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ATIVIDADES DE AMIGOS

    Ulysses a Collor: 'Só uso drogas compradas legalmente'

    Aprendi com meu marido a não ter ressentimento. Na atividade de Ulysses, o ressentimento é mortal. Tanto que ele costuma dizer que não faz política com o fígado, nem guarda mágoa na geladeira.

    Sinto necessidade de dizer isso para poder entrar no tema mais delicado de todas as histórias que tenho para contar aqui: a doença de Ulysses, em maio de 1986. Mais grave que ela foi a maneira como a mídia, em sua maioria, a tratou, de forma totalmente sensacionalista, desrespeitosa e desumana.

    Por tudo o que Ulysses representou para o país, acho até hoje que ele não mereceu tamanha crueldade, massacre mesmo, diria. E vocês verão que eu não exagero, na medida em que eu for mostrando os fatos.

    Por mim, eu não trataria desses fatos agora. Mas, diante dessa avalanche de doenças que atinge tantos políticos do continente, o drama vivido pela nossa família volta à lembrança. Mais cedo ou mais tarde, eu teria de abordar esse tema, então que seja agora, por mais doloroso que tenha sido para Ulysses e para a nossa família.

    Privacidade invadidaUlysses foi ridicularizado, virou motivo de chacota. Sua doença foi usada politicamente pelos seus adversários

    Não houve, na política brasileira pós-ditadura e, acredito, - e torço, também, para que jamais haja - um homem público mais exposto, na sua intimidade e doença, do que meu marido. Mais que isso, Ulysses foi ridicularizado, virou motivo de chacota. Sua doença foi usada politicamente pelos seus adversários, dentro do próprio governo. Boletins médicos informais e criminosos eram divulgados dentro do gabinete presidencial, já como obituário. Lembro-me bem de que Orestes Quércia, enquanto meu marido era tratado nos Estados Unidos, saía de uma audiência do Palácio do Planalto, lamentando com os jornalistas:

    - Não publiquem isso, mas avisem suas redações. O presidente da República me disse que doutor Ulysses não volta.

    Mas meu marido, graças a Deus, voltou e meses depois veio a ser o homem mais poderoso do país.

    Histórias bizarras, absolutamente inverossímeis, principalmente sobre comportamentos inadequados de Ulysses dentro do avião presidencial que o levou aos Estados Unidos, saíam de dentro do poder.

    Foi, realmente, uma tentativa sórdida de desmoralização pública. A vida pública e pessoal de meu marido foi marcada pela correção. Como então destruir a carreira política de um homem acima de qualquer suspeita? O momento era aquele, ainda mais quando a pessoa está sofrendo, momentaneamente, de distúrbios psicológicos, doença que acarreta vários tipos de preconceitos.

    Os que não acompanharam ou não se lembram mais desses fatos devem estar se perguntando: mas que doença foi essa?

    Meu marido foi vítima de um tratamento clínico equivocado para depressão e, por isso, dado como louco! Demorou-se a descobrir as causas realmente da sua confusão mental: intoxicação medicamentosa.

    A mídia começou a especular que tivesse sido um pequeno edema, depois - e, por semanas, - trabalharam, apenas os jornais e revistas, com a existência de um tumor maligno no cérebro. A verdade é que Ulysses alternava momentos de grande euforia e de profunda depressão.

    Meu marido sempre teve um comportamento muito peculiar: extremamente desligado com tudo. Não tinha senso de direção, andava com sapatos e meias de cores diferentes. Tancredo, maldosamente, quando o Congresso ainda funcionava no Rio, o apelidou de "o vago simpático".

    Tancredo não deixava de ter razão. Ulysses nunca conseguiu ir a lugar nenhum sem ajuda de terceiros, geralmente um funcionário do gabinete que o acompanhava. Vejam este episódio: durante parte da sua vida em Brasília, Ulysses morou com o Nelson Carneiro, na chamada quadra dos senadores. Ele chegava ao aeroporto, e Aluízio, seu motorista, já estava lá à sua espera, todas as segunda-feiras. Um dia, antecipou a viagem, mas não avisou o motorista. Pegou um táxi e seguiu para o Plano Piloto. Depois de alguns momentos, o taxista inicia com Ulysses este diálogo surrealista:

    - E então, doutor, vamos para onde?

    - Para casa!

    - E onde é sua casa?

    - Eu moro com o Nelson Carneiro!

    - E onde é a casa do Nelson Carneiro?

    - Não sei. Mas você deve saber, não?

    - Infelizmente, não sei.

    - Então me leve para o Congresso Nacional. Lá eles sabem!

    - Hoje é domingo, doutor! O Nelson trabalha lá?

    - Sim! E trabalha muito. É o senador que mais legisla neste país!

    - O Nelson é senador? É o homem do divórcio?! Ah, os senadores moram numa quadra só! Vamos lá!

    Então, como se vê, foi muito difícil as pessoas perceberem que, de fato, ele tinha algum tipo de perturbação mental. Descobriram quando Ulysses, ao desembarcar na Base Aérea, rompeu o protocolo e deu continência ao corneteiro!

    Como já disse, não foi fácil. Mesmo nos momentos de extrema exaltação, Ulysses parecia estar normal, não fosse a sua exagerada sinceridade, incompatível com seu estilo pessedista de ser. Às vésperas de sair de cena, para ser submetido a um tratamento de desintoxicação medicamentosa, Ulysses teve um dia muito agitado. Fora ao Rio para as solenidades do Dia da Vitória, e recebeu o então embaixador dos Estados Unidos na ONU, general americano Vernon Watters, no Palácio do Planalto. Watters, na saída, fez gracinha sobre a pífia manifestação de protesto por sua presença no país. Quando soube, Ulysses não quis nem saber, deu uma espinafrada no visitante. Foi um escândalo, logo minimizado pelas declarações de um outro Ulysses, aplaudindo a decisão de um jogador, se não me engano, Leandro, de se desligar da Seleção, em solidariedade ao colega Renato Gaúcho, cortado por Telê Santana.

    Drama superadoNão guardo mágoas, mas algumas decepções, inclusive de pessoas que não podiam ter feito o que fizeram

    Claro que falarei mais, aqui, sobre a doença de Ulysses. Eu tentava esconder dele os jornais e revistas. Era um bombardeio terrível. Meu marido deu a volta por cima. Superou totalmente esse drama. Da minha parte, volto a dizer: não guardo mágoas, mas algumas decepções, inclusive de pessoas que não podiam ter feito o que fizeram, até pela grandeza dos cargos que ocupavam na época.

    Relevei tudo isso, até porque a mídia que o consagrou na ditadura como principal opositor daquele regime nefasto, que o massacrou na doença, soube reconhecer a grandeza do meu marido na sua morte, com homenagens lindas, comoventes.

    E, também, não nego que fiquei muito confortada quando, durante o processo de deposição do presidente Collor, no qual meu marido era chamado de "O Senhor Impeachment", o Jô Soares perguntou, no seu programa:

    - Ulysses, o presidente Collor te chamou de gagá e disse que você só vive à base de remédios.

    - É verdade, Jô! Infelizmente, passei uma fase tomando remédios. Mas os meus remédios, as minhas drogas, eu as comprava legalmente, nas farmácias, com receitas médicas e controladas.

    Como você se sente ao ler este artigo?

     

    2 comentários

    • Fabiano  •  4 meses atrás
      Dá-lhe Ulysses! O Sr Diretas-Já, o Sr Democracia. Faz falta esse tipo de político. O utlimo grande politico deste pais.
    • TOOM  •  4 meses atrás
      A midia brasileira é podre pois está cheia de donos!
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