Às vésperas de completar cem anos, Hotel Glória passa por obras para virar residencial de luxo

O vaivém de 110 trabalhadores — que chegarão a 500 no pico da obra — e de máquinas revelam que desta vez começa a acontecer a transformação dos escombros daquele que foi um dos hotéis mais glamourosos e com vista deslumbrante da cidade num residencial de luxo, com 266 apartamentos. O presente de aniversário chegou às vésperas de o Glória completar 100 anos, em 15 de agosto: em julho tiveram início as intervenções para a recuperação estrutural dos três blocos, que foram precedidas por serviços de prospecção do terreno.

Detalhes do novo Glória, até então desconhecidos, foram revelados, durante visita feita por uma equipe do GLOBO à obra. No lugar da antiga piscina, ficará o estacionamento, com seis andares, 436 vagas, além de tomadas e carga suficientes para todos os condôminos terem carros elétricos. A suíte onde se hospedou o físico alemão Albert Einstein, em maio de 1925, e vários presidentes da República, será redimensionada para virar moradia. E o heliponto, em estrutura metálica, deixará de existir.

— Achamos que não tem sentido ter um heliponto num residencial. Os órgãos de patrimônio (a fachada do hotel é tombada e será preservada) adoraram — conta o engenheiro Otavio Grimberg, sócio-diretor da SIG Engenharia, parceira do Opportunity Fundo de Investimento Imobiliário, que adquiriram o terreno em 2020, com um conjunto esqueletos que tiveram a obra paralisada em 2013 pelo grupo EBX, com a decadência do empresário Eike Batista, que comprou o imóvel em 2008, iniciando a reforma dois anos depois.

No novo Glória não haverá cobertura habitada, mas de uso comum. É lá que ficará a piscina e a sauna. Já os oito maiores apartamentos do bloco histórico, chamados de “garden”, terão 314 metros quadrados, só que 180 deles serão de área livre. Os demais imóveis, de dois, três e quatro quartos terão entre 70 e 229 m2. No primeiro andar, além de um “garden”, ficarão outros equipamentos de uso do condomínio. Serão 22 elevadores ao todo — dois panorâmicos — dez deles no bloco histórico. No prédio principal, haverá quatro lojas.

— No grande salão de entrada (no térreo do prédio histórico), vamos manter o pé direito (a altura de quase seis metro) e resgatar o que for possível, para que haja uma releitura do passado — explica o diretor da Sig.

Também engenheiro, Pedro Bulhões, líder da Área de Projetos e Construções do Opportunity, explica que está sendo feito “o retrofit do retrofif”, por conta da deterioração de materiais, devido a suspensão das obras por anos, e as mudanças no projeto:

— O aço que oxidou terá que ser arrancado. Estamos retirando as lajes que foram colocadas, uma a uma, mantendo os pilares. É uma obra única.

Dentro do Glória, num cenário de destruição, pilares da época de construção se misturam com outros da obra anterior e novos. Ainda é possível ver paredes com tijolos de 100 anos. Entre os poucos resquícios do passado, há balaustradas de ferro em algumas das janelas.

Segundo Grimberg, o investimento no novo Glória chega a R$ 400 milhões, sendo R$ 250 milhões no retrofit, R$ 100 milhões no terreno e R$ 50 milhões na decoração de demais despesas. De empregos diretos e indiretos, ao longo da obra, são estimados 4.500. A entrega das chaves está prevista para 2026.

Mas as intervenções extrapolam o imóvel. A da calçada colada à edificação, com trechos de meio metro, está sendo alargada para até dois metros. Na semana passada, os empreendedores obtiveram a licença da prefeitura para requalificar o entorno e suas peças tombadas: muretas e postes antigos e a Praça Juarez Távora serão recuperados.

— Recuperando o entorno, valorizamos nosso produto. O mal da Glória é que ela é muito abandonada. Então a gente resolveu dar uma repaginada — sintetiza o diretor da Sig.

O começo da obra propriamente dita e expectativa de lançamento do empreendimento, com a abertura das vendas das unidades, provocou um alvoroço no mercado. Imobiliárias e corretoras passaram a publicar mensagens em redes sociais e sites, algumas com informações e imagens não oficiais. Até cadastro para garantir a interessados prioridade nas visitas está sendo oferecido.

Chegou a circular a informação de que o lançamento ocorreria em agosto. Depois, que foi adiado para setembro. Agora, os empreendedores confirmam o último trimestre deste ano, até para que um estande de três andares e um apartamento modelo possam ser instalados no prédio histórico. Quanto a preços, a tabela não está fechada.

— Não batemos o martelo sobre o preço. A gente está sentindo o mercado, o momento do mercado — afirma Grimberg.

Gerente de vendas da Lopes Consultoria de Imóveis, Claudia Chamma lembra que o metro quadrado da região está em torno de R$ 22 mil — menor do que o de bairros como Leblon e Ipanema —, mas ele varia conforme o andar e a vista.

— O que posso assegurar é que já tem um movimento muito grande de interessados —diz ela.

Outro esqueleto no Morro da Viúva, que estava abandonado, chegando a ser invadido, foi recuperado: o edifício Hilton Santos, que foi sede do Flamengo e endereço de atletas do clube. Lançado em 2018, teve todas as suas 148 unidades vendidas rapidamente e já foi entregue. Também na Praia do Flamengo, o antigo Hotel Novo Mundo, construído na década de 1950 para abrigar jogadores que vieram para Copa do Mundo e que fechou em 2019, foi reformado e virou residência estudantil.

Perto dali, na Rua Paissandu, o prédio de mais um hotel em art déco desativado, com fachada tombada, foi transformado em residencial. As 50 unidades — com preço médio de R$ 20 mil o metro quadrado — devem ser entregues pela Piimo Empreendimentos Imobiliários em fevereiro do ano que vem.

Presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Rio de Janeiro (Sinduscon-Rio) Claudio Hemolin destaca que é “um golaço para a cidade deixar de ter esses prédios vazios, abandonados, sendo degradados, dando vida, ocupação e valorizando a própria região”. Mas Hermolin considera difícil afirmar se o novo empreendimento será um sucesso de vendas como, por exemplo, o do Morro da Viúva, já que as condições macroeconômicas são outras:

— Ele tem todos os pré-requisitos para ser um sucesso de vendas. Está numa região consolidada, com metrô, de frente para o Aterro, com uma vista deslumbrante da Baía de Guanabara. Está ainda próximo ao Centro e num local com grande volume de circulação de pessoas. Agora, há outros fatores a considerar, em relação, por exemplo, a taxa de juros, a inflação e o desemprego.

Presidente da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi), Marcos Saceanu diz que o mercado está na expectativa desse lançamento:

— Não podemos ter um edifício daqueles, que é um ícone, desativado, sem produzir nada para a cidade, num bairro bonito que é a Glória. Haverá uma transformação de uso com retrofit, uma técnica mundialmente reconhecida e respeitada que o Rio de Janeiro vai ver cada vez mais acontecer. É uma técnica sustentável, em que você reforma e devolve o prédio para a cidade.

Primeiro cinco estrelas do país, o Hotel Glória, na Rua do Russel 632, foi construído para receber convidados que vieram para as comemorações do centenário da Independência do Brasil, pelo empresário Octávio da Rocha Miranda. Ficou pronto a tempo da festa, recorda o historiador Milton Teixeira, diferentemente de outro ícone da cidade: o Copacabana Palace.

— O Copa acabou sendo inaugurado um ano depois, em 1923 — acrescenta Teixeira.

O historiador, especialista em história da arte, levou vários grupos para conhecer preciosidades do Glória:

— Havia muitas obras de arte, móveis do século XVIII, lustre francês modelo aranha e vasos chineses no lobby. Na suíte onde onde se hospedaram Einstein e presidentes da República, havia uma cômoda francesa linda. Pena que essas peças foram arrematadas em leilão, na época do Eike Batista, e acabaram se dispersando.

Com vista do Parque do Flamengo, do Pão de Açúcar e da Baía de Guanabara, o Glória ficou também conhecido pelos eventos que sediava: congressos, convenções e bailes de formatura. Era ali que acontecia um famoso concurso de fantasias de carnaval.

Em 2008, o hotel, que pertencia à família Tapajós, foi adquirido por Eike por R$ 80 milhões. o empresário começou a reformar o lugar em 2010, mas interrompeu a obra em 2013. Em 2014, o Glória foi comprado por um grupo suíço, que desistiu do negócio dois anos depois. O prédio acabou nas mãos do Mubadala, um fundo de Abu Dhabi, como parte da reestruturação de uma dívida de US$ 2 bilhões de Eike. Em 2020, foi vendido para o Opportunity.

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