À margem de qualquer auxílio: pandemia empurra 22 milhões à pobreza

Letycia Cardoso e Maiá Menezes
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A perda da convivência, de abraços e, até mesmo, da vida de um ente querido não são as únicas consequências que a pandemia tem trazido para diversas famílias brasileiras. Há quase um ano no país, o coronavírus também é responsável por levar embora várias conquistas individuais que — em sua maioria — demoraram a ser obtidas: um bom emprego, o negócio próprio, a casa. No ano passado, o auxílio emergencial, que chegou a 67,8 milhões de pessoas, tirou 14 milhões de cidadãos da linha da pobreza e evitou que outros 14 milhões entrassem nessa condição. Mas agora, com o fim do benefício, está acontecendo um retrocesso e até a classe média está perdendo a sua posição social. A previsão é de que as coisas só comecem a melhorar daqui a dois anos.

Há dias neste 2021 em que Simone Souza Bernardes, de 49 anos, deixa de comer para alimentar os filhos pequenos. Tem quinze. Mora com nove. Já estava enquadrada na linha de extrema pobreza antes da pandemia. Mas vive agora o medo maior: de que um de seus filhos ou ela própria morra de fome. Quando come, é uma vez por dia.

A família viveu um período menos dramático com o auxílio emergencial. No quintal com dez galinhas, sem água encanada, Simone conta com um poço artesiano e um fogão à lenha para cozinhar a exígua comida, quando surge.

— Já comi muito fubá com água este mês — diz Simone, cuja única renda é o Bolsa Família.

Dia desses, Aline, sua filha mais nova, de 6 anos, repetia todo o tempo que tinha fome. Não sossegou até encontrar uma forma com farelos de um bolo consumido há dias. Tratou de comer cada grão.

O economista e pesquisador da FGV Daniel Duque, estudioso da desigualdade, calcula que cerca de 14% dos brasileiros que não eram pobres em 2019, antes da chegada do coronavírus, passaram a integrar as faixas da pobreza e da pobreza extrema no início de 2021 em decorrência do alto desemprego, da redução de atividades e do fim do auxílio emergencial. São 22 milhões de novos pobres.

A nova pobreza também afeta quem já era pobre. Mesmo já na base da pirâmide social do país, Simone vive uma decadência econômica, que a leva agora à miséria. É um dos retratos de muitos que EXTRA encontrou nas duas últimas semanas em áreas carentes do Rio e da Baixada Fluminense.

Cálculos feitos pela ONG Ação da Cidadania estimam que, enquanto o governo e o Congresso não chegam a uma solução orçamentária para viabilizar a volta do auxílio emergencial, o número de brasileiros em insegurança alimentar, sem ingerir o mínimo de calorias necessárias por dia, chega a 10,3 milhões.

— Acredito que voltaremos ao Mapa da Fome, de onde tínhamos saído em 2004 — opina Daniel Souza, coordenador da ONG.

O Vale dos Eucaliptos, comunidade em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, é um microcosmo exemplar do quanto a pandemia agravou a pobreza no país. À carência de esgoto, à água precária, à ausência de calçamento e ao alagamento diante das chuvas fortes se somou a falta de renda e, por consequência imediata, a ausência de rotina alimentar.

Na família de Eliane Moreira Ribeiro, de 64 anos, que mora na região, a única renda é o benefício do filho com síndrome de down, de um salário mínimo. O valor não é suficiente para alimentar ambos e mais outro filho, que está desempregado, com a esposa grávida. Assim, eles dependem de cestas básicas que eventualmente aparecem e, até mesmo, de restos de carne que o açougue ali, no asfalto mais próximo, descarta. E a lenha é um jeito de evitar o gasto com botijão de gás.

Ao ser perguntada sobre a pandemia, diz que nem clínica da família existe por perto, muito menos exame. O medo também não é morrer pelo vírus, mas sim por fome.

— A pandemia aqui é a da fome. O sofrimento aumentou muito. Mas, sabe, o dia em que como meu angu é um dia feliz — desabafa.

Vitória dos Santos ganhava R$ 100 por dia a cada vez que saía para vender picolé na Praia de Guaratiba. Aos 21 anos, diabética, não pode mais ir para não se expor ao coronavírus. Ela mora em uma das casas mais altas do Vale com o marido, desempregado. A perda da carteira de identidade a levou ao pesadelo de não conseguir se habilitar para o auxílio emergencial. Hoje, também vive com uma refeição por dia.

“É como se eu estivesse dando vários passos para trás”, assim foi como a esteticista Adria Rodrigues, de 42 anos, sentiu-se ao ter que se desfazer do seu negócio próprio, pelo qual lutou muito. O sonho de ser empreendedora se tornou real em 2017, depois de ela ter trabalhado para três clínicas de estética. Entretanto, após o lockdown do ano passado, ficou inviável arcar com os custos do espaço, em torno de R$ 2.500.

Para continuar a trabalhar, Adria resolveu transferir os atendimentos para a sua própria casa, onde morava com marido, filho e sogra. Para isso, ocupou o quarto da criança e instalou seus aparelhos. Menos de 20 dias depois, um novo obstáculo: teve que viajar para Manaus, para cuidar dos pais idosos que precisaram de cirurgia.

— Tenho uma irmã que mora lá mas, como ela é enfermeira e estava na linha de frente, o risco de contaminar meus pais era grande — diz.

Quando finalmente voltou ao Rio de Janeiro, aconteceu a crise do oxigênio no Amazonas. A alternativa foi trazer os idosos para protegê-los. Isso a fez, mais uma vez, perder seu local de trabalho: o quarto de atendimento teve que ser desocupado para acomodar os novos integrantes da casa:

— Para mim, foi muito difícil porque tive que largar tudo duas vezes! Estou tentando, de alguma forma, trabalhar por conta própria mas, se não conseguir, vou ter que voltar a trabalhar para outros.

Adria não tem como esperar muito. O marido está desempregado desde 2016 e, hoje, a renda da família é composta pelas aposentadorias dos idosos. O valor não é suficiente para arcar com a despesa dos seis moradores e ainda quitar as parcelas do financiamento imobiliário do apartamento em que vivem, que está atrasado. Mesmo assim, unida, a família comemora a saúde de todos. A irmã enfermeira no front do caos de Manaus chegou a pegar Covid logo depois que os pais chegaram ao Rio e ficou em estado grave, com 75% do pulmão tomado. Agora, se recupera. A sensação que eles têm é de que foi por pouco...

Na quinta-feira, dia 12 de fevereiro, o pintor e lanterneiro J.C.F., de 38 anos, estava em seu terceiro dia dormindo na rua. Ele perdeu o emprego porque a empresa em que trabalhava não sustentou o baque que a pandemia trouxe: a perda de clientes. Morador do Méier, apelou ao auxílio emergencial até perder a carteira de identidade. Como não conseguiu tirar uma nova via, sofreu o reflexo mais duro: perdeu o beneficio. A rua foi a última opção. Não quer que os amigos e parentes saibam, se veste como se estivesse indo trabalhar, usando camisa pólo e outras roupas de quem há pouco tempo ganhava R$ 2,3 mil por mês, quando a comissão era boa.

— Estou sem renda alguma. É um jeito de não passar fome — conta ele, que morava de aluguel, e ainda mantém a esperança de, com documento, encontrar um novo emprego.

Em outubro do ano passado, um censo feito Secretaria Municipal de Assistência Social indicava o crescimento do número de população em situação de rua: 7.272. Desses, 752 disseram ter ido para praças por causa dos efeitos da pandemia. O número deve aumentar, avaliam técnicos, porque quando o levantamento foi feito não havia o dado que causou impacto social profundo entre os mais pobres: a suspensão do auxílio emergencial.

Uma entidade católica, a Sol de Assis, abriu há quinze dias um espaço para oferecer almoço a quem vive na rua. A coordenadora da Sol de Assis, Aurelina Cavalcanti, de 67 anos, vê o que a estatística ainda não consegue mensurar.

— Nos sinais de trânsito, diminuiu muito o número de doações. No começo da pandemia, servíamos o café da manhã. Vinham poucas pessoas, às vezes cinco. O número foi aumentando quando decidimos oferecer quentinhas. Mas os vizinhos reclamavam da sujeira na rua — conta Aurelina, que vê a fome rondando a população em pobreza extrema: — Aí abri um espaço, que das 12h às 14h, oferece às vezes a única refeição desses moradores. Ontem, vieram 63. Muitos acabaram de chegar na rua