Seg, 21 Set, 01h46
Por Redação Yahoo! Brasil
Semana retrasada, recebi o mais recente disco de um dos mais brilhantes guitarristas que o jazz já teve. E escrevo isso no tempo verbal correto, já que o George Benson foi realmente um instrumentista sensacional, dotado de uma rara habilidade em combinar harmonias complexas e melodias belíssimas em sua guitarra semi-acústica (ouça as belas versões que ele fez de "Take Five", de Dave Brubeck aqui, e de "So What", de Miles Davis aqui).
Mas o tal disco, Songs and Stories, é apenas mais um capítulo do inacreditável redirecionamento que Benson deu na carreira a partir de 1976, quando repentinamente deixou de lado a música que amava de verdade e se entregou a um dos mais vergonhosos casos de comercialismo que se tem notícia no show business. Quando o disco daquele ano, Breezin', chocou os fãs por mostrar um som bem mais diluído e contendo faixas com a voz de Benson, muita gente torceu para que aquilo fosse apenas um exercício de liberdade artística (veja dois momentos do guitarrista naquela época, tocando a singela "Breezin'" aqui e a sacolejante "Affirmation" em aqui).
Ledo engano. O negócio começou a virar na cabeça do guitarrista quando uma das faixas de Breezin', "This Masquerade" (veja o vídeo aqui ), ganhou um Grammy, e sua versão de "On Broadway" estourou nas paradas (veja o vídeo aqui).
A partir daí, Benson passou apenas a se preocupar em agradar a um mercado que poderia lhe render uma grana muito maior, compondo temas horrorosamente melados e bregas, como as pavorosas "In Your Eyes" (veja o vídeo aqui), "The Greatest Love of All" (vídeo aqui) e "Turn Your Love Around" (veja o vídeo aqui), deixando a guitarra de lado e tentando bancar o "coroa gostosão - preste atenção ao último vídeo e veja um festival de cenas constrangedoras protagonizadas por "barangas" sem noção.
De vez em quando ele relembra o grande músico que foi, como neste tributo a Miles Davis (veja o vídeo aqui) em que tocou ao lado do tecladista George Duke, outro extraordinário instrumentista - que tocou por vários anos na banda do lendário Frank Zappa - que também debandou para o caminho do sucesso fácil é insípido.
Mas a audição das faixas de Songs And Stories revela que Benson não só se tornou um guitarrista acomodado artisticamente, mas também capaz de contagiar aqueles que trabalham à sua volta. É o caso do produtor deste CD, o extraordinário baixista Marcus Miller, o último parceiro musical que Miles teve em vida.
Mesmo sendo experiente, ele não foi capaz de impedir que Benson reunisse um repertório formado por canções de outros compositores - Smokey Robinson, James Taylor ("Don't Let Me Be Lonely Tonight", com a participação do grande Toninho Horta ao violão), Donny Hathaway ("Someday We'll All Be Free"), Lamont Dozier ( a instrumental "Living in High Definition"), Christopher Cross ("Sailing") e Bill Withers ("A Telephone Call Away"), entre outros - e tirasse totalmente a força de cada uma das músicas, transformando tudo em uma trilha sonora perfeita para uma festa de bodas de prata dos pais de quem quer que esteja lendo estas linhas que escrevo neste exato momento.
Benson pode estar nadando em dinheiro nos dias de hoje, mas eu duvido que, ao colocar a cabeça no travesseiro antes de dormir, ele não sinta uma pequena pontada no peito, causada pelo fato de não ter a liberdade artística de fazer a música que realmente ama...
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