Às vésperas do Dia da Consciência Negra, Alcione afirma: ‘Não é que eu me considere marrom, me chamam assim. Sempre fui preta’

Naiara Andrade
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Que inferno astral o quê! Alcione vem saltitando em nuvens macias nesses dias que antecedem seu aniversário, 21 de novembro. Se até então 2020 não vinha sendo um ano muito produtivo, por causa da longa reclusão imposta pela pandemia da Covid-19, agora a artista tá que tá!

Há três semanas, o telespectador mais atento percebeu Marrom radiante num modelito vermelho, anunciando com seu vozeirão que já é Natal naquela famosa loja de departamentos — que costuma antecipar em dois meses a festa de Noel. Nesta Semana da Consciência Negra, a maranhense que há quase 50 anos é inspiração na música vai reforçar sua imagem no mundo da boemia: nesta segunda-feira (16), será inaugurado no CasaShopping, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, o Bar Alcione — A Casa da Marrom.

No primeiro dia, o espaço abrirá as portas só para amigos e convidados da anfitriã, mas na terça-feira (17) o público em geral já vai poder frequentar o local, que contará com apresentações de novos e consagrados artistas, garçons performáticos e a tradicional feijoada com roda de samba. Na quinta-feira (19), o ápice: Alcione vai fazer lá o seu primeiro show com presença de público dos últimos nove meses, desde que se instaurou a pandemia no Brasil. E adiantará as celebrações pela chegada dos 73 anos, que lhe são bem-vindos.

— Menina, eu estou com uma saudade de palco, de microfone e das pessoas... A gente vai se esbaldar, vai ser bom demais! O povo só não vai poder me abraçar, porque a cantora tem que ficar bem, né? Mas vai todo mundo me ver espalhando beijos — antecipa ela, de olho nas recomendações de distanciamento social para evitar a transmissão do coronavírus: — Estamos preocupados, não pode ter aglomeração. Sei que é difícil não ter tumulto numa casa de samba, mas é preciso se cuidar. É regra, não podemos ficar fora da lei.

Já há quem diga, brincando, que a sambista está abrindo concorrência ao amigo Zeca Pagodinho, que inaugurou seu bar há dois anos, num endereço a apenas seis quilômetros de distância do dela.

— Não tem nada disso não, minha colega! O dele está sempre lotado e vai continuar... Tem público pra todo mundo. Um é do Zeca, outro é da Alcione, mas é tudo do samba. Sabe que a gente nem conversou ainda sobre isso? Vou dizer pra ele: “Não vem me arrasar, hein!” (risos).

Fora a decoração do lugar, com fotos e itens do acervo pessoal da homenageada, como seu inseparável trompete, arraso mesmo é o cardápio do Bar Alcione. As iguarias foram elaboradas pela chef e “mestre do sabor” Katia Barbosa: tem de croquetes de vaca atolada e empadinhas de porquinho a pudim de cachaça e creme de cupuaçu com chocolate.

— Eu provei tudo e dei os meus pitacos. A geleia de pimenta da minha irmã Ivone, por exemplo, fica muito boa com certos quitutes. Os bolinhos de feijão e de arroz de cuxá são sensacionais, mas eu gostei mesmo foi do caldinho de bobó de camarão... Quem é que não gosta de um caldinho pra acompanhar uma cervejinha?!

Os que ouvem até imaginam que a artista seja fã de uma “loura gelada”, como a maioria dos bambas...

— Que nada! Eu não bebo, não! Sou uma sambista às avessas, nesse sentido. Do que eu gosto, não posso nem chegar perto, porque sou diabética: um bom vinho do Porto e a caipirinha da minha irmã. Mas, vou te falar: aonde quer que eu vá, só vou acompanhada de “esponja”. Ô povo pra beber! Eles vão acabar com o meu estoque de cerveja, e eu só vou ficar nas comidinhas. Até a inauguração, estou fazendo dieta, para ficar linda. Depois, não vou conseguir resistir — entrega aquela que já embalou muita dor de amor nos botecos da vida: — Eu tenho essa voz de bar, né? Mas eu mesma nunca afoguei as mágoas num copo de bebida (alcoólica). Quando chorei, foi em casa, tomando leite ou guaraná.

Guaraná Jesus, de preferência. Aquele cor-de-rosa, com gosto que lembra tutti frutti e foi alvo de zombaria do presidente Jair Bolsonaro no último 29 de outubro, quando ele visitou o Maranhão.

— Ah, eu fiquei danada! Esse guaraná é tomado na mamadeira na minha terra, é uma tradição. Está na nossa memória afetiva, é digno de respeito. Ainda mais porque carrega no nome uma figura divina! Sempre foi chamado de “o sonho cor-de-rosa das crianças do Maranhão”. Pode ter certeza de que estarei brindando meus 73 anos com Guaraná Jesus! — desabafa ela.

Questionada sobre qual presente especial de aniversário gostaria de ganhar no próximo sábado (21), Alcione nem titubeia em responder:

— A vacina contra a Covid para todo mundo! Essa doença tem que sumir logo do planeta!

Pertencente ao grupo de risco, a artista diz que saiu pouquíssimo de casa nos últimos meses. Quando o fez, foi para resolver assuntos urgentes, sempre de máscara, “até porque sou o exemplo da casa”. A nordestina arretada, no entanto, afirma que a “nova peste” não lhe mete medo:

— Minha colega, me diga uma coisa: uma pessoa que já teve catapora, sarampo, alastrim, papeira (caxumba), herpes zóster... Ah, não... Eu já tive tudo quanto foi doença de pobre! Coronavírus nem me quer... Eu só não posso é ficar fazendo gracinha por aí, né?

O tempo de confinamento, ela conta, foi assistindo à TV com as irmãs, contando histórias, cozinhando, fazendo palavras cruzadas...

— Resumindo: igual a uma virgem casadoira, novinha em folha — brinca a veterana, também apontada com frequência como ícone fashion, mas que trocou os vestidões cheios de cor e brilho pelas peças mais confortáveis do closet: — Em casa, eu gosto é de andar com aquela roupa “mamãe-estou-na-merda”. A mais velha que eu tenho é a mais aconchegante, a que bate mais macia na pele.

Longe de ser encarado como um castigo, ficar em casa é um prazer para a artista que costuma trabalhar cruzando o Brasil de ponta a ponta:

— Sempre adorei ficar no meu cantinho! Essa história de depressão, comigo não pega. Sou escorpiana, minha colega. Sozinha, eu já sou uma festa!

Solteira, Alcione afirma que está muito bem com seu “status de relacionamento”. Há anos, não se enamora por alguém. Mas isso não a aflige:

— Quem é que não gosta de um amor? Eu gosto! Só que sou chata, não me interesso por qualquer um, não. E não estou na pista pra negócio. Estou só, eu e Deus. Se tiver que me aparecer alguém, vai acontecer. Acho que já tem uns oito anos que me apaixonei pela última vez... Gosto quando acontece “bateu, valeu”, “olhou, gostou”.

Quando e se surgir, o futuro pretendente vai ter que se contentar com um namoro em casas separadas. Ela não quer saber de casamento.

— Eu não quero mais dividir quarto, não. Quero fazer um amor gostoso, um “pá, pum” legal, e ele dorme lá e eu aqui. A minha cama é king size, gosto de me espalhar no meio dela. Não cabe mais ninguém — decreta Marrom.

Conforme os anos passam, o amor-próprio só aumenta. Adepta dos cabelos dourados ou mesmo coloridos por muito tempo, a sambista decidiu que já era hora de ostentar o grisalho.

— Não é por assumir a idade, é que eu acho lindo o tom prata. Eu me acho uma coroa muito charmosa, sabe? Sou vaidosa mesmo. Já fui à minha dermatologista hoje cedo, dar um “upgrade” no rosto. Fiz preenchimento pela primeira vez com 50 anos. Eu sou pretinha, a pele ajuda... Agora, já estou precisando pegar mais pesado. O laser cai bem aqui na pele de titia. Digo: “Vou passar a cara a ferro hoje”. Saio lisinha... Ô, coisa boa! E em casa tenho os meus produtos para me cuidar — entrega.

As garras enormes de loba, sua marca registrada, também continuam bem cuidadas.

— Costumo fazer as unhas de 15 em 15 dias. Hoje elas estão lindas: azul-marinho, com strass e rosas brancas desenhadas — orgulha-se ela, que tem sua própria marca de esmaltes e virou queridinha do mercado publicitário: — Ano passado, eu fiz a campanha da Eudora; este ano, a da Leader... Menina, eu quero saber até quando vão achar que eu sirvo pra garota-propaganda! Me chamou, eu vou (gargalhadas)!

Por sua personalidade marcante, sua arte e suas conquistas, Alcione é ídolo de muita gente. Mas, vejam só, ela se envergonha quando lhe cobrem de elogios.

— Acho engraçado quando me chamam de Rainha da Porra Toda. Pra mim, só Elza Soares. Ela, sim. Eu sou só uma mulher que procura fazer o seu trabalho direito e respeitar as pessoas, sejam elas quem forem. Trato do mesmo jeito o artista que está chegando e o que está indo. Acho que todo mundo está aí para ser criticado, mas, se não tiver respeito, o barraco desce.

Alvo de preconceito racial por algumas vezes, ela conta nunca ter baixado a cabeça:

— Esses ataques jamais me paralisaram. Jamais! Seu João Carlos e Dona Felipa (pai e mãe) me ensinaram a não levar desaforo pra casa. Eu nasci mulher, negra e nordestina. Tive que mostrar três vezes mais que eu era boa. Meu objetivo era dar orgulho e conforto para a minha família. Batalhei muito e, graças a Deus, meus pais não partiram deste plano decepcionados.

O tom da pele acabou inspirando o apelido carinhoso, que foi adotado como nome artístico.

— Eu tinha uns 30 e poucos anos quando, numa viagem, fui chamada de Marrom pela primeira vez. Um amigo pernambucano pediu para que eu cantasse as músicas de Núbia Lafayette, que ele estava com saudade da Marrom dele, a mulata com quem era casado — relembra a maranhense, alheia aos debates em torno da ressignificação dos termos de designação racial: — Não é que eu me considere marrom, me chamam assim. Sempre fui preta na minha vida. Na minha cor, no meu cabelo, eu todinha. Se me chamarem de negra, com bom tom, eu vou gostar. Pra mim, não faz diferença. Eu reconheço as minhas raízes. Sou essa mistura de índio com preto e português. E eu amo quem eu sou.

Às vésperas do Dia da Consciência Negra, ela prefere não mais comentar o entrevero com Sérgio Camargo, atual presidente da Fundação Palmares (em junho, depois que vazou um áudio de uma reunião em que ele chama de “escória maldita” o movimento negro, Alcione criticou Camargo numa live de Instagram com Teresa Cristina, e ele contra-atacou pelo Twitter, com insultos à cantora). Marrom diz que só o apoio que obteve da classe artística lhe basta como resposta e conforto.

— Altay Veloso escreveu uma coisa tão linda, tão linda, que não existe mais nada a dizer (ele divulgou uma carta aberta a Camargo). Quem tem um amigo poeta tem tudo!