Às vésperas da eleição do Rio, Martha defende voto útil, e Crivella dobra aposta em Bolsonaro

ANA LUIZA ALBUQUERQUE E ITALO NOGUEIRA
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***ARQUIVO*** RIO DE JANEIRO - RJ 04.09.2018 - Entrevista com Eduardo Paes. (Foto: Raquel Cunha/Folhapress)
***ARQUIVO*** RIO DE JANEIRO - RJ 04.09.2018 - Entrevista com Eduardo Paes. (Foto: Raquel Cunha/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Na reta final da campanha eleitoral, o debate no Rio de Janeiro gira em torno de quem deve ser o adversário do ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) em um provável segundo turno.

Empatados tecnicamente em segundo lugar nas pesquisas, Marcelo Crivella (Republicanos) intensifica as referências à aliança com presidente Jair Bolsonaro (sem partido), enquanto Martha Rocha (PDT) tenta se apresentar como a única alternativa para tirar o atual prefeito da disputa.

Na última pesquisa Datafolha, divulgada na quarta-feira (11), Paes aparece sozinho na liderança, com 34% das intenções de voto, seguido por Crivella, com 14%, e Martha, com 11%.

A deputada federal Benedita da Silva (PT) tem 8% das intenções de voto, tecnicamente empatada com a pedetista, e, no limite da margem de erro, com o prefeito -um empate, nesse caso, é considerado improvável.

A vantagem sobre a petista foi utilizada por Martha na última semana para consolidar a tese do voto útil. Na propaganda televisiva e nas redes sociais, a delegada afirma que só a sua candidatura pode tirar Crivella do segundo turno.

Com a narrativa, a campanha da deputada espera conquistar eleitores de Eduardo Paes e da esquerda, especialmente de Benedita.

Na última semana, Martha recebeu apoio de nomes ligados à esquerda na cultura, como o cantor Caetano Veloso e a ex-ministra Ana de Hollanda, que gravaram vídeos para a campanha da delegada.

"[Anderson Quack] é meu candidato a vice-prefeito, junto com Martha Rocha, que é candidata a prefeita, que deve ser a maior possibilidade de ultrapassar Crivella", diz Caetano.

Três pontos atrás de Martha na última pesquisa Datafolha, Benedita rebateu a estratégia da delegada.

"O seu voto só vai ser útil se ele sair do coração para dizer não à desigualdade, ao racismo (...) Eu quero o seu voto para garantir a minha presença no segundo turno", afirmou a petista em propaganda eleitoral.

O Datafolha mostra que, entre os eleitores de Benedita que ainda podem mudar de voto, 29% votariam em Martha. Ainda assim, ela tem enfrentado dificuldades para penetrar em alguns grupos progressistas.

O fato de usar como nome de urna o cargo de delegada, assim como determinadas decisões tomadas quando chefe da Polícia Civil, levantam suspeitas neste setor de que ela não abraça plenamente as pautas da esquerda.

Na outra frente, para conquistar eleitores do ex-prefeito e se consolidar como uma alternativa viável, a delegada adotou desde o início da corrida eleitoral o mote "há vida além de Eduardo Paes". Ela é a segunda opção de 24% dos eleitores do candidato do DEM que admitem mudar o voto.

O ex-prefeito leva a melhor em todas as projeções de segundo turno, mas em uma disputa com a delegada a diferença de votos é a menor entre todos os candidatos.

Ameaçado, Paes buscou atingir Martha desde o primeiro debate eleitoral, quando sustentou que a delegada não fez uma boa administração à frente da chefia da Polícia Civil.

Desde o início da campanha, o ex-prefeito adota a narrativa de que é um administrador experiente, que conhece a cidade.

Ele diz que o carioca não quer um novo Crivella, com uma gestão mal avaliada, e nem um novo Wilson Witzel, governador afastado que o derrotou na eleição de 2018. Assim, Paes sugere que Martha seria uma aventureira, e que o eleitor não deve arriscar outra vez.

Ao fim de outubro, Crivella e o ex-prefeito intensificaram os ataques contra a deputada, que havia apresentado ganhos nas pesquisas e, à época, empatava tecnicamente com Paes na projeção de segundo turno.

O movimento surtiu algum efeito. Embora tenha apenas oscilado dentro da margem de erro nas intenções de voto, Marta viu sua rejeição subir de 7% para 14% e perder espaço na simulação de segundo turno contra o candidato do DEM.

No mesmo período, Paes ganhou seis pontos nas intenções de voto, sendo o único candidato a crescer para além da margem de erro desde o primeiro levantamento.

Há uma semana Martha subiu o tom contra o ex-prefeito. Seus advogados entraram com uma ação de investigação judicial eleitoral, alegando que Paes articulou e financiou uma rede de ataques contra a deputada nas redes sociais por meio de perfis apócrifos.

De acordo com essa tese, as pessoas por trás dos ataques teriam sido contratadas com dinheiro público do fundo eleitoral, através da empresa Rio2020, que recebeu R$ 4,36 milhões de Paes e foi criada em outubro deste ano.

O ex-prefeito já tinha feito acusação semelhante contra a campanha de Martha. Ele alegou à Justiça que a delegada tem se utilizado de um grupo de funcionários da Assembleia Legislativa do Rio para difundir "fake news" contra a sua candidatura.

Outro favorito para enfrentar Paes no segundo turno, o prefeito Marcelo Crivella ainda precisa contornar um alto índice de rejeição.

Em dezembro do ano passado, em meio a uma grave crise fiscal e na saúde, esse índice era de 72%, segundo pesquisa Datafolha.

Meses depois, no início da campanha eleitoral, aliados e analistas avaliavam que o prefeito havia acumulado exposição positiva no enfrentamento à pandemia do novo coronavírus, e que sua rejeição havia diminuído.

Não foi o suficiente. No início de outubro, 59% dos eleitores diziam que não votariam de jeito nenhum no prefeito -uma rejeição ainda bastante significativa. Na última pesquisa Datafolha, nesta semana, a porcentagem subiu para 62%.

Crivella entrou na campanha buscando se cacifar como o principal candidato do campo conservador. Para isso, colou no presidente Jair Bolsonaro e abusou de sua imagem na propaganda eleitoral.

Assim como aconteceu com outros candidatos que disputam prefeituras nas capitais, como Celso Russomanno (Republicanos) em São Paulo, o apoio de Bolsonaro não surtiu consideráveis efeitos na campanha de Crivella. O prefeito tem hoje a intenção de voto semelhante a que tinha no início de outubro.

Ainda assim, Crivella não desistiu da estratégia para chegar ao segundo turno. Em quase um terço das publicações em suas redes sociais na última semana, a equipe do prefeito fez referências a Bolsonaro ou a deputados bolsonaristas.

Na quinta-feira (12), a três dias da eleição, políticos bolsonaristas e conservadores se reuniram em um evento no Rio em defesa da candidatura de Crivella.

Apesar dos esforços do bispo licenciado da Igreja Universal, Paes e até a pedetista Martha conseguiram conquistar parte do eleitorado de Bolsonaro.

Pesquisa Datafolha divulgada na quarta-feira (11) mostrava que, entre os que aprovam o desempenho do gestão Bolsonaro, 33% votam em Crivella, 24% em Paes e 10% em Martha Rocha.