Sex, 03 Jul, 05h04
Por Sylvia Westall
VIENA (Reuters) - O próximo chefe da agência da ONU para a supervisão nuclear disse nesta sexta-feira que não vê indícios de que o Irã esteja buscando capacitação para desenvolver armas nucleares.
"Não vejo evidências disso nos documentos oficiais da AIEA", disse Yukiya Amano à Reuters, no primeiro comentário direto que fez sobre o programa nuclear iraniano desde sua eleição para a presidência da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), quando perguntado se acredita que Teerã esteja buscando dotar-se da capacidade de fabricar armas nucleares.
O atual diretor-geral da AIEA, Mohamed ElBaradei, disse no mês passado que sua "impressão intuitiva" é de que o Irã busca a capacidade de produzir armas nucleares, se assim desejar, como "política de segurança" contra o que pode enxergar como sendo ameaças.
"Não vou ser um diretor-geral 'brando' ou 'duro'", disse Amano à Reuters, quando indagado como vai abordar o Irã e a Síria, ambas alvos de investigações da AIEA que se encontram paradas.
Diplomata japonês veterano, Amano conquistou a adesão dos países membros da agência na sexta-feira, inclusive de países em desenvolvimento que tinham tentado frustrar sua candidatura ao cargo politicamente delicado.
Ele é visto como um tecnocrata reservado que vai despolitizar a direção da AIEA depois de 12 anos durante os quais a agência esteve sob a direção de ElBaradei, ganhador do Nobel da Paz e figura que costuma declarar suas opiniões abertamente. ElBaradei vai se aposentar em novembro.
Diplomatas dizem que a AIEA não pode se dar ao luxo de ter uma liderança fraca ou uma direção polarizada entre países nucleares e não nucleares, num momento em que o Tratado de Não Proliferação nuclear corre riscos.
Amano foi eleito diretor-geral por margem estreita de votos na quinta-feira, mas sua vitória foi selada por aclamação nesta sexta-feira, numa reunião a portas fechadas dos 146 membros daAIEA.
INDEPENDÊNCIA
"O diretor-geral da agência é uma pessoa independente. Vou continuar a ser independente de qualquer grupo ou região", disse Amano a jornalistas após a reunião.
Ele ganhou o apoio mais forte de países ocidentais ansiosos para que a AIEA adote medidas duras contra a proliferação de armas nucleares. Mas sua ascensão preocupou alguns países em desenvolvimento, que vêem a máxima da não proliferação como sendo empregada como desculpa para lhes negar uma parcela justa do conhecimento nuclear.
O Irã explorou essas tensões, conquistando simpatia em parte do mundo em desenvolvimento, ao argumentar que interromper seu trabalho de enriquecimento de urânio, como exigem as grandes potências mundiais, violaria sua soberania, prejudicaria seu desenvolvimento energético e perpetuaria a desigualdade.
O processo de enriquecimento pode ser configurado para produzir combustível de usinas elétricas nucleares ou para a fabricação de armas. O Irã insiste que seu programa visa unicamente produzir energia.
Para produzir uma arma, o Irã teria que ajustar sua usina de enriquecimento para produzir combustível próprio para uma bomba e miniaturizar o material para que coubesse numa ogiva, passos que, segundo analistas, levariam entre seis meses e um ano pelo menos. O país também teria que expulsar os inspetores da AIEA e abandonar o Tratado de Não Proliferação.
Amano disse a jornalistas que fará o máximo possível para proteger os acordos de salvaguarda da AIEA no Irã e na Síria. Ele também disse que há esperanças para trabalho futuro da agência na Coreia do Norte, que expulsou os inspetores da AIEA em abril e desde então realizou um teste nuclear. Na quinta-feira o país disparou quatro mísseis de curto alcance.
"Espero sinceramente que as conversações sejam retomadas, porque o diálogo é a única maneira de se chegar a uma solução", disse Amano.
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