À lá Copa América: como a grama de Wimbledon virou risco e preocupação para atletas

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Em meio a frequentes reclamações sobre a qualidade dos gramados no futebol brasileiro, até a grama considerada "sagrada" foi alvo de críticas nos últimos dias. Em Wimbledon, principal torneio de tênis deste piso, dois dos principais nomes da modalidade tiveram seus jogos afetados por escorregões na quadra central. Após a americana Serena Williams abandonar sua partida de estreia aos prantos, a instabilidade da quadra se tornou uma preocupação.

Ao escorregar na última terça-feira, Williams agravou uma lesão no tendão da perna direita, sendo forçada a se retirar da partida contra Aliaksandra Sasnovich, e abandonar o que muitos consideraram uma de suas últimas chances de conquistar 24º título de Grand Slam. Mais cedo, na mesma quadra, Roger Federer avançou depois que seu oponente, Adrian Mannarino, também escorregou e sofreu uma lesão no joelho enquanto vencia por dois sets a um.

Sasnovich disse que a quadra era tão escorregadia que ela não correu para rebater alguns saques angulados como normalmente faria. Já Andy Murray, que jogou na quadra um dia antes, disse que a superfície dificultava os movimentos.

Uma garoa fina caía sobre Londres nos três primeiros dias do torneio, enquanto o atletas caíam dentro da quadra. A chuva frequente umedeceu o piso antes que o teto retrátil fechasse, e impediu que a grama exuberante e intocada secasse tão rápido quanto normalmente aconteceria: ao ar livre e ao vento.

CEO da LEBA Esportes Tênis na Grama, Luis Eduardo Bonilha Almeida, é dono de duas quadras abertas em Campinas, e explica que a umidade é a uma das grandes vilãs deste piso. Porém, a manutenção vai muito além de enxugar grama.

— É uma quadra viva, que exige cuidados diários, máquinas específicas e funcionários constantes. Fazemos diferentes manutenções: diárias, semanais, semestrais e anuais. Além de enxugar para evitar fungos, tem que adubar e, dependendo da época do ano, fazer o corte dia sim, dia não — explica Luis.

Ele recebe até 100 tenistas profissionais e amadores apenas no final de semana, pois o restante do tempo é dedicado à manutenção. Em Wimbledon, a única ação que a Quadra Central viu durante todo o ano foi uma partida suave de duplas jogada por quatro membros da All England Club (o clube que recebe o torneio), no último sábado.

Ainda de acordo com Luiz, a principal diferença entre a grama do tênis e do futebol é a altura:

— Eu corto entre 6 a 8 milímetros, já no futebol a grama é acima de 1 cm. O grande desafio é manter o fundo de quadra, e devido a todos esses detalhes, a mão de obra pode encarecer a manutenção de uma quadra natural.

Tradicionalismo

Quadras de grama, que se originaram como a superfície predominante no tênis durante a época vitoriana, agora são um anacronismo reservado apenas para Wimbledon e um pequeno número de torneios ao redor dela no calendário. O Australian Open e o US Open, que costumavam ser disputados na grama, mudaram para quadras duras há décadas.

Mas, embora a quadra de grama seja considerada tradicional — o esporte era originalmente chamado de tênis de grama, afinal — a oferta de tênis de quadras cobertas em Wimbledon é moderna. Wimbledon adicionou seu telhado retrátil à Quadra Central apenas em 2009, e na Quadra 1 em 2019. Um sistema de ventilação extenso foi instalado junto com o telhado, mas a grama continua úmida.

— Acho que parece um pouco mais escorregadio, talvez, sob o teto. Não sei se é apenas um pressentimento. Você tem que se mover com muito, muito cuidado lá. Se você empurrar com muita força nos momentos errados, você cairá — disse o vencedor de 20 Grand Slams, Federer.

Também em Wimbledon, desta vez na Quadra 1, o australiano Nick Kyrgios levou um escorregão nesta quarta-feira. Felizmente, nada de mais grave aconteceu, e ele eliminou o favorito Ugo Humbert. Mais tarde, também derrapou na Quadra Central e sentiu a virilha, mas seguiu na partida.

Em nota, o All England Club defendeu as condições de suas quadras:

“A preparação das quadras de grama obedeceu exatamente ao mesmo padrão meticuloso dos anos anteriores. Cada quadra de grama é verificada pelos supervisores do Grand Slam, pela equipe de Arbitragem e Campo antes do início do jogo, e em ambos os dias da quinzena eles avaliaram as condições e liberaram as quadras para jogar. As condições climáticas nos dois dias de abertura foram as mais úmidas que experimentamos em quase uma década, o que exigiu que o telhado fosse fechado na Quadra Central e na Quadra nº 1 por longos períodos. Este é um momento em que a grama está mais exuberante e verde, o que resulta em umidade adicional no que é uma superfície natural.”, disse o comunicado.

Esta não é a primeira edição de Wimbledon atormentada por quedas. Em 2013, estrelas como Maria Sharapova, Victoria Azarenka e Caroline Wozniacki ficaram feridas depois de escorregar na grama. A culpa foi colocada em uma primavera particularmente úmida.

Quadras de grama em outros eventos fora de Wimbledon também se mostraram prejudiciais nos últimos anos. No Queen’s Club, em Londres, há dois anos, Juan Martín del Potro caiu na grama escorregadia e sofreu uma lesão no joelho, exigindo várias cirurgias, o que o impediu de retornar às competições.

Este mês em Halle, Alemanha, o 16º colocado David Goffin escorregou e caiu ao tentar plantar os pés na grama durante um ponto, sofrendo uma lesão que o tirou de Wimbledon.

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