabulosa, que antecedeu ao solo de bateria apresentado em "Lineage". Pena que não incluíram neste DVD as matadoras "Majestic Dance" e "Medieval Overture", inexplicavelmente sacadas da edição final das filmagens.
O retorno destes "tiozinhos" mostra que é possível fazer música complexa e recheada de beleza. Basta ter talento, um artigo muito raro nos dias de hoje...
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