MATIAS BARBOSA (MG) - A Capela do Rosário, em Matias Barbosa, município da Zona da Mata mineira distante 140 quilômetros do Rio, guarda mais que um altar com imagens barrocas. A construção soma perguntas sem respostas que ultrapassam décadas e encheriam de curiosidade até São Tomé, padroeiro das pessoas em dúvida. Sob a igreja parte um emaranhado de túneis centenários, que se espalham pelo subsolo do Centro da cidade e têm, até hoje, função desconhecida. Incerto também é o futuro das galerias, fechadas em junho de 2009 sob risco de desabamento e que aguardam verbas para serem recuperadas.
A escolha do nome da santa que dá nome à capela, datada da primeira metade do século XVIII, é outro quebra-cabeça para os historiadores. Na época, somente eram consagradas a Nossa Senhora do Rosário as igrejas cujas cidades tinham grupos de congadas, o que não é o caso. As dúvidas não param por aí. Uma lápide foi deixada nos fundos da construção. Além do dono não ser conhecido, seus restos mortais não foram encontrados em escavações.
Os primeiros registros da existência do emaranhado de túneis de Matias Barbosa são da década de 1940. Três versões são as mais conhecidas.
- Os túneis seriam usados por contrabandistas de ouro. Matias Barbosa fazia parte do Caminho Novo, por onde se escoavam o ouro e os diamantes garimpados em Minas Gerais. Pelas galerias, com o consentimento da Igreja, chegavam até a capela imagens ocas, recheadas de diamantes e ouro, os chamados santos do pau oco. As imagens eram colocadas na capela e depois seguiam o caminho - afirma o historiador e diretor de Cultura de Matias Barbosa, Ricardo Sartine, que defende a tese.
Já para parte da população de 14 mil habitantes de Matias Barbosa, os túneis eram usados para espreitar a vida dos moradores na época do Império. Pelos canais do sistema de ventilação, era possível escutar conversas, e os dedos-duros da Corte conseguiam saber quem contrabandeava metais preciosos ou conspirava contra o Império. Até os pecados revelados em confissões na capela deixavam de ser segredos.
A versão mais recente vai contra a idade centenárias das galerias. Os túneis teriam sido construídos nos anos 1930 para extração de material usado na produção de explosivos para uso na Segunda Guerra Mundial.
De acordo com Sartine, o projeto de recuperação dos túneis e de restauração da igreja foi entregue ao Iphan. O município aguarda o aval do instituto para dar prosseguimento ao seu plano de preservação. O trabalho foi orçado em R$ 350 mil.
- Com a autorização, será possível pleitear verbas estaduais e federais e recorrer também à iniciativa privada. O trabalho precisa ser feito o mais rápido possível. Obras feitas no entorno da igreja comprometeram a estrutura dos túneis, e a retirada de terra também prejudicou as galerias. O projeto, feito em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), ainda prevê a recuperação de características urbanísticas da época no entorno da capela - diz o historiador.
A Capela do Rosário surgiu nas terras da Fazenda Nossa Senhora da Conceição, a primeira santa a consagrar a igreja. O local era usado por tropeiros para pedir proteção contra a Quadrilha da Mantiqueira, que roubava ouro e diamantes no trecho entre as cidades de Santos Dumont e Barbacena.
- Não satisfeito em assaltar os tropeiros, eles matavam as vítimas e desapareciam com os corpos - afirma Sartine.
Entre os que pediam proteção na Capela do Rosário estava o inconfidente Tiradentes. Na época, Matias Barbosa era o principal posto de arrecadação de impostos do eixo Rio-MInas Gerais. Quem transportava metais preciosos acertava as contas com o fisco no local.


Ainda não existem comentários