À espera de golpe contra Lula, acampamento bolsonarista em Brasília se mantém e incomoda transição

Apoiadores de Jair Bolsonaro acampam em protesto contra Lula no quartel-general do Exército em Brasília

Por Ricardo Brito e Victor Borges

BRASÍLIA (Reuters) - A menos de cinco dias da posse de Luiz Inácio Lula da Silva, o acampamento bolsonarista montado nas imediações do quartel-general do Exército em Brasília se mantém mobilizado à espera de um golpe militar que impeça a volta do petista ao poder e provoca crescente incômodo no governo de transição e em ministros do Supremo Tribunal Federal.

"Acredito que alguma decisão vai ser tomada até o final da semana e que vai ter uma intervenção dos poderes militares", disse à Reuters o gerente de posto de gasolina Romário Lima, integrante da mobilização gerada após a derrota do presidente Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições.

"Não sei se o presidente vai tomar alguma atitude da parte dele, mas eu acredito que o poder militar, sim", seguiu Lima, de 33 anos, que viu a multidão no local encolher em quase dois meses de acampamento, erguido no Setor Militar Urbano (SMU) da capital, a 8km do Palácio do Planalto.

Ainda que menor do que em novembro, quando a Reuters fez a primeira visita ao local, o acampamento abrigava na terça-feira dezenas de apoiadores de Bolsonaro em frente a um palco, muito deles refratários à imprensa.

Uma estrutura com banheiros químicos, geradores de energia e espaços de alimentação e descanso estava em funcionamento ao lado de faixas que pediam a ilegal intervenção dos militares contra o que consideram --sem qualquer base-- um suposto resultado fradulento das eleições.

Os sinais de vigor no local contrastavam com as declarações de integrantes do governo de transição e do governo do Distrito Federal, que vem afirmando esperar uma desmobilização, a princípio "voluntária", dos manifestantes antes de domingo.

A pressão pelo fim da manifestação pró-golpe cresceu ainda mais nesta semana depois da prisão de um suspeito que afirmou em depoimento ter formulado com frequentadores do local um plano de tentar detonar uma bomba em Brasília com o objetivo de desencadear atos de violência extremista para impedir a posse de Lula --o artefato explosivo foi apreendido pelas autoridades.

Além disso, segundo investigações de forças de segurança pública, foi de lá que partiram frequentadores ou acampados que promoveram vandalismo na cidade em 12 de dezembro, dia da diplomação de Lula pelo Tribunal Superior Eleitoral, com depredação de patrimônio público, queima de carros e ônibus pelas ruas. Ninguém foi preso até o momento por esses atos.

PERÍMETRO MILITAR

No governo de transição, onde os episódios obrigaram à revisão dos protocolos de segurança para a posse no domingo, é o futuro ministro da Justiça, Flávio Dino, quem tenta imprimir um tom mais duro contra a mobilização. Dino disse que, caso não aconteça uma saída voluntária do local até esta quinta-feira, pode haver "uma desocupação compulsória".

No Supremo ao menos dois ministros defendem também uma imediata desmobilização dos acampamentos, além de uma investigação de eventuais financiadores de quem permanece nesses locais, segundo duas fontes ouvidas recentemente.

Mas a solução para liberar a área passa pela cúpula das Forças Armadas --como lembram sempre as autoridades do DF, se trata de um perímetro militar--, e esse é um tema tratado com cautela pelo governo que assume no próximo domingo.

O futuro ministro da Defesa, José Múcio, escalado por Lula para aplacar a tensão com setores militares, que participaram maciçamente do governo Bolsonaro, afirmou que o movimento é majoritariamente "pacífico" e evitou falar em remoção ou acrescentar pressão sobre os militares, que não condenaram até o momento os clamores por um golpe às suas portas.

Múcio costurou um acordo para que houvesse a troca do comando do Exército ainda sob o atual governo, com efeito incerto sobre as mobilizações. O próprio Bolsonaro assinou a troca antecipada do comando do Exército, com a indicação do general Júlio Cesar de Arruda, escolhido por Lula para o posto, e que assume interinamente na sexta-feira.

No acampamento, Paulo Araújo Matos, de 49 anos, não demonstrava temor de ser removido. "Nós estamos guardados pelo Exército. Ninguém, nem a Polícia Federal ou a civil, ninguém nos tira daqui do quartel sem uma ordem de um general ou de algum deles lá de dentro do quartel, caso contrário ninguém sai", afirmou ele, que trabalha como pedreiro em Brasília.

"As pessoas só vão sair dos quartéis quando o presidente se pronunciar em rede nacional que tudo já foi resolvido e que a gente pode sair", seguiu Matos, citando Bolsonaro, que ainda não reconheceu a derrota para Lula.

"Se o poder emana do povo, quem manda é o povo, então por que é que alguém vem nos tirar? Não importa quem seja. Então, se obrigarem o povo sair daqui, eu não acho isso democrático eu acho que isso é autoritarismo", disse Romário Lima, o gerente de um posto de gasolina.

Assim como Paulo Araújo, Lima disse acreditar que os atos de vandalismo foram cometidos por supostos infiltrados de esquerda, sem nenhum ligação com o acampamento.

Procurado pela Reuters, o Ministério da Defesa remeteu as perguntas ao Exército, que informou que o Comando Militar do Planalto vem acompanhando, diariamente, as atividades do acampamento na área do SMU, "onde muitos manifestantes têm deixado o local de forma espontânea".

"Militares do CMP têm auxiliado na desmontagem das estruturas abandonadas, permitindo a melhor circulação e segurança no local", diz a nota, ao ressaltar que as ações têm sido coordenadas com o governo do Distrito Federal.

(Edição de Flávia Marreiro)