Agência Estado

Venda de produtos na rede começa por hobby e vira negócio lucrativo

Qua, 22 Jul, 03h15

Venda de produtos na rede começa por hobby e vira negócio lucrativo

Por Rafael Cabral, Bruno Galo, colaborou Ana Freitas

São Paulo, (AE) - Olhando atônita para o "armário apertado" de seu apartamento, a publicitária Ana Luiza McLaren deu um basta: se livraria daquela tralha acumulada durante os anos. Vestidos há muito não usados, óculos que não saíam da caixinha e a calça para a qual não aguentava nem mais olhar - tudo seria vendido na internet. Em vez de apostar no já estabelecido site MercadoLivre, ela criou para isso o seu próprio negócio, ao lado de mais três amigas, o Enjoei.com.br. "Começamos mais pela necessidade de desocupar do que pela de vender", brinca ela.

Com um investimento de R$140 (domínio e servidor), o site nasceu despretensioso. Abriria espaço para quem também quisesse vender, cobrando 15% do valor da peça. Logo no segundo mês de atividade, eram tantas pessoas interessadas que as amigas tiveram de contratar o seu primeiro funcionário, porque não estavam mais dando conta do volume de pedidos.

Os pequenos negócios, como o Enjoei, estão ganhando espaço no mercado online nacional. Os microempresários aumentaram seus lucros e ajudaram no crescimento anual de 25% do comércio eletrônico no país, segundo a consultoria E-bit. Já as dez maiores lojas brasileiras da web tiveram uma queda de 6,5% nas vendas no primeiro trimestre de 2009. O Ebay, o maior site de leilões do mundo, diminuiu em 32% o número de acessos que recebia por dia.

Para Gerson Rolim, diretor da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico, o lucro dos pequenos reforça a tendência da segmentação. Em vez de caçar livros no Ebay ou no MercadoLivre, que vende de tudo, o brasileiro hoje prefere ir direto ao Estante Virtual, que só trata deles, por exemplo.

Rolim destaca, no entanto, que os sites nanicos dificilmente podem competir com os gigantes quando o assunto é preço. Os grandes compradores sempre terão mais controle sobre o valor dos seus itens. Para atender ao nicho, os sites precisam oferecer um diferencial, como produtos melhores e atendimento especializado.

É justamente nisso que aposta Laércio de Queiroz, de 45 anos, que desde 2006 mantém no MercadoLivre a sua Rare Records, pela qual vende vinis antigos para o Brasil e para o exterior. Além de vender discos exclusivos, Laércio capricha na embalagem e na segurança da entrega. "São os meus diferenciais, que fui desenvolvendo com os anos", diz o carioca, que nunca teve uma loja física. "As vantagens são o baixo custo e o alcance mundial. A desvantagem maior é a falta de contato com o cliente, que pode dificultar uma venda", explica.

Para diminuir esta distância, muitos pequenos comércios usam as redes sociais, como o Orkut e o Flickr, para manter contato com os compradores. "Com isso, eles percebem que a relação com o cliente é feita por pessoas, e não por um sistema", garante Ana Luiza, do Enjoei.

Para o diretor geral da E-bit, Pedro Guasti, as redes sociais são uma importante arma na divulgação dos "nanicos", mas podem elas mesmas servirem como canais de vendas.

O MercadoLivre, maior plataforma de compra e venda pela internet na América Latina, acredita que essas novas opções não são uma ameaça. "Diferentemente de qualquer outra plataforma, oferecemos incontáveis ferramentas para ajudar o usuário a fazer uma boa compra. Além disso, tudo que você faz dentro do nosso site é avaliado e fica no seu histórico", afirma Helisson Lemos, diretor de marketing do MercadoLivre.

Apesar da propaganda do site de leilões, ele não faz mais sentido para muitos vendedores, que preferem redes menos abrangentes. O lojista Robson dos Santos, de Santo André, trabalha com discos e livros visando o mercado externo e já desistiu do MercadoLivre. Ele prefere anunciar seus produtos em comunidades especializadas, como o Geem.com e MusicShack.com, que seriam mais visadas pelos aficionados de fora do Brasil. "Setenta por cento do meu lucro vem de colecionadores da Europa e da Ásia, que me conhecem por causa dos sites", afirma o comerciante, que mantém uma loja na Grande São Paulo praticamente só para comprar LPs mais baratos. Mais informado, o público da web cobraria mais. "Mantenho a loja apenas para captar material", diz.

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