Seg, 22 Jun, 02h19
Por Regis Tadeu, colunista do Yahoo! Brasil
Ao ler aqui mesmo no Yahoo! que David Byrne vai lançar o disco A Society In Which No Tear Is Shed Is Inconceavably Mediocre pelo seu selo Luaka Bop, não deu para evitar um sorriso de sarcasmo. Para quem não sabe a respeito do que estou escrevendo, sugiro dar uma lida, clique aqui.
Pois bem, o ex-líder do Talking Heads e sua equipe de "pesquisadores" se juntaram a um dos times que mais trabalham no show business, formado pelos "investidores da morte precoce", um grupo de burocratas das gravadoras que vislumbra a possibilidade de ganhar dinheiro com o fim trágico de astros do rock "porraloucas", que de uma maneira ou de outra acabam com suas próprias vidas de maneira surpreendente, encerrando com suas respectivas existências antes de adentrarem à maturidade e à velhice digna.

É claro que sem a ajuda de fãs desesperadamente idiotas, a tarefa desses agentes da morbidez musical não teria êxito. São esses admiradores "paraquedistas", que não tinham o menor contato com a obra do artista enquanto ele estava vivo e que se tornam verdadeiras "viúvas" quando o sujeito bate as botas, é que alimentam esse mercado com seu rico dinheiro, tudo gasto em zilhões de coletâneas, discos tributos, discos póstumos, pôsteres, chaveiros e o que mais puder render um bom trocado.
O que leva as pessoas a ter esse verdadeiro fascínio por músicos mortos de maneira precoce? Como explicar que gerações e gerações de fãs devotem tristeza pseudocomovente em relação a figuras como Kurt Cobain, Janis Joplin, Jim Morrison e Jeff Buckley, entre tantos outros? Simples: quando um artista carismático e famoso morre de modo trágico e ainda na plenitude de sua juventude, a grande maioria das pessoas que apenas "ouviu falar" do falecido se sente "em dívida", muito menos em relação ao moribundo e muito mais em relação aos fãs genuínos. Afinal, para os "paraquedistas", não fica bem ficar de fora de rodas de bate-papo a respeito disso. O que teve de gente que comprou discos do Nirvana e do The Doors depois das mortes de seus respectivos líderes não foi brincadeira...
É claro que tem muita gente que realmente saboreou a produção artística desses músicos e cantores em seu auge e que, posteriormente, se interessou genuinamente por suas respectivas obras musicais, mas é uma parcela muito pequena quando comparada à imensa massa de neófitos que hoje idolatram Kurt Cobain e Jim Morrison como semideuses que voltarão à Terra algum dia.
Agora, pare e reflita: o que teria acontecido se Kurt, Janis e Morrison não tivessem morrido de maneira precoce? Suas carreiras continuariam a exibir a excelência de outrora ou iriam definhando artisticamente? Eles teriam a idolatria que não tiveram em vida? Sim, porque nenhum deles teve, enquanto viveu, 20% da fama e do reconhecimento que passaram a ter depois que morreram.
A coisa está tão sem controle que até mesmo um desconhecido está sendo alçado à condição de "mito" - bem, pelo menos é isso que o pessoal da Luaka Bop está tentando... Pense bem: o menino que ficou conhecido pela alcunha de "Yoñlu" era apenas um entre milhões de moleques de sua idade (dezesseis anos) no mundo que gravavam suas músicas em casa, com um mínimo de estrutura (um instrumento e um computador) seja lá por qual motivo - buscar a carreira artística, impressionar a mulherada, como válvula de escape para suas frustrações e o diabo a quatro. Só que, neste caso, a música é o que menos importa.
De maneira sórdida, as canções estão sendo utilizadas para emoldurar o fim trágico do garoto, que sofria de uma depressão devastadora, mas que não o impediu de compartilhar seu suicídio pela internet - muita gente completamente desmiolada chegou ao ponto de "dar uma força" ao moleque, sugerindo as melhores maneiras para se matar.
Gente desse tipo merecia sentar em uma cadeira elétrica embaixo de um chuveiro ligado! E nada contra o pai do menino querer eternizar o trabalho de seu falecido filho, pois isso provavelmente servirá como uma mensagem do tipo "seu trabalho não foi em vão, sua vida não foi em vão". Isso sim é muito legal.
Tive a oportunidade de ouvir as faixas que estão presentes em A Society In Which... e custo a acreditar que alguém neste planeta realmente acredite que o pessoal do selo disse que tinha gostado das músicas antes mesmo de saber da história trágica de Yoñlu. Tudo bem, alguns temas tem bons achados melódicos? Claro! Ouça trechos de algumas abaixo:
Acho até que, se tivesse continuado a viver e a colocar em suas singelas canções as referências apresentadas até então, o garoto poderia ter se tornado um artista interessante, muito mais relevante que as Mallu Magalhães da vida.
É preciso dar oportunidades aos garotos músicos enquanto eles estão vivos e produtivos. Depois de mortos, é apenas business...
Média (Not Rated)
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