Agência Estado

Alta tecnologia e objetos cotidianos: elementos da nova arte digital

Qua, 25 Nov, 02h25

Alta tecnologia e objetos cotidianos: elementos da nova arte digital

Por Camila Molina e Marina Vaz

São Paulo, 25 (AE) - O casamento entre arte e tecnologia não é recente. Nas décadas de 1960 e 1970, o vídeo ganhava espaço nas experimentações artísticas e era considerado uma "nova mídia". Hoje, com o acelerado avanço tecnológico, parece não existir barreira para os artistas: muitas outras novas mídias surgiram e áreas como a robótica e a engenharia eletrônica foram incorporadas por vários criadores.

Neste ano, o Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo inaugurou seu programa de residência voltado às mídias digitais. No LabMIS, foram desenvolvidos desde janeiro quatro projetos de jovens artistas brasileiros selecionados no primeiro edital da instituição. "A residência é fundamental porque existem pouquíssimos espaços no Brasil para a experimentação", diz a artista Rejane Cantoni, uma das orientadoras dos projetos do LabMIS. "E o principal da residência não é o resultado final, mas o processo."

O MIS é um das poucas instituições que incentivam a produção de arte tecnológica no País, ao lado do Itaú Cultural, com seu programa "Rumos Arte e Tecnologia - Arte Cibernética", e do Prêmio Sergio Motta de Arte e Tecnologia.

"O maior problema dos artistas que trabalham a arte e mídia não é apenas o fomento, mas a falta de mecanismos de circulação de suas produções", diz Giselle Beiguelman, artista digital, professora da pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP e curadora do Prêmio Sergio Motta. Alguns eventos como o Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (File), realizado em São Paulo e no Rio, e o Festival de Arte Digital (Fad), de Belo Horizonte, também contribuem para movimentar o circuito. Entretanto, para Giselle, há um despreparo das instituições em relação a esse setor. "Novos formatos expositivos, museológicos e mercadológicos devem ser pensados", afirma.

TECNOFAGIA

A edição deste ano do Prêmio Sergio Motta constatou que era preciso aumentar a categoria Início de Carreira por conta do aumento do número de inscrições de jovens interessados em criar obras no campo da tecnologia. Pela análise dos portfólios recebidos, Giselle Beiguelman identificou uma atual "vertente tecnofágica" nas obras dos artistas brasileiros. "Há uma estética hoje que mistura dispositivos high e low tech, um hibridismo de tradição e inovação e releituras do cotidiano", afirmou a curadora na abertura do Fórum Internacional A&T - Perspectivas Críticas, no Centro Brasileiro Britânico, em São Paulo.

A mais recente criação do artista Claudio Bueno, "Estrelas Cadentes", é um exemplo de "tecnofagia" e de releituras do cotidiano. "Para meu trabalho, eu uso a bateria de um celular, que é um elemento muito pouco notado; nós não percebemos que carregamos energia no bolso", explica.

Entretanto, o uso da tecnologia por si só não faz de uma criação uma obra de arte. No caso do artista Carlos Fadon Vicente, mestre pela The School of the Art Institute of Chicago, a tecnologia é apenas um dos elementos usados em trabalhos que mesclam fotografia e computação gráfica. "Um dos eixos centrais de minha obra é compor representações feitas a partir do mundo real e do mundo virtual", diz.

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