Às vésperas da reabertura, Rússia é acusada de trabalho forçado por estudantes de medicina

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou o início da suspensão das medidas de contenção do novo coronavírus no país a partir desta terça-feira (12).

De acordo com Putin, o governo russo adotará programas de ajuda financeira a famílias cujos membros perderam o emprego ou tiveram que trabalhar de casa, e a empresas que precisaram fechar as portas temporariamente no país.

A retomada deve ser gradual, respeitando as características de cada região. Em Moscou, por exemplo, as restrições devem permanecer em vigor até pelo menos 31 de maio.

A iminência da reabertura, no entanto, não diminuiu o tom das críticas dos estudantes de medicina do país, que dizem estarem sendo forçados por autoridades russas a trabalhar no combate ao coronavírus, mesmo sem a experiência e os cuidados básicos necessários.

"Aqueles que não vão, não recebem diploma e correm o risco de serem expulsos", denuncia Svetlana, estudante de medicina do sexto ano em Moscou, à agência de notícias AFP.

Dado o número de infecções, o sistema de saúde russo -enfraquecido pela falta de pessoal, anos de cortes no orçamento e reformas controversas- está sob pressão. A implantação de quase 100 mil leitos adicionais em todo o país está se mostrando insuficiente.

Em 27 de abril, os Ministérios da Saúde e da Educação emitiram um decreto ordenando aos estudantes de medicina do quarto, quinto e sexto períodos a realização de "treinamento prático" em hospitais que tratam pacientes com Covid-19, a partir de 1º de maio.

Somente aqueles com "contraindicações médicas" estão isentos.

Segundo vários testemunhos coletados pela AFP, como o de Svetlana, alguns estudantes afirmam que estão sendo ameaçados de exclusão caso se recusem a participar. Eles pedem para permanecer anônimos por medo de retaliação.

Também estão preocupados com a falta de equipamentos de proteção individual nos hospitais. As autoridades reconhecem que há dificuldades, mas minimizam o alcance.

Alexandra, no quarto ano de medicina na Universidade de Setchenov, é franca: se "os médicos não têm os meios de proteção, duvido muito que exista o suficiente para nós".

A jovem também afirma que não vão realocá-la e que não quer arriscar "infectar seus pais" que moram na mesma residência. Sem proteção e sem experiência, "não ajudaremos e espalharemos a infecção".

Elena, em seu segundo ano em Setchenov e, portanto, isenta da mobilização, afirma que alguns colegas receberam ameaças.

"Se você não aceitar, não terá diploma, ou especialização", disseram eles, segundo ela.

Em um apelo anônimo publicado nas redes sociais, estudantes da Universidade de Pirogov pediram ao reitor, Sergey Lukianov, para estabelecer o "voluntariado" como um princípio.

Nem essa universidade nem a Secretaria de Saúde de Moscou responderam aos pedidos de resposta da AFP.

A vice-reitora da Universidade de Setchenov, Tatiana Litvinova, afirma que trabalhar em uma área que trata de pacientes com Covid-19 não é obrigatório.

"Se um aluno não quiser, pode continuar seu treinamento em outro centro. Ninguém o está forçando", disse Litvinova, contrariando o texto do decreto, que afeta mil estudantes.

Também promete que os estudantes que estiverem em contato com pacientes em Moscou receberão até 100 mil rublos (cerca de R$ 7.700) e terão "meios de proteção individual".

Para Ivan Konovalov, do sindicato Alianças de Médicos, mobilizar estudantes não resolverá os problemas de falta crônica de pessoal, êxodo de médicos e contaminação entre profissionais da saúde.

"Mesmo os [estudantes] do último ano não têm experiência em trabalhar nessas condições". Também explica que as autoridades estão mobilizando os estudantes devido a uma falta crônica de pessoal.

Nesse contexto, os estudantes lançaram uma petição online, pedindo a anulação do decreto. Outro grupo organizou um protesto no Instagram contra o "trabalho forçado".

A Rússia tem o quarto maior número de casos de Covid-19 no mundo, atrás apenas de Estados Unidos, Espanha e Reino Unido. Até esta segunda (11), são mais de 221 mil casos e cerca de 2.009 mortes, de acordo com a universidade americana Johns Hopkins.