HANÓI - Bombas e isolamento internacional são temas que hoje pertencem aos livros de História e aos museus do Vietnã, visitado em 2011 por seis milhões de turistas - hipnotizados por paisagens exóticas, hotéis cinco estrelas e a renovação de cidades como Hanói e Ho Chi Minh (antiga Saigon). A economia cresce, e marcas estrangeiras vão ganhando espaço entre a foice e o martelo, símbolos máximos do Partido Comunista que governa o país. É uma transição impressionante, mas a terra que sempre será sinônimo de humilhação para os militares americanos - postos para correr num dos mais dramáticos confrontos da Guerra Fria - ainda tem seus inimigos. Só que agora eles são internos.
Hanói, a histórica capital na ponta Norte, ilustra a divisão entre um país que se abre, disposto a atrair o capital estrangeiro, e outro que continua preso ao passado. A cidade é charmosa e caótica ao mesmo tempo. Faz os visitantes lembrarem de Pequim e Xangai, palco de revoluções urbanas frenéticas, mas também de Havana, com sua arquitetura colonial precisando de obras urgentes, e de Moscou, que ainda guarda monumentos gigantes dos tempos soviéticos. Hanói tem barzinhos modernos, bistrôs comandados por chefs franceses em casarões restaurados e boa parte das grifes que representam o luxo ocidental. Tem também, por outro lado, o mausoléu de granito onde está exposto o corpo embalsamado do líder comunista Ho Chi Minh.
Para os analistas, não é a múmia do herói da independência - uma figura venerada pelo povo, que se refere a ele como "nosso grande pai" ou "Tio Ho" - o que vem bloqueando o caminho das reformas no Vietnã, mas a dúvida sobre que atalho pegar a partir de agora. Assim como na China, o Partido Comunista, que não dá chance a movimentos democráticos, sabe que o desenvolvimento depende de uma economia mais aberta, mas mantém um forte controle. Em 20 anos, o crescimento disparou: o PIB cresceu em média 7,1% de 1990 a 2009. Medidas para redução da pobreza trouxeram melhorias para a população de 86 milhões de pessoas - 70% delas concentradas em áreas rurais - e em 2006 as portas da Organização Mundial do Comércio (OMC) se abriram para os vietnamitas. O país sonha em ser uma "pequena China", mas para isso precisaria mergulhar em mudanças ainda mais profundas.
- Apesar do acelerado crescimento econômico, o Vietnã enfrenta problemas graves como corrupção, inflação e estatais deficientes. O Estado e o Partido Comunista coexistem em todas as organizações administrativas. Essa estrutura traz uma falta de transparência e responsabilidade em relação a políticas públicas e aplicação da lei - diz o vietnamita Tran Von Tho, professor de História Contemporânea da Universidade de Waseda, em Tóquio.
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