À mercê de mudanças climáticas, Bacia Amazônica perde área três vezes maior que estado de São Paulo

Nem só pelo desmatamento é devastada a Floresta Amazônica. Camuflada sob o verde de capoeiras, pastos e plantações, jaz na Amazônia uma terra empobrecida e improdutiva, que captura menos e emite mais carbono. Nas últimas duas décadas, foi degradada na Bacia Amazônica uma área de cerca de 757 mil quilômetros quadrados, equivalente a mais de três vezes à do estado de São Paulo.

O dado é de um novo estudo internacional, liderado por cientistas brasileiros e publicado na revista Frontiers in Earth Science. Os pesquisadores avaliaram a influência da seca relacionada às mudanças climáticas no processo de degradação da terra na Bacia do Rio Amazonas, no período de 2001 a 2020. Combinando três tipos diferentes de análises por satélite, a pesquisa mostrou que 12,67% da bacia foram degradados em apenas duas décadas.

— As secas extremas, mais severas e frequentes, como as que têm ocorrido, são o principal impacto das mudanças climáticas nas florestas tropicais. A seca empobrece o solo, retarda o crescimento e prejudica o funcionamento da floresta. Uma floresta sob seca é como uma criança desnutrida, que não se desenvolve bem — destaca Humberto Barbosa, coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) da Universidade Federal de Alagoas e do grupo de estudo de degradação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

O estudo foi coordenado pelo Lapis, em colaboração com cientistas de EUA, Índia, Venezuela e Nepal.

Destruição silenciosa

A degradação associada à seca é uma forma de destruição insidiosa. A cobertura vegetal é verde, mas o solo é pobre e a vegetação definha. Ela escapa das técnicas de monitoramento usadas para detectar o desmatamento. Mas se torna mensurável quando se emprega também dados de satélites sobre chuva, evapotranspiração (a transpiração das plantas) e de severidade de seca.

— A degradação inclui o solo e a vegetação sobre ele. É um dos mais graves problemas ambientais, altamente complexo. Ela se manifesta pela redução da produtividade da terra, devido a uma combinação de pressões, incluindo variações climáticas e atividades humanas — explica Barbosa.

Ele salienta que a seca extrema associada às emissões humanas deixou de ser projeção de modelos climáticos e se tornou realidade. E a tendência é que se torne cada vez mais frequente, à medida que a atmosfera esquenta e aumenta o desequilíbrio climático.

As áreas mais degradadas estão no sudoeste da bacia, justamente as áreas mais desmatadas. A seca, acrescenta Barbosa, potencializa os efeitos do desmatamento e deixa a vegetação mais vulnerável ao fogo.

O desmatamento sozinho também causa a degradação do solo. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelam que no primeiro semestre de 2022 foram desmatados 3.971 km2 da Amazônia Legal. Junho teve a maior taxa da série histórica para o mês, iniciada em 2015.

À medida que as emissões de CO2 do desmatamento aumentam, também cresce a degradação da floresta remanescente. Isso acontece porque, se por um lado as plantas recebem mais CO2 e radiação para a fotossíntese, por outro, a seca reduz drasticamente a disponibilidade de água e umidade e eleva a temperatura. Isso retarda o crescimento das plantas.

Em webinário promovido pela Academia de Ciências do Estado de São Paulo, o pesquisador David Montenegro Lapola, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), advertiu que as áreas degradadas da Amazônia já emitem tanto ou até mais CO2 que as áreas desmatadas. Lopola não participou do novo estudo, mas também investiga a degradação da Amazônia.

Verde, mas debilitada

Mesmo verde, a floresta degradada está em farrapos, um estado de decadência ambiental em que todos perdem:

— O solo se torna extremamente pobre e improdutivo, aumentam as emissões de CO2 e num ciclo vicioso a seca, o fogo e as temperaturas elevadas se tornam mais intensos e frequentes. Também é um fenômeno não linear, que cresce em ritmo exponencial — alerta Barbosa.

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