África espera pelo pior da pandemia com ações duras

FÁBIO ZANINI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Continente até aqui menos afetado pelo coronavírus, a África aguarda nervosamente pelo aumento no número de casos que inevitavelmente virá. Suas dificuldades para vencer a doença espelham as do Brasil, com infraestrutura de saúde deficiente, enormes favelas que dificultam o isolamento social e grande percentual de trabalhadores informais.

Mas os contornos são bem mais dramáticos, como mostram alguns dados coletados pela ONG americana International Rescue Committee, fundada nos anos 1930 por iniciativa do físico Albert Einstein, e que atua em 20 países africanos. No Sudão do Sul, há apenas 24 leitos de UTI e 4 respiradores para uma população de 10,5 milhões.

Em Burkina Fasso, existem 11 respiradores para 20,8 milhões de pessoas. Serra Leoa (6,6 milhões de habitantes) tem 13 destes equipamentos, enquanto a República Centro-Africana (5,9 milhões) conta com apenas 3. Na Somália, são 15 leitos de UTI para 11,7 milhões de habitantes.

Nenhum deles até agora chegou à marca de mil casos ou de 50 mortes. Mas autoridades de saúde do continente dizem que esse cenário é ilusório.

"Estamos num esforço de prevenção, mas sabemos que podemos estar rumando para um surto maciço. Precisamos nos preparar para administrar esse número de casos, que vai definitivamente aumentar", disse John Nkengasong, diretor do Centro para Controle de Doenças da União Africana, em declaração na segunda-feira (27).

Até esta quinta (30), havia mais de 38 mil contaminados na África, com 1.600 mortes, em praticamente todos os países --a exceção é Lesoto, pequeno reino encravado na África do Sul. Segundo contabilidade do site Worldometers, são 28,59 casos por milhão de habitantes no continente, ainda bem abaixo da média mundial, de 415 por milhão.

Mas nas estimativas da União Africana, até o início de junho 45 dos 54 países do continente terão mais de 10 mil casos de Covid-19. Prevendo um colapso do sistema de saúde, diversos países têm adotado algumas das medidas mais duras de isolamento social em todo o planeta, mesmo com número de casos ainda baixo.

A África do Sul, que lidera o número de infectados no continente, (5.350, com 103 mortes), implementou um lockdown espartano, que incluiu até a proibição de venda de bebidas alcoólicas e cigarro.

O isolamento deve ser levemente flexibilizado nesta sexta-feira (1º), com autorização da venda de comida por delivery, mas ainda sem permissão de comercialização de bebidas. Isso tem levado muitos sul-africanos a recorrerem à produção artesanal de umqombothi, uma cerveja tradicional à base da fermentação de milho e sorgo.

O Exército e a polícia patrulham as ruas sul-africanas, e mais de 17 mil pessoas foram presas por desrespeitar a ordem de ficar em casa e sair apenas para comprar comida ou ir a um serviço de saúde.

Ao todo, 39 dos 54 países africanos implementaram alguma forma de lockdown, e 17 estabeleceram toque de recolher noturno. Muitos apesar de terem apenas algumas dezenas de casos confirmados por enquanto. Diretor da Selpal, fintech destinada às camadas de baixa renda na África do Sul, Sanele Gaqa afirma que as restrições draconianas paralisaram as townships, as gigantescas favelas do país.

"A economia das townships é baseada na habilidade de se mover. Se você tem emprego fixo, precisa de transporte público, que foi severamente restrito. Se é um vendedor informal, precisa conseguir sair de casa e arrumar meios de obter o sustento do dia. Nada disso existe no momento", afirma.

Assim como no Brasil, alguns países africanos têm anunciado programas de ajuda para os trabalhadores informais, os mais vulneráveis.

Mas as dificuldades são muito maiores. Enquanto no Brasil o percentual de informais ronda os 40%, na África ele pode passar de 80% em alguns locais. Além disso, os países do continente enfrentam uma situação fiscal bem mais difícil.

"Os países africanos não têm bolsos profundos para jogar liquidez no mercado e em breve enfrentarão uma crise de dívida", afirma Jakkie Cilliers, pesquisador do Instituto de Estudos de Segurança da África do Sul e autor do recém-lançado "Africa First: Igniting a Growth Revolution" (África primeiro: acendendo a revolução do crescimento).

Ele cita projeção do FMI (Fundo Monetário Internacional) de recessão de 3% em 2020 no continente, comparada ao crescimento de 2,5% que era previsto antes da pandemia --um tombo de mais de cinco pontos percentuais, que deve jogar 11 milhões de pessoas na extrema pobreza.

Para tentar mitigar a situação, o governo da África do Sul anunciou que famílias carentes vão receber uma ajuda mensal de US$ 16 mensais por filho (R$ 85). Na Nigéria, serão US$ 13 (R$ 70) por criança. Ao menos uma dezena de países planejam modelos semelhantes de ajuda.

Segundo Cilliers, o auxílio dificilmente será suficiente para convencer as pessoas a ficarem em casa, o que pode levar a mais repressão.

Com certo otimismo, ele afirma que ainda é possível evitar uma mortandade semelhante à de Europa, EUA e Brasil, por uma série de características estruturais da região. Entre elas, o fato de a população ser bem mais jovem e ainda bastante rural, o que limita a possibilidade de contágio.

Ao mesmo tempo, ele acredita que, a depender do tamanho da crise, poderá haver efeitos profundos para a política, com dois movimentos opostos e simultâneos. "Países autoritários, ou semidemocracias, como Uganda, provavelmente ficarão mais autoritários. Usarão essa crise para fraudar eleições, adiar votações e silenciar a oposição, com o discurso de não espalhar o pânico", afirma.

"Mas os países que estão se democratizando seriamente, como África do Sul, Gana e Etiópia, poderão ver esse processo se acelerar, pois essa situação reforça a demanda por transparência e coloca pressão sobre líderes para serem mais eficientes", disse.

Responsável pelo perfil do Twitter Covid State Watch (Observatório Estatal da Covid), a advogada australiana Eda Seyhan diz que países africanos têm se destacado entre os que mais usam leis de isolamento social para cometer abusos contra seus cidadãos.

"Problemas que sempre existiram com o policiamento foram exacerbados com a pandemia", afirma ela, que compila, com uma colega, denúncias de violência policial contra pessoas que supostamente estariam furando medidas de lockdown no mundo.

Segundo Seyhan, na Nigéria e no Quênia, até a semana passada, mais pessoas haviam morrido nas mãos de policiais que implementavam políticas de restrição do que em razão da doença. Na Nigéria, o mais populoso do continente, com 214 milhões de habitantes, a Covid-19 está servindo para reforçar antigas disputas entre cristãos e muçulmanos.

Em estados de maioria cristã, como Rivers, o governo local decidiu deportar estudantes de escolas corânicas, conhecidos como almajiris, para suas regiões de origem, no norte do país. Muitos deles vivem na pobreza, e alguns são moradores de rua.

"Determinamos a nosso serviço de assistência social que recolham todos os pedintes, incluindo os almajiris, e os enviem para seus estados de origem, com o objetivo de proteger nossa população da ameaça que eles representam para a transmissão dessa pandemia", afirmou o governador de Rivers, Nyesom Wike.

Apesar de sofrer condenação interna e externa, a medida foi mantida e copiada por outros estados nigerianos.

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