À frente da Granado, que acaba de completar 150 anos, Sissi Freeman funde tradição com inovação

Marcia Disitzer
·5 minuto de leitura
Sissi Freeman na fábrica da Granado

87947220_ELA exclusivo Sissi Freeman diretora de marketing da Granado.jpg

Sissi Freeman na fábrica da Granado

Na véspera do aniversário de 14 anos, Sissi Freeman ganhou, sem saber, um presente do pai que pavimentaria a sua estrada profissional. Filha do economista inglês Christopher Freeman e da empresária brasileira Clicia Lutti, ela nasceu nos Estados Unidos e morou em Londres até os 8 anos. Na sequência, eles desembarcaram no Brasil e aqui criaram raízes. Em 1994, o pai trouxe a notícia da compra da “Pharmácia” Granado, a preferida da família imperial brasileira. A empresa, fundada em 1870 pelo português José Antônio Coxito Granado, havia se tornado célebre pelo tradicional polvilho antisséptico.

Naquele momento, a adolescente Sissi, hoje com 39 anos, não poderia imaginar que caberia a ela a missão de fundir inovação com tradição, deixando a Granado com fôlego renovado. Ela seguiu o curso da vida sem desvios: aos 18, transferiu-se para Washington, onde estudou Ciências Políticas e Economia na Georgetown University. Passados seis anos, entre estudo e trabalho em pequenas firmas na capital norte-americana, em Nova York e na Filadélfia, recebeu um pedido irrecusável do pai. “Ele disse: ‘Preciso que você venha trabalhar comigo durante seis meses’”, lembra ela, achando graça. “Seis meses viraram 16 anos.”

No cargo de diretora de marketing e vendas da Granado Phebo desde 2008, ela consolida ainda mais o protagonismo durante a pandemia do novo coronavírus, aliando responsabilidade social e estratégias para contornar a crise. “No dia 15 de março, fechamos todas as lojas físicas (no Brasil, são 70 da Granado e cinco da Phebo; três em Paris e dois pontos de venda em Portugal). Por causa disso, as vendas no site cresceram mais de 500%’’, diz. “Acredito que a Covid-19 e a quarentena vão provocar mudanças no comportamento do consumidor. O e-commerce se fortalecerá. O brasileiro também vai passar a usar mais sabonete líquido e a lavar as mãos com maior frequência”, analisa. Outras mudanças foram realizadas para atender às demandas. “Transformamos algumas linhas de perfume em álcool gel 70 e álcool líquido 70. Vamos mantê-los no portfólio”, explica. Ela também fez questão de se engajar em campanhas para tentar minimizar os impactos do novo coronavírus na sociedade. “Doamos 5 mil litros de sabonete líquido. Parte foi encaminhada para projetos do Unicef em prol de jovens e crianças vulneráveis do Rio de Janeiro; o restante foi direcionado para hospitais, como Miguel Couto, e asilos do Estado”, diz Sissi, que destinará 10% das vendas de abril do site da Granado para a plataforma Rio Contra Corona, criada pela União Rio, grupo formado por empresários cariocas. “É importante falar sobre isso para incentivar outros a seguirem este exemplo”, observa.

A herdeira da Granado continua indo à fábrica duas vezes por semana. Funcionários pertencentes a grupos de risco foram afastados e a unidade fabril, localizada em Japeri (RJ), adotou normas rígidas. “A temperatura de todos é medida na entrada, e a máscara é obrigatória.”

Completando 150 anos em janeiro de 2020, a empresa abriu as comemorações em novembro apresentando o livro “Granado” (Assouline), escrito pelo jornalista Hermés Galvão e com prefácio de Bruno Astuto. A publicação, que conta a história da marca, foi lançada no Rio — com a abertura da loja-conceito na Rua Dias Ferreira — em São Paulo, Paris e Lisboa. Em janeiro, foi distribuído um selo comemorativo em parceria com os Correios e inaugurada, no Museu Histórico Nacional, a exposição “A história da botica mais tradicional do Brasil”, revelando ao público preciosidades do acervo da empresa, como rótulos, embalagens e impressos de diferentes épocas. O desvio de rota por causa da pandemia não desanima Sissi. “A exposição passará a ser on-line em 3D”, diz.

O restante do planejamento, como lançamento de kits de sabonetes em latas comemorativas, acontecerá a partir de julho. “Estou mais otimista com o segundo semestre, vamos atravessar essa onda. As atividades que faríamos dentro do ambiente das lojas vamos levar para fora. Depois do confinamento, o público vai querer estar ao ar livre.”

Casada com o empresário Bernardo Barros — “ele era meu amigo na adolescência” — e mãe de Helena, de 6 anos, e Luiza, de 4, a empresária diz que a atuação à frente da Granado transformou a sua personalidade. “Sou tímida, introspectiva, mas o trabalho me proporcionou autoconfiança. Hoje, dou até palestras.”

Sissi, de fato, tem motivos de sobra para se sentir fortalecida diante de tantos feitos. Partiu dela algumas iniciativas memoráveis, que fizeram a guinada da Granado em direção ao futuro, como o reposicionamento da linha Bebê e do polvilho antisséptico. A abertura das lojas, todas com décor vintage, também representa um marco. “Até então, a empresa tinha uma visão de atacado.

Foi um projeto a longo prazo que exigiu mudança de mentalidade. Hoje, as lojas funcionam como vitrines”, avalia. “Também considero nossa entrada no Le Bon Marché, em 2014, outro divisor de águas. Além de de ter sido o primeiro passo para a internacionalização, fez com que a gente explorasse diversos ingredientes brasileiros, como caju e tonka”, observa.

Mãe de duas meninas, ela as cria para serem independentes e se orgulha de dirigir uma companhia que valoriza as mulheres. “Porém, quando vou a eventos corporativos percebo que 90% dos participantes são homens, diferentemente da Granado, cujas mulheres são maioria”, avalia. “Meu pai sempre nos achou práticas, rápidas e capazes de resolver questões multidisciplinares”, afirma.

Bem-humorada, ela jura fazer o estilo mãe linha-dura, mas, em seguida, se corrige: “Sou um mix de brava com companheira.” Em casa, segue alguns hábitos. Caminha, toda manhã, na esteira. “Andando planejo meu dia.” No fim de semana, costuma se reunir com o marido e as filhas para cuidar das árvores frutíferas e da horta. “Cozinhar é outra atividade que adoramos fazer juntos, independentemente da quarentena”, diz Sissi, que confessa estar, pela primeira vez na vida, no segundo frasco da mesma fragrância. “É a eau de toilette Suzette.”

Palavra de especialista.