'Às vezes, a ignorância da censura se volta contra ela própria', diz criador do Festival Mix Brasil

David Barbosa
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RIO — Símbolo da 28ª edição do Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, a figa guarda múltiplos sentidos para os realizadores do evento. Além de amuleto de sorte bem-vindo em tempos nebulosos, o gesto do punho erguido e mão cerrada sintetiza o histórico de resistência do festival, pioneiro no Brasil, e que acontece em formato on-line a partir desta quarta-feira. Para o criador André Fischer, a evolução do Mix Brasil comprova a teoria de que, quanto mais se tenta silenciar as vozes das ditas “minorias”, mais barulho elas fazem.

— Às vezes, a ignorância da censura acaba voltando contra ela própria — afirma Fischer — Hoje, vemos o mesmo fenômeno acontecer: as políticas de incentivo à arte LGBTQIA+ estão sendo desmontadas, mas a produção nacional está cada vez melhor e mais consistente. Esperávamos ter uma queda muito grande nas inscrições de obras para o Mix deste ano, mas as pessoas estão com ainda mais vontade de expressar seus pontos de vista.

A primeira edição do evento no Rio de Janeiro quase não aconteceu: na última hora, a então diretora da Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, proibiu que o festival acontecesse no espaço. Graças à repercussão do fato, a programação, originalmente restrita a Rio e São Paulo, foi levada a doze cidades naquele ano.

E, de 1993 para cá, o evento cresceu e se multiplicou. Inicialmente um programa de curta-metragens brasileiros dentro do Festival de Cinema Gay e Lésbico de Nova York, o Mix se emancipou e passou a reunir cinema, teatro, música, literatura e artes visuais produzidos por e sobre a comunidade queer.

Quase cem filmes

Este ano, a programação — totalmente gratuita — inclui shows de artistas como Linn da Quebrada e Bia Ferreira e conferências com Jup do Bairro e Marina Lima, entre outras personalidades, além de exibições de filmes inéditos. A edição também homenageará a drag queen Márcia Pantera.

Todas as atrações podem ser acessadas pelo site do evento, com exceção de três longas estrangeiros, que ganharão sessões presenciais no Cinesesc, em São Paulo. Um deles é o premiado em Sundance “I Carry You With Me” (EUA e México), de Heidi Ewing, a ser exibido no dia 13. No caso destas sessões, é preciso retirar o ingresso pelo site do Cinesesc.

Nessas quase três décadas de existência, o festival testemunhou — e exibiu — a reconfiguração do cinema voltado à temática queer. Se, na primeira edição, Fischer precisou investir num intenso garimpo para encontrar os 17 vídeos que comporiam a programação do Mix, este ano o evento recebeu quase 200 produções, entre curtas e longas. Dessas, serão exibidas 98, de 24 países.

Entre os nove longas nacionais que concorrem ao Coelho de Ouro, láurea máxima do evento, está “Vento seco”, de Daniel Nolasco, exibido no Festival Internacional de Berlim. O filme retrata um triângulo amoroso homoafetivo no interior de Goiás. Outro competidor é “Valentina”, de Cássio Pereira dos Santos, que levou o prêmio do público de Melhor Ficção Brasileira na Mostra de São Paulo com narrativa sobre a chegada de uma adolescente trans a uma nova escola.

— Lá atrás, os filmes brasileiros eram basicamente sobre sair do armário. Quase todos eram obras de humor, que, de certa forma, reforçavam estereótipos sobre homens gays. Com o passar do tempo, a produção foi se tornando mais política e diversificada. Os primeiros filmes com homens trans, por exemplo, chegaram para nós há uns dez anos — lembra Fischer.

Novos prêmios

Para 2020, o Mix Brasil reservou novidades, como a primeira edição do troféu Dramática, pelo qual competem seis peças de teatro inéditas, a serem transmitidas ao vivo diretamente do palco do Centro Cultural da Diversidade, em São Paulo, pelo YouTube do evento. A edição também marca o lançamento do prêmio Caio Fernandes de Abreu, destinado à publicação de um livro inédito. Por fim, o festival irá premiar uma obra literária sobre a comunidade LGBTQIA+ que tenha sido publicada no último ano em formato físico.

Outras atrações já tradicionais, como o Show do Gongo, apresentado pela atriz Marisa Orth, também terão espaço na programação on-line. E a figa, símbolo desta edição, estará presente numa série de lambes assinados pelo artista Felippe Moraes e espalhados por quatro centros culturais de São Paulo. São eles: o Centro de Culturas Negras - Mãe Sylvia de Oxalá, o Centro Cultural da Diversidade, o Centro Cultural da Juventude e a Vila Itororó. As exposições vão até 23 de dezembro.

Pôr um bloco tão grande na rua, ou melhor, na web não foi tarefa fácil, diante das perdas de patrocínio que o Mix Brasil enfrentou nos últimos anos. Mas Josi Geller, diretora executiva do festival, faz questão de celebrar mais uma edição:

— Por causa da pandemia, tivemos um corte de 30 a 50% em todos os patrocínios, mas também conseguimos novas parcerias. Com todas as perdas e censuras, ter o Mix Brasil forte, saindo do mesmo tamanho, é uma grande vitória.

Serviço

28° Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade

11 a 22 de novembro

Gratuito

Programação completa: mixbrasil.org.br